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AS FACAS E OS DIAMANTES

                AS FACAS E OS DIAMANTES



     O show da moça e do rapaz. O tablado era bastante amplo. O circo servia a ambos de sobrevivência, e o casal nele se apresentava.
     A moça no tablado e o rapaz com as facas. A multidão parecia silenciosa. O rapaz não vacilava: atirava as facas. Os belos olhos verdes da moça se fechavam. “Era o seu amor, o amor do rapaz?” – perguntava a multidão. As facas grunhiam impassíveis. Estalavam na madeira. Nenhuma tocava no corpo amado da moça. Passavam rentes.
     O brilho das facas era imenso. O olho do rapaz petrificava-se. O seu amor girava no tablado. A platéia do circo levantava-se inteira. Os espetáculos davam o sustento àquele casal. Os malabaristas cortantes, a moça esperando os golpes que não lhe atingiam, pois saíam das mãos seguras do seu amado. Os aplausos eram intensos.
     Os muitos circos convidavam, sempre, o unido casal. As mãos do rapaz eram firmes. Concentrava a vista. A moça respondia sensivelmente. O brilho das facas parecia exercer o poder do sexo. O tablado enchia-se de facas. O seu corpo amado e belo estava no centro. O seu amor estava em meio àqueles brilhos mortíferos. Era a sua mulher, o seu sustento, o dinheiro ao findar o show. O salário por aquele espetáculo. Sua mão não vacilava. Tinha de ser firme. Qualquer erro, era a sua mulher que ele colocava em perigo. O rapaz sentia a angústia daquele jogo. A vida parecia se embaraçar naqueles momentos bem definidos. Então ele atirava as armas, e a massa vibrava. A arma era extremamente real. Parecia, sempre, que uma das facas teria o destino fatal. Mas não... a faca passava rente. Os olhos verdes de sua linda mulher brilhavam. Brilhavam eroticamente... Havia um erotismo que o prendia ao tablado. Seria o erotismo daqueles olhos que fazia com que as facas não alcançassem o corpo? Ou seria, apenas, uma habilidade ou responsabilidade do rapaz que realmente fazia com que as facas se desviassem?
      O jogo prosseguia a cada espetáculo, a cada caminho de cada circo. O casal perambulava por todos os cantos. Os aplausos pareciam, sempre, parciais. Quem se importaria com eles? Esta angústia é que acompanhava o rapaz e sua bela moça. Tanto tempo naqueles espetáculos, naquelas navegações impassíveis que entristeciam a outra face dos espetáculos.
 


.............................
     
     O público passava os olhos pelos espetáculos. A singularidade daquelas vidas buscava o quê? Era continuar sempre navegante.
     Sempre entre estranhos que não falavam. O rapaz e a moça do tablado. Mais uma cena. O rapaz manteria tanto controle sobre si mesmo a ponto de desferir as facas?
     Era um trabalho de artista ou simplesmente de sorte? Em cada olho passava-se aquela visão. A arquibancada infestava-se de respingos luzentes. Os trapézios dançavam no ar. Era tão velho tudo aquilo...
     E novamente, no tempo arenoso, erguia-se o tablado, e a moça de olhos verdes no centro. No centro de todo o recinto. E o rapaz erguia os braços e executava o seu jogo cotidiano.
     Não passava o tempo... e o rapaz sentia uma grande inquietação. Noites e noites a pervagar. Não queria emprego. Não tinha mais coragem nem tão poucas ilusões institucionais. A vida, para ele, parecia sem formas. A sua companheira, moça de olhos verdes, já não atraía tanto. Estava enjoado. E só a inquietação, só a inquietação e os espetáculos e as facas e o tablado e a sua mulher...
     As noites interioranas não tinham cor, só silêncio. Os caminhões giravam, trafegando, à longa distância. O rapaz só ouvia esta ânsia de estrada, só esta ânsia; olhava a noite como o antro de tudo. E só a inquietação... Umas “mexidas” sob o corpo de sua mulher, sua companheira de trabalho no circo mambembe. A história parecia congelada, desde os tempos de menino. Eram as facas que brilhavam à noite. As facas do jogo que proporcionavam ao casal o pouco sustento. E quanto todos aqueles brilhos passaram a fascinar o rapaz!
     O rapaz passava noites olhando os punhais como se fossem diamantes. Verdes eram os diamantes e os olhos da sua mulher. As facas não eram diamantes, e o rapaz chorava escondido. A mulher passava por ele, em silêncio. O fascínio pelas facas era tão mórbido assim?! O rapaz sonhava sob a luz do lampião. E começava a temer os olhos verdes da mulher. Temia-os porque não ofereciam segurança a si mesmo. As suas armas estavam seguras, somente as suas armas. Ninguém mais podia tocar nas facas. Um ciúme louco se apoderou do rapaz. E a inquietação aumentando. Chegava-se a momentos de êxtase o seu coração, quando podia se apoderar das facas e lançá-las sobre o tablado no qual sua mulher se posicionava.
Aquele instante era firme, era conhecido. As horas pareciam reunir-se todas naquele momento. Seria sua vida tão sem importância? As facas podiam quebrar os diamantes. Podiam parti-los. Então ele reencontrava o brilho. O brilho dos diamantes se transferiria para as facas. E ele seria o dono das maiores armas de todo o mundo. E os olhos de sua esposa eram diamantes.

......................

     Mais um espetáculo. A casa cheia. O rapaz iria se apresentar com a sua moça. A presente inquietação era inédita, mas intensa. Ele nunca a sentira, desse modo, antes dos espetáculos. Suas mãos tremiam de ânsia. A inquietação parecia incontrolável. O tablado se ergueu! A sua mulher ao centro. O rapaz apanhou as facas. A platéia assistia atônita como se algo de novo fosse acontecer. Aquele dia parecia que o rapaz faria aparecer a história de um jeito ou de outro. Começou, então, a atirar as facas. Os olhos verdes da sua esposa arregalaram-se. As facas pareciam tomar um sentido certeiro. Raspavam nos braços da moça, nas pernas. Nunca antes fôra assim. As facas nunca se aproximaram tanto. E o rapaz começou a rir, rir baixinho, um riso cínico que ninguém percebia na multidão ou nos lugares especiais do circo.
     Um riso assassino. A sua esposa apavorava-se tanto que nem ao menos conseguia gritar por socorro. Estava sufocada de pavor. E as facas eram lançadas, próximas... Ela ainda acreditava no marido; ela esperava que ele estivesse, apenas, exagerando. Mas aquele riso parecia mostrar que tudo era diferente. Agora ela parecia estar nas mãos de um deus, nas mãos de um homem que não sabia como iria agir. A multidão nada sabia ou percebia, mas a moça sabia que aquilo já não era um espetáculo. E o rapaz apanhava as facas, sôfrego... Transpirava... os diamantes, os diamantes! Os olhos verdes da sua mulher arregalavam-se de horror. E ele se embalava com este pavor. Agora era o momento. A última faca estava em suas mãos. Os olhos de sua mulher cresceram de pavor, porque ela pôde pressentir. O rapaz sorria... Sorria um sorriso estranho. Ela tentou gritar, mas estava apavorada, não conseguia... A platéia vivia a ilusão de um espetáculo inofensivo. Quem iria domar o último golpe daquele rapaz? Então, forte e rijo, ele moveu o punho. Os diamantes pareciam chover sobre os seus punhais por meio dos olhos verdes de sua mulher: olhos arregalados, de terror. Então a última faca partiu, cantando ao vento. Explodiu no coração de sua esposa qual uma bomba. A faca penetrou tão fundo no coração da moça que o sangue esguichou logo cedo na superfície. Os seus olhos verdes continuavam arregalados. A multidão fez um só gemido. O sangue vivo da moça parecia ferir os olhos da multidão. Um pânico mudo se estabeleceu em todo circo. Nenhum gemido da moça. O lance foi fulminante. Atônito, o rapaz não se conformou. Puxou do revólver e atirou sobre os olhos arregalados da mulher já morta. Os diamantes... ainda pensava, mas o temor era imenso. Queria apagar a lembrança daqueles olhos. O crime parecia tão bárbaro que a multidão ficou estupefata. Todos ficaram olhando, atônitos! E a inquietação no rapaz era ainda mais intensa. Era, ainda, maior do que antes. Quis correr, mas tudo girava ao seu redor. Centenas de rostos. Milhares de faces. E olhos arregalados olhavam para ele.
     Alguém gritou na multidão:
     _ Assassino, assassino!
     A multidão acordou, então, do espanto paralisante.
     _ Peguem o assassino, linchem o assassino!
     O rapaz passou a atirar no público.
     Ele tentou, ainda, correr pelos fundos, mas já era tarde: os guardas do circo o cercaram. Correu, então, para o tablado, e lá encontrou a sua mulher totalmente destroçada. Soltou um grito desesperante. Foi a última inquietação que lhe restou. Um guarda atirou alguns punhais sobre suas costas. A boca e os dentes rangeram, e ele ainda mordeu horrivelmente os lábios de sua mulher. Os dentes fincaram como pregos. Caiu do tablado qual uma tocha. A última inquietação que lhe restou. As suas facas continuavam brilhando no tablado quais diamantes contemplando a morte dos humanos...


                         FIM



FERNANDO MEDEIROS
 verão de 2006
         
 
   
 


FERNANDO MEDEIROS
Enviado por FERNANDO MEDEIROS em 06/01/2006
Código do texto: T95094

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Sobre o autor
FERNANDO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
155 textos (8752 leituras)
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