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Os filhos do João!

Essa foi um amigo que me contou. Apenas coloquei no papel.
Aconteceu numa cidadezinha aqui da região, no início dos anos noventa. João era casado com Rita fazia mais de oito anos. Apesar de terem três filhos, e nem serem de muita briga, o casamento já não ia lá aquelas coisas.

João e Rita separavam e voltavam constantemente. Já haviam inclusive feito isso de forma oficial: No papel! Conforme Rita gostava de dizer para todo mundo durante os períodos de separação.

Dessa maneira, João destinava mensalmente, já descontado do seu salário, valor referente a pensão que ia direto para a conta de Rita.

Às vezes falavam de voltar de vez, outras de sumir pra sempre. O fato é que não viviam longe e perto não se agüentavam.

Quando separados, João pegava as crianças todos os finais de semana. E Rita saia para descontrair.

Diziam as más línguas que ela jogava água fora da bacia. João nunca acreditou. Chegavam a falar até que um dos filhos não era dele. Impossível, era tudo a mesma cara e todos ruivos igualzinho a cabeleira de João. Isso era inquestionável. E ele tinha razão era a cara dele mesmo.

Nessa vez que separaram, foram somente dois meses e meio. Não se encontraram nenhuma vez e João já se conformava que era a ultima. Até mesmo as crianças, ele não encontrava todos os finais de semana como de costume. Agora não teria volta.

Surpreendeu-se numa tarde de sábado, quase noite! Rita apareceu-lhe no portão e quase aos prantos passou a lamentar a ausência de João em casa. Era impossível viver sem ele próximo às crianças, pois, apesar de vê-lo todo sábado, sentiam sua falta. Até ela estava propensa a reconsiderar.

João ficou tocado! Rita convidou-o para o jantar. Aceitou mais que de imediato. Marcaram na antiga casa do casal as vinte e trinta horas.

Rita correu a se arrumar e preparar alguma coisa. Deixou as crianças com a mãe.
João se arrumou todo. Tomou aquele banho, fez a barba e se perfumou.

Jantaram tranqüilamente conversando. Nem pareciam os mesmos. Após o jantar Rita aproximou-se de João e fizeram as pazes de maneira incansável. Voltaram as boas e João voltou a morar em casa. Procuraram até o cartório para regularizar a situação. Voltaram a ser casados.

Uma semana e meia depois, Rita comunicou a João sua desconfiança de uma nova gravidez. O quarto filho do casal. Aquele que viria a selar o retorno definitivo.
João alegrou-se em princípio. Porém, pela primeira vez, teve uma ponta de desconfiança da mulher.

Não falou nada para ninguém, mas pensou consigo, quando essa criança nascer vou comparar com os outros. Se pintar desconfiança, vou pedir exames e tudo. Tenho que tirar isso a limpo. Posso ser meio paradão, mas corno, jamais.

E assim foi! Passaram-se os dias e João apesar de não dar muita importância as suas desconfianças. Também não as esquecia apesar do comportamento a toda prova desempenhado pela mulher.

Passados menos que sete meses, nasceu o rebento. Apesar de prematuro, um meninão! Nem precisou de estufa! O primeiro carequinha da família. Era comum que todos tivessem cabelos. Olhos claros lembravam bem a família.

Tudo bobeira, não passou de uma tola desconfiança.

Na casa de João e Rita, tudo voltou ao normal. As crianças brincando, Rodrigo, o caçula crescendo. E o casal, vivendo de maneira morna.

Até que sem mais nem menos, quando o bebê completaria três meses, Rita aparece do nada falando em separação. Afinal, não dava mais. João era muito folgado. Não queria saber de mais nada, exceto trabalhar no lavacar e passear com as crianças.

Não levava a esposa para sair nos finais de semana! Bailes? Ela nem lembrava como eram. Eram somente, festas de aniversários da família, igreja aos domingos, uma ou outra passada na casa do irmão de João para um churrasco de fim de semana.

João, não entendeu nada! Mas, não discutiu muito. Sabia como era a mulher. Daqui uns dias, estariam bem novamente.

João saiu de casa. Quem sabe uma semana e Rita esfriaria a cabeça. Com certeza vai atrás de mim, pensou!

Mas para surpresa de João, no dia seguinte lá estava Rita no lavacar acompanhada de um advogado. Ia pedir separação legal novamente. E dessa vez, queria a pensão para os quatro filhos. João lhe devia isso por todos os anos de dedicação.

João começou a passar mal, assim que a mulher e o doutor foram embora. Teve que sentar-se e se pôs ao pranto.

Um colega de trabalho, enternecido com a figura do pobre, pensando um jeito de ajuda-lo a abrir os olhos sem contudo ofender, pois sabia o quanto João gostava da esposa, propôs que João fosse também procurar um advogado e lhe contasse tudo que havia acontecido desde o início do casamento, inclusive os casa e descasa e as primeiras suspeitas sobre o ultimo filho – João lhe havia confidenciado num momento de tristeza – para ver se daria para tomar alguma providência. Pelo menos, evitar que o valor destinado a pensão aumentasse. Senão, João poderia correr o risco de nem mesmo ter como se manter.

Pela primeira vez, João pensou que essa seria a única alternativa. Assim fez! Quase que imediatamente, levantou-se e foi procurar um seu conhecido advogado.


Para os três filhos primeiros, João resolveu não mexer em nada, apesar das recomendações do advogado. Para o ultimo, sim! Ele pediria os exames para confirmar a paternidade. Apesar de ter certeza que era seu filho legítimo, ao menos imporia a Rita uma vergonha definitiva da desconfiança. Faria isso!

Por ordem judicial, para ficar mais vergonhoso ainda para Rita, foram colhidos os materiais de amostra laboratorial de João e do bebê! Quase chorou ao perceber que era ao filho que faria sofrer com essa desconfiança. Mas foi em frente.

Nem para casar tinha feito isso. Nunca fizera esses exames. Que vergonha! Se soubesse que o médico pediria tanta coisa, nem teria pensado nisso. Pagaria logo a tal pensão e pronto.

Passados alguns dias, saiu o resultado. Foram chamados ao esclarecimento do caso.
Antes que o médico se pronunciasse, João tratou logo de interrogá-lo com sorriso cínico para  constranger Rita: Não é meu filho, não é doutor? E para sua surpresa também, o médico, disse: Não! Não é seu filho!

O sorriso de João, antes cínico, ficou amarelo. A mulher baixou a cabeça enquanto João a procurava com os olhos.

Ao mesmo tempo, continuando a frase, o medido disse: O Senhor é estéril. Não pode ter filhos. Aliás, nunca pôde.

Enquanto, Rita saia quase que voando, João caia ao chão sem sentidos enquanto Juiz e advogados se entreolhavam surpresos.

Passados alguns dias, soubemos que o irmão de João, aquele que fazia os churrascos aos finais de semana, teve grande participação nessa estória e a quem agradecemos pelos esforços prestados.
Mauricio Gonçalves de Moura
Enviado por Mauricio Gonçalves de Moura em 17/02/2006
Código do texto: T113235

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Sobre o autor
Mauricio Gonçalves de Moura
Bauru - São Paulo - Brasil, 54 anos
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Mauricio Gonçalves de Moura