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Pra pensar...

Pra pensar...

Ela acabara de sair de uma dessas lojas chiques e caras de produtos importados e importantes para seres que se julgam refinados. Era num desses bairros elegantes, como o que ela morava. Nunca gostou muito de andar sozinha mas, nesse dia não teve jeito. Se convidasse alguma amiga para as compras que queria, quebraria o encanto do presente. Se fosse com seu motorista, logo estaria na obrigação de também ter que favorecê-lo, claro que nesse caso seria qualquer porcaria. Filhos não tinha. Não teve, porque seu pensamento sempre esteve preocupado com o disparate de desperdiçar todo seu tempo consigo mesma.

        Estava feliz, ego inflado, olhos brilhando de satisfação. Foi a primeira vez que fez compras sozinha. Achava-se a mulher mais esperta do mundo, por ter conseguido um desconto de  mil e quinhentos reais nas encomendas que fez na tal loja.
Enquanto transitava pelas ruas da cidade a caminho de sua casa, ia pensando se não esquecera ninguém da sua lista de amigos próximos e, também, amigos e gerentes de bancos ou clientes do seu marido. Sentia medo de estar sozinha mas, sua satisfação com as compras era maior que o medo.

       Ela encomendou várias cestas de natal com produtos que escolheu minuciosamente um a um.
Sua lista de mimos foi variada; prosseco italiano, wisky escocês, vinho alemão, foie gras, pistache iraniano, óleo de trufas e chocolate português, geléia de frutas e panetones franceses, damascos secos do Líbano, waffer da Holanda, doce de leite argentino, champanhe francês e outras coisas que julgou serem básicas.
Martelava sua mente, as nozes. Estava arrependida por ter encomendado nacionais ao invés de importadas. Contudo, viajava no seu mundo nobre e compulsivo. Sentia-se uma tonta por não ter convidado sua melhor amiga para lhe fazer companhia. Se a tivesse convidado, teria a chance de se exibir, ostententaria ainda mais seu poderio econômico. Mas aí, o presente mais caro teria que ser dessa amiga e, ela era pura sofisticação. Sua inteligência só prestava para almejar amizades com pessoas ricas, de preferência as que só usavam jóias raras. Ela sempre procurava usar algum elemento amarelo. Pensava ser feita de ouro ou qualquer puro e caro minério.

       Melhor estar sozinha, correndo alguns riscos, do que ter que mostrar sua lista de presentes e alguém ver e querer copiar, pensou a “pobre” milionária.

       Nisso, seguia a madame, com seu carrão, dando fechadas em uns e outros, sendo xingada por trabalhadores que àquela hora ainda estavam exercendo suas funções. E ela se deleitando no delírio dos seus meros prazeres.
Não sabia dirigir direito. Não era agradável com as pessoas. Não tinha um mínimo de humildade. Não sabia nada. Há!!! também não sabia escrever nada, além do seu nome, em comprovantes de compras feitas com cartões de crédito dado pelo seu ignorante e rico marido.
Sempre achou que estudar, para pessoas como ela, nascidas ricas, em berços de famílias quatrocentonas, era uma grande besteira.

       E o transito estava intenso, como todo final de ano, na semana do Natal, onde a correria parece uma alegria de carnaval. E a madame não se ateve a esses fatos. Estava acostumada a andar com seu motorista pobre e moreno, a quem chamava de Preto. Passeavam no seu Jaguar, entre caminhos resumidos a casas de suas amizades. Não estava acostumada a andar nas  ruas e ver gente, outro tipo de gente; a gente, a que sempre existiu e ela nunca viu.
     
       Em um farol, numa esquina mais à frente, uma menina carente pedia que comprassem seus doces, seus drops, suas balas ensacadas em saquinhos embaçados pelo calor do dia.

       Nenhuma das duas imaginava que iriam se encontrar...

   A rica; pensando na amiga e preocupada com as encomendas dos seus produtos importados e as nozes que eram nacionais.
A carente preocupada com sua fome e em ganhar dinheiro pra comprar comida para levar para sua casa e ver seus irmãos e seus pais.

       De repente, a dona das cestas pára, sem querer, em um farol que apareceu no seu caminho e encontra a menina carente, triste, tentando vender suas balas, à espera de algumas moedas ou sorrisos como forma de carinho.
Seu nome era Kewry e ao contrario da madame, ela sabia ler e escrever bem seu nome e o que mais quisesse. Kewry ia a escola que carinhosamente chama de latinha.

       Kewry se aproxima do carro imponente, no qual se encontra a madame. Oferece-lhe as guloseimas que esta vendendo. Na hora que parte para a tentativa, vai com ela a imaginação de que se não conseguir dinheiro, que venha, no mínimo, um sorriso... O qual ela nunca teve.

       -- Esses doces minha mãe faz em casa, dona...  Isso é uma forma de sustento para minha família. A senhora pode me ajudar? Veja, eles são bonitos e não são caros!!!
A bruxa faz menção de fechar o vidro do carro. A garota tenta interromper, na tentativa de vender seu trabalho, seu sustento;.quando ouve a seguinte frase:
       -- Acabei de fazer uma economia tremenda agora. Isso com certeza não é pra distribuir para pobres, nem vocês! gente de rua. Minha bolsa ta cheia, não é pra dar dinheiro pra você, sua fedida – Vai embora menina! Você ta maltrapilha, nojenta...

       Kewry saiu de perto do carro da “madama” e não trabalhou mais nesse dia. Chorou por todo tempo, enquanto via seus amigos, também carentes, trabalharem.
Quase apanhou quando chegou em sua casa, pois, não tinha levado a quantidade de dinheiro suficiente para alimentar seus irmãos e sua mãe, viciada em drogas . Mas, seu pai, alcoólatra, lhe deu um beijo.

       Ficou na sua cabeça, o momento em que abriu o farol. Viu a madame partindo. Sentiu-se humilhada e, apesar de tudo, gostou do seu branco sorriso.

       E ela nem sabia do tamanho do desconto, nem pensou no descaso e nunca soube o que eram nozes....
Orlando Miranda
Enviado por Orlando Miranda em 02/01/2006
Reeditado em 02/01/2006
Código do texto: T93240
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Sobre o autor
Orlando Miranda
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Orlando Miranda