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Dona Naná





      Depois de algum tempo hoje eu vi novamente Dona Naná.
Fazia quase dois anos desde a última vez que nos encontramos. Mas é como se fosse apenas um dia. Ela ainda parece continuar a mesma.
Dona Naná usava um uniforme todo de branco e trazia no rosto sempre um sorriso confiável e amistoso. Um óculos pendurado ao pescoço por um barbante lhe dava um ar mais austero, mas isso era só impressão. Ao trocarmos as primeiras palavras com esta senhora de 63 anos esse impressão era deixada de lado.
Seus cabelos brancos e sua tranqüilidade contrasta com um ambiente movimentado e com o silêncio sepulcral espreitando nos corredores do Centro de Atendimento no Hospital Municipal. Ela parece um anjo que desfila harmoniosamente, sem palavras ásperas ou modos bruscos. Parece mesmo alguém que desfila. Em nenhum momento seus atos deixam de nos parecer como se ela estivesse apenas passeando, dado a forma como se porta. Distinta, elegante, ombros elevados e olhar altivo. Seu modo de vestir-se é adequado ao local e quase esquecido nos tempos atuais. Seu tom de voz não falseia e em nenhum momento sua voz se faz mais audível que o necessário. Se conversa com um paciente, somente esse ouve o que ela diz. Quando fala com todos, o tom de voz é forte mas não chega a ser grosso.
Uma mãe chega com duas crianças. Traz a menor nos braços, entre as fraldas e ao seu lado, agarrado á sua mão livre, está um menino de olhos grandes e bem vivos. O nariz está sujo de ranho que também lambusou seu rosto quando tentou limpar com as costas do braço. A criança maior chorava em soluços. Não era um choro desesperador. Mas notávamos que tentava se controlar.
A mãe foi prontamente atendida por Dona Naná. Mesmo não sendo sua função atender os casos de pediatria, ela servia a ala da ortopedia, a nobre senhora acercou-se da criança que chorava e com um sorriso límpido e sincero tomou conta do menor enquanto a mãe vacinava o pequeno nenê de colo.
Eu me lembrei da vez anterior em que estive consultando ali.
Minhas costas ardiam de dor e mesmo assim tive que aguardar quase duas horas para ser atendido.
Naquelas duas horas pude conhecer um pouco do serviço desenvolvido pela enfermeira sexagenária.
Além de não requerer sua aposentadoria que já tinha direito adquirido, tanto pela idade quanto pelo tempo de serviço, ela ainda era voluntária em outro local  nos dias em que tinha folga no Hospital Municipal.
Eu me repreendia mentalmente. Vivia reclamando das minhas dores, dos meus problemas, e ali, num lugar onde jamais esperava encontrar energia e sim dor e ressentimentos, como geralmente acontece nos ambulatórios ou hospitais, encontrei um exemplo de dedicação e devoção ao próximo.
Me lembrei de que na ocasião, enquanto eu esperava pela minha vez de ser atendido, eu ouvi a conversa de outra enfermeira sobre Dona Naná. Ela falou que uma equipe de Televisão havia ido até a entidade onde a velha enfermeira era voluntária, mas que esta se negou a dar alguma entrevista. Disse que não era artista de TV. Pediu para esta, que na ocasião falava ao meu lado, para atender os repórteres.
A partir daquele instante comecei a olhar com outros olhos a Dama de Branco que com uma força esplêndida dedicava sua vida a cuidar de nós, ressentidos e ressequidos pela vida execrante que levávamos.
Depois da primeira vez que a vi, comecei a olhar os enfermeiros e enfermeiras com outros olhos. Quanto aos médicos... essa é outra história.
Quando Dona Naná sentou-se por um momento ao meu lado. Senti uma energia correr dos olhos negros e vivos daquela senhora bondosa. Para puxar conversa disse que havia esquecido o meu número de consulta e se ela não podia verificar para mim.
A enfermeira sorriu com uns dentes brancos e perfeitos de fazer inveja. Disse para não me preocupar, na devida hora tudo se arrumaria. Eu sorri e agradeci. Ela disse isso de uma forma tão carinhosa e enternecedora que imagino que fiquei uns momentos em silêncio, pensando se não era minha progenitora falando.
Não posso dizer se na ocasião estava por demais aberto ás emoções pois em um ambiente onde todos expressam dor em seus semblantes e tentam ficar em silêncio, controlando-se até o momento de serem atendidos, isso é muito fácil acontecer. O certo é que me emocionei ao ver tão linda e marcante figura.
Me interessei em conversar mais com essa senhora mas ela não ficava parado por muito tempo e tudo o que pude saber foi através dos seus pequenos e poucos momentos de descanso quando sentava-se ao meu lado, para evitar muitas varizes, segundo ela, como se aqueles breves instantes sentada dessem mesmo algum resultado.
Me disse que era viúva a mais de vinte anos e desde então se dedicara a arte de viver e fazer viver. Tinha duas filhas, ambas já casadas e que lhe deram duas netas e um neto. Não se sentia só, pois chegava em casa cansada e depois de ouvir rádio dormia rapidamente. Gostava dos programas da madrugada no rádio. Deitava lá pelas nove da noite e quando era cinco horas estava de pé.  Não gostava de televisão, achava que tinha muita porcaria.
Eu cada vez mais admirava o modo de vida da velha senhora. Sim, ela era feliz. Dava para perceber isso. Seus olhos, seu modo de sorrir. Sua maneira de viver era para muitos considerada uma loucura, mas para mim era digna de aplausos.
As enfermeiras mais novas me disseram onde ela morava. Eu queria ver onde se escondia tão nobre pessoa.
Num mundo onde a imagem conta mais que o caráter, havia uma pessoa que não queria saber de outra coisa senão de agradar aos que não tinham uma imagem agradável. Sim, pois é raro vermos um doente bonito.
A doença não é algo apenas interno ou interno, mas ela nos afeta de tal maneira que em determinado momento nos tira esperanças e sonhos, mina nossa alma e espiríto, acabando por destruir alguma estrada que muitas vezes mal começamos a trilhar. E mesmo que a doença seja só interna, ela acaba por afetar nossa aparência. Palavras da Dona Naná, me servindo um chá em plena tarde de outono na América do sul. Disse-me que a alguns anos tinha esse costume de tomar chá durante as tardes. Seus chás não eram iguais aos famosos chás Ingleses de Agatha Christie, cujos romances vi na extensa biblioteca que a velha senhora tinha em um cômodo da casa. Na cozinha havia muitos vidros com folhas e raízes das mais diversas espécies e gostos, para as mais diferenças causas.
A velha senhora me agradou de tal maneira, com seus gestos e maneiras que eu me sentia de volta no tempo. Como se estivesse num daqueles filmes de romances épicos ou mesmo lendo um romance de Somersete Maughan. Gostaria mesmo de Ter vivido em outra época, para conhecer Dona Naná quando mais jovem. Mas as discrepâncias nos tornam ambíguos. E assim como o passado não pode ser mudado o futuro não pode ser evitado.
Naquela tarde parecia mesmo que A velha Inglaterra descera naquele velho sobrado, onde Dona Naná residia. Um céu sem sol e com alguma cerração além da umidade no ar nos arremessavam em conversas amenas e doces. Eu que nunca havia tido uma avó para conversar pensava se a mãe da minha mãe fora assim quando nos seus últimos dias. Voltei ainda mais tres vezes até a casa da bondosa enfermeira. Depois não sei por que cargas d'água não mais a visitei.
Mas me lembro especialmente daquele dia.
Hoje mais do que nunca, pois de hoje em diante Mariana Damiana dos Santos terá ao seu lado anjos para tomar chá.
Eu espero todos sairem do cemitério e me aproximo. Não sou parente e nem algum conhecido importante dela. Ela talvez nos últimos dias nem lembrasse de mim pois pelo que fiquei sabendo não lembrava-se de coisa alguma a não ser do lar dos Aidéticos onde era voluntária.
Naquela tarde inesquecível com a velha senhora ela me disse que o que mais sentia falta nos dias atuais era de um cavalheiro que lhe mandasse flores.
Eu espero ainda mais uns dez minutos e então me aproximo do túmulo recém fechado. As gotas de chuvas amenizam e o clima agora é britânico como outrora uma vez o foi.
Acho que ela gostaria de um ramalhete de flores.


Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 30/01/2006
Código do texto: T105847

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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