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SABOR DE MEL├O




Duas vezes por semana, todas as terças e quintas feiras, de madrugada, ouve-se o ronco de um caminhão se aproximando. Junto a um monturo abandonado, o caminhão estaciona, solene, e ali despeja sobras de alimentos perecíveis: verduras, legumes e frutas. O veículo pertence ao “Varejão dos Vegetais”, empresa que engloba cinco lojas.

Quinta-feira passada, 28 de novembro, moradores dos arredores iniciaram o "garimpo", tão logo os funcionários do Varejão começaram a jogar os restos de vegetais no aterro, bem cedo. Adultos recolhiam verduras e legumes. Crianças selecionavam frutas. Muita coisa ainda se prestava para consumo. Organizava-se tudo dentro de sacolas de plástico ou dentro de caixas de papelão que, depois de usadas pelas lojas, comumente são atiradas ao lixo.

Marileninha é uma das meninas que recolhem aqueles sobejos. Compenetrada, ela desempenha sua tarefa, como se cumprisse um ritual litúrgico. É franzina, tem seis anos e imita a seriedade da mãe na coleta dos vegetais. Os dedos sujos, delicados e as unhas grandes manipulam tudo com muito cuidado. Certa madrugada, durante a coleta de frutos, ela experimentou e sentiu o sabor de um fruto estranho. “Eu já estava jogando fora, achando que fosse melancia verde, mas minha mãe disse para eu não jogar. Eu nunca tinha visto um melão. Comi e gostei.” E Marileninha estalou a língua,  gesticulou os dedos e a boca. Era como se ela estivesse dentro de uma igreja, num ato eucarístico, era como se ouvisse Deus dizendo: “Tomai e comei, isto é meu corpo”.

Nessa mesma madrugada, José Menino, desempregado, 34 anos, morando sozinho, também esteve no entulho do Varejão, como sempre, recolhendo o que comer. José Menino gostava de observar Marileninha, seus gestos delicados, seu corpo franzino, leve como um fiapo de pano, o rosto afilado, parecido com rosto de santa. Comprazia-se em ver os trejeitos da boca da menina experimentando as coisas que recolhia, estalando a língua, tão delicada. Que menina bonita.  Mudando de pensamento, José Menino conversou com um senhor de idade que estava por perto, dizendo que se aproveita tudo daquele entulho. "As coisas que não estão boas aproveitamos para fazer “lavagem” - comida para porcos e galinhas, geralmente produtos já estragados. O rapaz arrematou o assunto dizendo: “Leva-se para casa o que está bom, e se come". José Menino fumou um cigarro “pé de burro” e um filete de saliva aguacenta escorreu-lhe pelos cantos da boca. Ele tinha vermes, por dentro. José Menino gostava de se enturmar com os demais homens adultos, irmanados naquela faina de rotina. Da carrosseria do caminhão, vegetais bons e estragados  se despejavam, promíscuos, servindo de alimentos para seres humanos, galinhas e porcos, em pé de igualdade.

Naquele 28 de novembro, quinta-feira passada, Marileninha estava fazendo aniversário, seis anos de idade. Mas isso não quebrou a rotina de sua família que, desde bem cedo, esteve a postos, esperando o caminhão com os restos de vegetais. Quando o caminhão estacionou e começou a descarregar, a família avançou. A “colheita” rendeu muito para os familiares de Marileninha: três recipientes com saladas e uma cumbuca de suco. Foi uma festa.

A família da menina era formada de cinco pessoas: a mãe, uma tia e três filhos. Ao meio dia, a mesa foi posta, forrada com uma toalha branca, nova em folha. Tinha sido usada uma única vez, na noite de Natal. Três travessas de louça estavam cheias de comida vegetariana, uma com legumes cozidos, outra com verduras cruas. Uma outra travessa, mais bonita, continha cubos de melão, cuidadosa e caprichosamente arrumados. Era a alimentação festiva do aniversário de Marileninha. O vasilhame de vidro, contendo suco de manga com laranja e acerola, enfeitava a mesa. Assim, o banquete se coloria com muitos e variados matizes. Entre todos os matizes, o amarelo-alaranjado do suco se destacava.

José Menino tinha tomado banho e trocado de roupa. Ao meio dia, já estava entre as pessoas que queriam parabenizar a aniversariante. Muito acanhado, o rapaz trouxe uma lembrancinha para ela: um chaveiro com a imagem de Santa Cecília. “Não repare, não, Marileninha. É pobre, mas é de coração”.   A menina, alegre e descuidada, deixou o chaveiro em cima do armário da sala. “Muito obrigada, Zé”. Quatro vizinhas se cotizaram, apressadamente, e trouxeram, de última hora, uma travessa cheia de chocolates que foram servidos como sobremesa. Todos, adultos e crianças da vizinhança, se acercaram da mesa e cantaram parabéns pra você. Além do chaveiro de Santa Cecília que ganhou de José Menino, Marileninha recebeu alguns outros presentes simples, embalados com papéis celofanes coloridos. Uma caixa de lapis de cor Faber, uma bolsinha de guardar lapis, borracha e apagador, uma presilha de cabelo, uma lavanda da avon e uma sandália imitando as sandálias de Xuxa.

Estavam todos se servindo das saladas, quando, inesperadamente, uma moça adentrou a casa de Marileninha, pediu licença e disse que trabalhava para o governo municipal. Trazia um crachá no peito: “Liliane, assistente social” e o slogan da prefeitura: “Pra não faltar”. A mãe de Marileninha, falando à recém-chegada, disse “sente-se, fique à vontade, sirva-se da salada”. A moça agradeceu, “muito obrigada, não quero”, e explicou a razão de sua visita: “Vamos falar sobre o lixão de vegetais”. Diante da mesa posta e observando todos comendo com muito apetite, a assistente social, perfumada, batom róseo nos lábios, unhas pintadas, tentou conscientizar aquelas pessoas, dizendo que o entulho fazia mal à saúde, a comida era suja, tinha bactérias, micróbios que podiam levar pessoas à morte. E a assistente distribuiu panfletos, contendo conselhos, orientações. Marileninha comeu salada de legumes cozidos, em seguida experimentou do melão em cubinhos, sempre acompanhando o movimento dos lábios da assistente social que diziam “tem bactérias”. José Menino e as demais pessoas presentes, fizeram meneios reprovadores com as cabeças e com os olhares, discordando das palavras da agente municipal. Algumas vizinhas, senhoras de idade, soltaram muxoxos impacientes. “Minha senhora, a senhora está enganada. A comida é boa, bem escolhida, bem lavada e bem tratada em casa. O que não presta vai para porcos e galinhas. O que presta é servida à mesa como refeição. Está aí José Menino que não deixa ninguém mentir, porque ele também está sempre lá no entulho, recolhendo alimentos, como todo mundo”. José Menino confirmou tudo com acenos de cabeça e, a muito custo, conteve golfadas de saliva que teimavam em sair boca afora. A mãe de Marileninha, com os braços cruzados tentando suspender os seios caídos, conversou com a assistente social, falando com convicção: “Minha senhora. O entulho do varejão é muito bom. Hoje é o aniversário de minha filha mais nova, Marileninha. Por isso estamos comendo uma comida diferente. Bem cedo, de madrugada, recolhemos verduras e legumes do lixão, e eu fiz estas saladas muito gostosas. Havia muita comida em bom estado. Se não fosse assim, meus filhos hoje iam comer somente arroz e feijão. Que qualidade de aniversário, que qualidade de festa. Arroz e feijão. Eu, heim. Isso não é comida de aniversário". A assistente social escutou e anotou tudo.  “A senhora trabalha?” “Sim. Sou faxineira nas casas ricas”. “As crianças estão na escola?” “Sim, senhora”. A assistente social prosseguiu no seu rosário de perguntas, questionários sem fim. “Assine aqui, minha senhora”. “Não, não vou assinar, que eu não sei ler”. Mas a criança aniversariante já não ouviu mais nada. De repente, estava lá no terreiro da frente, suada, brincando de pular corda com as meninas vizinhas, lambuzando-se de chocolates, melando tudo: as mãos, os dedos e as bochechas. Uma baba cremosa e marrom desceu de sua boca feito cascata e esbarrou na gola do vestido róseo. Mas Marileninha não se importou, tão compenetrada que estava  comendo. Era como se estivesse comendo o corpo de Deus em carne viva, se derretendo e escorrendo pelo seu corpo. De longe, José Menino, 34 anos, observou a gulodice da menina, sem que ela percebesse. E, vendo-a se esbanjando em prazer, José Menino se excitou em suas glândulas salivares. Lambuzou-se na própria saliva mal cheirosa, de cor e sabor indefinidos, tão indefinidos como as cores e os sabores dos vermes que perambulavam seu organismo. “Tomai-o e comei-o. Isto é meu corpo”.



Esta é uma parte da história da menina que, aos seis anos de idade, nunca em sua vida tinha visto um melão. Chamava-se Marilena do Nascimento, não tinha pai, era bonita, embora pobre. Quis um estranho designio que, a partir dos treze anos, a vida de Marilena do Nascimento se entrelaçasse com a vida do moço que um dia lhe dera um chaveiro com a imagem de Santa Cecília. Conhecido vulgarmente como José Menino, o moço era muito pálido, sofria de verminose crônica, desde criança. Dentro dos limites de sua timidez, José Menino assediou Marilena do Nascimento, já mocinha, todos os modos que pôde, durante muito tempo. Escreveu-lhe bilhetes convidando-a para passear no parque. Deu-lhe presentes, bijuterias, guloseimas, sonhos de valsa. Chamou-a de minha boneca, minha noiva, minha linda.  Numa tarde de chuva, José Menino bateu à porta de Marilena do Nascimento, dizendo que estava chovendo muito, “por favor abra, preciso me abrigar da chuva”. Ela abriu e, ali mesmo perto da porta, dentro de sua casa, foi inesperadamente agarrada e desvirginada. José Menino deflorou-a, ávido e guloso, como quem comia fatias suculentas de melão, estalando a língua. No ato do desvirginamento, José Menino ergueu os olhos, e, nos estertores do prazer, pensou que desfalecia. Intimamente, clamou pela mãe: “Mãe, eu vou morrer”.  Rasgou Marilena do Nascimento e expeliu dentro dela todos os seus líquidos. Depois dessa investida, a moça passou muito tempo recolhida na casa de uma tia por parte de pai. Evitava lugares onde possivelmente desse de cara com José Menino. Ele a assediava dias após dias, escrevia-lhe cartas insistindo em se tornar seu marido de igreja e cartório. Não, não e não. Ela não queria. Fez tudo para que o rapaz se afastasse. Tentou outros rumos de vida. Conseguiu trabalho numa repartição municipal, sem carteira assinada por causa de sua menor idade. Com o passar dos dias, a moça se enamorou de um rapaz. Assim, sem saber de nada, ela construia um assassino dentro de José Menino. Numa quinta-feira, madrugada de novembro, ele se dirigiu à casa de Marilena, forçou a porta, entrou e matou-a com uma faca de cozinha, quando todos os vizinhos estavam no entulho do Varejão. Era 28 de novembro, dia de aniversário de Marilena do Nascimento. Dezesseis anos.
 
Dôra Limeira


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Enviado por d˘ra em 14/02/2006
Cˇdigo do texto: T111826
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Sobre a autora
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JoŃo Pessoa - ParaÝba - Brasil, 71 anos
8 textos (915 leituras)
(estatÝsticas atualizadas diariamente - ˙ltima atualizašŃo em 06/12/16 10:16)
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