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OS LIVROS DO BORRACHEIRO

Um dia o homem resolveu entrar naquele lugar. Já passara várias vezes pelo local, e no entanto, algo sempre o impedia de entrar... a loja ficava nos fundos de um corredor mal iluminado. Na frente havia uma borracharia.
O homem se perguntava: como pode uma livraria nos fundos de uma borracharia?
provavelmente seria uma lugar mal cuidado, a pessoa que tinha a loja não era de todo modo uma pessoa de bom gosto, onde já se viu, um loja de livros usados,nos fundos de uma borracharia.. sem dúvida uma discrepância sonora.
Naquele dia ele resolveu entrar.
A cada passo que dava para o corredor, seu temor e mesmo receio, aumentavam... sim, caminhar por aquele corredor, de paredes com a tinta desbotando, com limo, e sem iluminação era algo quase tenebroso, apesar de o corredor não ter mais que seis, sete metros...
Quando chegou na porta da loja, uma porta feita de tranças verticais descia do teto até o chão... uma espécie de treliça feita de pedaços de papéis... examinou os papéis. não eram papéis comuns... eram pedaços de livros... meu Deus! como podiam fazer isso! Páginas rasgadas de livros, penduradas por barbantes...

O lugar não era muito grande, mas o que primeiro lhe chamou a atenção eram as prateleiras, altas, de madeira, e velhas,  e todas elas correndo ao largo da parede, formando assim, elas mesmas, a parede... e nessas estantes, livros, tomos... a um canto uma pequena estante de ferro, com alguns livros mais novos..
Mas as estantes tinham muitos volumes velhos, até mesmo notou teias de aranha na parte mais alta de algumas delas.
Estranhou que não tinha ninguém para lhe atender, então viu uma sineta em cima de uma pequena mesa plástica, dessas de bar, e um cartaz que dizia "para ser atendido, toque a sineta" .
Ele pegou a sineta e balançou-a para lá e para cá...
nisso uma porta abriu-se e ele viu um homem baixo e gordo, com barba por fazer. Ele trazia um pano nas mãos, e sua roupa estava toda engraxada...
--- pois não!
--- Opa! Alguém aqui para me atender?
--- sou eu mesmo! NO que posso ser útil?
Então ele olhou melhor para o homem de barba.. estava vestindo o macação de borracheiro e limpava as mãos com um pano umido...álcool, deduziu pelo cheiro..
---- não se deixe levar pelas aparências- disse o borracheiro - Dá mais dinheiro lidar com pneus que com Livros... Mas a paixão verdadeira a gente nunca deixa de lado... Ernest Hemingway, lá em cima, Victor Hugo, aqui - pegou um livro - edição de 1912, de paris... pode ficar a vontade... os preços estão na sobrecapa... vou lá na frente, estou atendendo outro cliente...mas não vá embora sem falar comigo...
e o borracheiro se foi, e o homem ficou sozinho, olhando para aquilo que sentia ser a maior paixão de sua vida, livros... e na simplicidade do borracheiro ele entendeu que para ler não é preciso ter aparência jovial ou bonita e que nem só os acadêmicos, ou pessoas pertencentes a alta burguesia podem ter acesso ao conhecimento e cultura...

E na saida ele falou com o borracheiro, e ali voltou outras tantas vezes, e entre um pneu e outro conheceu melhor o borracheiro.



Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 13/02/2006
Código do texto: T111199

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes