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Perdidos

         Já fazia duas horas que estávamos caminhando no escuro. Isso que dá sair sem uma lanterna pensava eu, enquanto Perivaldo ajudava Adriana a pular um galho de árvore.

         A mochila nas minhas costas não pesava tanto, mas mesmo assim, eu já estava cansado, pois afinal pelos meus cálculos já faziam quase cinco horas de caminhada. Adriana xingava Perivaldo por ele ter acreditado em mim quando disse que poderíamos voltar antes do escurecer.

        Havíamos saído de Floripa em quase vinte pessoas, mas meu intuito desde o momento em que o Perivaldo me convidou era chegar até os tais pilões, que os moradores das redondezas da cachoeira tanto falavam.

        Nas vezes anteriores em que havíamos acampado ali eu fora até próximo deste local, no entanto sempre sozinho, e como sabia que caminhar sozinho por lugares inóspitos e desconhecidos não é uma boa idéia eu sempre voltava antes de chegar até o objetivo. Os moradores e administradores do camping sempre diziam que eu havia chegado perto.

        Agora era tudo ou nada. Se Perivaldo subisse comigo eu iria, caso contrário não. De que adiantava ir até lá e ficar somente na beira da cachoeira, como um lagarto tostando ao sol? Não, para mim era burrice isso.
O negócio meu era subir até o limite suportável, desvendar caminhos, conhecer o desconhecido. Vendo que eu estava resoluto, Perivaldo aceitou.
Mas eu o conhecia bem, o fiz prometer uma dezena de vezes, senão faria como dos acampamentos anteriores. Chegando lá começaria a tomar banho no escorregador, tomaria cerveja e acabaria falando um monte de besteira, deixando a caminhada para o outro dia. Coisa que no outro dia tudo se repetiria. Mas não dessa vez.

        Mal chegamos no acampamento desmontei minha mochila e armei a barraca. Alguns tiveram um pouco de dificuldade. Eram novatos. Diziam gostar de acampamento, coisa e tal, mas algo me dizia que eram firueiros. Afinal não sabiam sequer estender uma barraca.

        Ajudei alguns e fiquei espantado com o tamanho da barraca em que o Perivaldo e a Adriana iriam ficar. Queria ver eles levarem aquela armação toda nas costas. Ficariam corcundas em dois tempos. Mas enfim, a tecnologia e os automóveis existem para auxiliar o homem. Pelo menos é o que se diz.
Depois de todas as barracas prontas, o pessoal trocou de roupa. As mulheres colocaram um biquini ou maiô, enquanto os homens estavam todos de bermuda, eu usava um calção de jogador. Detesto bermudas, se bem que são muito úteis quando se tem que levar alguma coisa nos bolsos. Mas nunca carrego nada nos bolsos.

       Descontraídos, admirados, os que lá iam pela primeira vez, começamos a tomar umas cervejas. Eram coisa de dez horas quando colocaram a carne para assar. Logo chegaram outros carros no acampamento, no entanto não levavam barracas, iam somente para desfrutar do local, sem saber que o desfrute maior é dormir ao som do mato, e acordar com o sol ainda nascendo.

      Os novatos no local insistiam em saber quando íamos subir. Propûs subirmos logo após o almoço. Assim a dita preguiça não nos pegaria e poderíamos caminhar tranquilamente, fazendo a digestão, até chegarmos aos saltos, que era como chamavam as cachoeiras.

      As barracas ficavam armadas em um reservado, bucólico, onde havia um pequeno bosque, um barzinho, e um riacho, resultado das cachoeiras, onde o pessoal e suas famílias brincavam alegremente, pois as águas eram tranquilas e límpidas, além de serem de pouca profundidade.
      A música que tocava no aparelho nosso tomava conta do lugar, pagode. Por esse motivo eu me mantinha um pouco afastado. O pessoal assava a carne ao lado do bar, onde havia várias churrasqueiras, e alguns bancos e mesas, toscos, feitos de tora de madeira. Tudo muito rudimentar. Mas o que queríamos? Afinal estávamos em meio a natureza.

      Logo após o almoço, passado uns vinte minutos, eu comecei a me preparar para a subida. Arrumei minhas coisas, tranquei a barraca,e coloquei a mochila nas costas.
     ---- Ei! Pra que a mochila? - perguntou alguém.
     ---- Quero estar preparado pra tudo! E depois não vou ficar me queimando no sol, parado feito um idiota. Vou subir até os pilões.
     ----- Onde é isso? - quis saber uma menina de cabelos loiros.
     ----- Agora nós vamos até a cachoeira. São uns quarenta minutos a pé. Aonde eu pretendo chegar deve dar mais que o dobro depois que chegarmos a cachoeira. E o pior. Só dá para chegar pelo meio da água.
     ---- Vai molhar a mochila toda! - disse a Adrina.
     ---- Não tem problema! É impermeável. -- disse eu, rezando para que realmente fosse.
 
     Logo todos estavam na trilha que levaria até a queda dágua. Perivaldo que já conhecia o caminho seguia na frente, com Adriana e alguns outros. Eu era o último da fila. Não por peso da mochila, ou cansaço. Mas por precaução. Sempre que vou acampar com turmas, procuro ficar em posição onde posso ver se todos estão bem. Se alguém não está sentindo dores, cansaço, ou algo mais. É muito comum, pelo menos naquela trilha, o pessoal sentir câimbras. Um pouco de álcool e canfora dá resultado, junto a alguma massagem.

     Quase meia hora depois eu ria ao ver que os valentes que haviam vindo conosco, contando vantagens na viagem de carro, estavam com a lingua de fora e perguntando a todo momento se faltava muito. Para falar a verdade a mochila começava a incomodar também. Era a primeira vez que subia com ela. A trilha não era ingreme, porém havia lugares em que devíamos nos equilibrar, subidas e descidas com a terra lisa, molhada pela chuva ou mesmo pela úmidade natural do local.
       Uma garota maluca resolvera levar seu filho de quatro anos junto. Se arrependeu amargamente. Eu mesmo a repreendi. Afinal aquilo ali não era local para se levar uma criança. Tínhamos que atravessar, em vários locais, por dentro de córregos, pisando em pedras escorregadias, com água até a cintura, enfrentando ainda a correnteza. Corríamos o perigo de uma torção. Coisa que realmente ocorrera em muitas ocasiões. Comigo nunca, graças a Deus.
Apesar das reclamações, daqueles que diziam que era longe pra caramba, e que nunca mais iriam voltar, acabamos chegando ao salto.

     Como eu previra, todas as discussões se encerraram. Diante deles um cenário grandioso. Mudos, ficamos estáticos por minutos, contemplando a magnifica obra da natureza . Apesar de já ter ido lá centenas de vezes, aquele espetáculo sempre me chamava a atenção. Desconhecia a quem não chamava. Após uma pequena curva, tínhamos que atravessar novamento o riacho. E depois dessa curva estavam lá. Os dois saltos.

      Duzentos metros a frente o primeiro; nunca medi mas devia ter uns cinquenta metros de largura por uns vinte ou trinta de altura, a queda dágua. No ar formava-se uma espécie de neblina, que o sol não conseguia romper. Acima deste primeiro salto, via-se lá de baixo, outro, com a mesma largura, no entanto parecia sua queda ser menor. Ledo engano. Eu o sabia. Era só subir pelas encostas para comprovar.
. ---- Lindo!
---- Que coisa linda!
---- Que maravilha! Nunca vi nada assim!
---- Cara! isso aqui é o fino! Valeu a caminhada!

    Eram os comentários. Eu sorria, como se fosse algo que pertencesse a mim. Na verdade o mato, a natureza, essas coisas sempre tiveram um grande efeito sobre minha pessoa. Se estou nervoso, saio, vou caminhar e volto calmo. Se não consigo realizar nada, é só ir pescar, volto outra pessoa. Sempre foi assim.

     Eu me satisfazia agora, ao ver que aquele grupo de jovens ali, na minha frente. Sentia o mesmo prazer deles como se eu também estivesse ali pela primeira vez. Talvez alguns deles pudessem, no futuro, se sentir igual a mim. Quem diria que aquelas pessoas, que gostavam de dançar até tarde, beber até não poder mais, agora, nesse momento, trocariam tudo por um lugar eterno ao lado de algo de tamanho poder e fascinação. Por falar em beber, essa era uma das minhas preocupações. No grupo havia tres rapazes que já haviam tomado muito. No carro que fizera nosso translado, contavam suas proezas baconicas, como se isso fosse alvo de admiração. Me preocupava pela noite que viria, poderiam beber e querer nadar. Isso já deu muita dor de cabeça.

      Passados alguns minutos o pessoal começou a tomar banho, aos pés da cachoeira. As mulheres se ajeitaram sobre as pedras e ficaram pegando uma cor menos alva, expondo seus corpos aos raios solares e a cobiça dos olhares masculinos. Apos alguns minutos admirando as figuras femininas a  maioria dos rapazes caiu na água. Alguns mesmo nadavam no poço onde fazia a queda da água. Olhei para o Perivaldo. Estava deitado ao lado de Adriana, em cima de rocha.
---- Ei! Como é? Já esqueceu?? - disse lhe cobrando a companhia.
---- Ha, qual é! Tira essa mochila das costas e descansa um pouco aí, depois a gente sobe!
---- Subir aonde? - quis saber Adriana.

     Os dois ficaram discutindo enquanto eu tirava a mochila das costas para descansar um pouco.

     O tempo foi passando. Já fazia quase uma meia hora que estávamos ali, parados. Eu parado, os outros se divertindo. Eu como não sabia nadar, só podia ficar olhando. Então cutuquei novamente Perivaldo, dizendo que se ele não ia eu iria só. Após muita insistência minha ele decidiu vir comigo. Adriana, com cíumes, ou sei lá o quê, disse que não o deixaria ir sozinho. Veio junto conosco.

     Antes de sair, dei instruções para o mais velho da turma que ficaria encarregado de levá-los são e salvos até o acampamento. Lhe disse que antes do anoitecer voltaríamos. Me perguntou se eu estava com todo o material necessário na mochila. Disse que sim. Engano meu.

     Percorremos a mata ao lado da primeira queda, subimos nos agarrando em cípos e raizes, apoiando-nos em pedras. Como eu já sabia o caminho, não o achei difícil, no entanto Perivaldo e Adriana penaram um bocado para me seguir. Isso que eu estava com uns vinte quilos nas costas e eles sem nada.
      Lá de cima, do parapeito da primeira queda, olhamos para baixo, o pessoal estava brincando ainda. Nossa subida até ali não demorou mais que quinze minutos. Soltei um berro para chamar a atenção do pessoal. Se revelou inútil, ninguém ouvia por causa do som da queda dágua.
---- Hii! Está fraco! - disse Perivaldo.
---- grita tú!- disse Adriana.
      Ele gritou e nós rimos á vontade. Nenhum resultado. Tomei ar. Limpei bem os pulmões. Inspirei novamente e soltei. Dessa vez o pessoal lá de baixo olhou para cima. Acenamos para eles. Alguns pegaram suas máquinas e tiraram fotos.
      Com cuidado, para não escorregarmos, caminhamos mais uns dez minutos até ficarmos de frente para a segunda queda. Era maravilhosa também. Lá de baixo, onde os outros estavam parecia que a segunda era menor que a primeira. Mas não o era, Talvez o angulo do olhar é que fosse meio difuso e com a barreira da primeira queda não conseguissemos ver melhor.
      Com uma corda amarrada á cintura, segura por mim e Adriana, Perivaldo aventurou-se a ir até debaixo da queda dágua, nadando. Sentíamos a pressão batendo na corda e imaginei o esforço que o outro não fazia para nadar.
Ficamos ali uns vinte minutos, então subimos até o topo dessa queda. Lá de cima já não conseguíamos avistar o pessoal que ficara embaixo. O bloco de pedras da primeira queda impedia nossa visão juntamente com a neblina que se formava.
     Consultamos nossos relógios. 2:30 da tarde. Beleza. Daria para irmos até os pilões. Pilões era o local onde se originava a água que formava toda aquela beleza indescritivel. Chamava-se pilões por que formavam poços de água, límpida e calma, segundo me contaram, e esse poços tinham a forma de pilão onde se moia milho, arroz, etc.
 
     Passado um bom tempo começamos a caminhar somente dentro da água, visto que a mata ao redor era muito fechada e eu não havia trazido meu fação. Em certos locais ainda víamos que podíamos caminhar a beira dágua, mas a maior parte do tempo caminhávamos por dentro do córrego.
Mais a frente, Adriana começou a sentir cãimbras. A água estava muito fria. Paramos a caminhada e a colocamos em terra seca. Procurei por uns gravetos e fiz uma pequena fogueira, tomando todas as precauções necessárias para não causar um desastre. Retiramos seus calçados e Perivaldo passou álcool e cânfora em suas pernas. Aos poucos ela foi ficando melhor. Perivaldo me consultou se não podíamos seguir pela beira do riacho.
       ---- Olha, dá até dá. O problema é que, olha lá - apontei para uma espécie de abacaxi do mato, que tomava conta de toda a lateral do córrego.- Aquilo lá corta tudo, calça jeans, pernas e braços, tudo. Eu prefiro ir por dentro da água, mas ...já que a Adriana está assim...fazer o que né...
---- você trouxe o facão? - perguntou ele.
---- Não! - respondi
---- E como vai fazer então? - perguntou num fio de voz Adriana, talvez se sentindo culpada por ter vindo, mas não querendo dar a entender isso.

     Peguei um pedaço de pau no meio do mato e fui na frente deles. Aonde eu encontrava aqueles espinhos eu batia com o pau até deitar as folhas e então eles podiam passar. Logo, para pegar um caminho um pouco melhor, deixamos o leito da água e seguimos por entre a mata. Eu temia fazer aquilo, mas já estava todo lanhado nos braços. Temia por que podíamos perder a noção da distância e do tempo, mesmo estando com os relógios. Pois o caminho por entre águas eu conhecia, no entanto por terra era me desconhecido. O tempo foi passando e eu já não ouvia mais o barulho da água.
     ---- Ei! Sabe mesmo para onde estamos indo? - insistia Adriana.
     ---- Claro que ele sabe! Pare de fazer perguntas idiotas! - reclamou Perivaldo já duvidando que eu realmente soubesse o que estávamos fazendo.
     
     Mais a frente eu parei e falei
     ---- Acho que nos afastamos demais da água. Não escuto o barulho do corgo.
     ---- Vamos voltar?
     ---- Acho que é o mais prudente! Voltamos pelo mesmo caminho que viemos até aqui! - disse eu.
     ---- Ah não! Pelo mesmo caminho não. Aqueles espinhos vão acabar nos matando. Olha só, estou toda arranhada.- reclamou ela.
    ---- Não podemos pegar outro caminho!? Acho que indo por aqui podemos chegar lá na cachoeira? Não acha! - disse Perivaldo indicando outro caminho.
    ---- Devíamos voltar pelo nosso rastro. Podemos nos perder.
    ---- Que perder nada. São quatro e meia agora. Só escurece lá pelas nove.
    ---- Isso é na cidade. Na mata, a partir das sete horas o sol já não penetra mais através das árvores.
    ---- Vamos por onde o meu marido mandar! Você nos trouxe até aqui! Nos deixou perdidos. Agora é a vez dele. Aposto que se dará melhor que você.
     ---- Adriana deixa de ser besta. Mas...eu aposto que acho a cachoeira. No exército eles faziam isso, deixavam a gente no meio do mato, para achar o caminho de volta, e eu sempre voltei.
      ---- Olha, o exército é uma coisa. Senão encontra o caminho de volta,  eles vem te pegar. Sabem onde te deixaram. Aqui não temos ninguém.
      ---- Tem rolo não! Fica frio! Se não der a gente volta até aqui.
 
     A contra gosto aceitei. Mas devia ter seguido meu instinto. Perivaldo ia na frente, eu atrás e no meio Adriana. Eu não pensava em sua bunda na minha frente, dentro daquele shortinho curto. Pensava em achar simplesmente os pilões. E se por acaso Perivaldo achasse o caminho? Falaria disso durante uns dois meses, do jeito que gosta de contar vantagens.

       Logo pela manhã, assim que chegamos ao acampamento eu vi que quase todos estavam em pares, eu reclamara por Dayanna não ter ido junto. Agora bendizia essa atitude dela.
       No ínicio Perivaldo caminhava rapidamente, como se realmente soubesse o caminho de volta. Mas com o passar do tempo, e com o sol baixando, pude perceber que seu ânimo era menor.
---- Merda! Tenho certeza que estamos perto!
---- Você nos fez perder tempo! Devíamos ter ido por onde viemos! - reclamava a mulher - Ele que estava certo. Agora estamos ainda mais perdidos.
---- Podemos voltar agora antes...
---- Não, eu tenho certeza. É por aqui! Vamos! - dizia ele.

    Merda de cara teimoso.Deveria ter insistido. Aquilo ali não era uma brincadeira. Estávamos perdidos e logo a noite cairia. mas me calei e consenti em que ele fosse nosso guia. Adriana já não ligava mais para os espinhos, e nem para as teias de aranha que estava no caminho por onde passávamos.
     Depois de um tempo, parei, tirei a sacola das costas e vi que horas eram. 6:20. O sol já começava a ficar rareando por entre as árvores. Peguei uma camiseta e a amarrei na cintura, por sobre o calção. Em instantes me arrependi de ter parado. Um enxame enorme de mosquitos, pernilongos e não sei mais o que avançou sobre nós. As mordidas doiam e quando coçavámos logo se formava uma bolha.

     Eu e Perivaldo buscamos alguns gravetos e fizemos uma pequena fogueira. Agora os insetos se sentiam incomodados pela fumaça e ficavam longe, no entanto a fumaça também nos incomodava. Tínhamos que fechar nossos olhos e ficarmos em meio a ela o maior tempo possível. Adriana xingava Deus e todo mundo.

    Então, quando o ataque dos insetos acabou, notamos que já era noite.
---- Meu Deus! E agora?! - Adriana falou sentando-se ao lado da fogueira, desanimada.
---- E agora?! - Perivaldo olhou para mim, com um misto de arrependimento nos olhos.
---- Pois é! e agora!?- disse olhando-os bem - Se tivessem me ouvido. Mas tudo bem, não é hora para recriminações! Olha, podemos caminhar ainda mais um pouco, tentar achar um lugar um pouco melhor, e então passarmos a noite. Amanhã, quando clarear, podemos tentar achar um caminho para descermos.
--- passar a noite no mato? - disse Adriana - Você está brincando?
--- Tem alguma idéia melhor? -- Ela calou-se emburrada.
--- Bom, então vamos. Agora você é o líder! - disse Perivaldo.

     Já fazia duas horas que estávamos caminhando no escuro. Isso que dá sair sem uma lanterna pensava eu, enquanto Perivaldo ajudava Adriana a pular um galho de árvore. A mochila nas minhas costas não pesava tanto, mas mesmo assim, eu já estava cansado, pois afinal, pelos meus cálculos já faziam quase cinco horas de caminhada. Mas entre tropeções, tombos espalhafatosos e agarrões em árvores cheias de espinhos conseguimos chegar junto ao um descampado.
Tirei das costas a mochila enquanto Perivaldo e Adriana ajuntavam alguns gravetos. Limpei ao redor do local onde iríamos fazer o fogo. Ainda bem que os fósforos não molharam. A mochila realmente se mostrara impermeável, como me garantira o vendedor. Era bem melhor que a minha antiga.

    Entre reclamações e xingamentos Adriana logo adormeceu em cima da minha mochila. Perivaldo e eu tomamos o resto do martini que levava na mochila, entre conversas e piadas, rindo dos tombos e dos perigos que havíamos corrido até ali. Logo depois adormecemos, cansados e um tanto quanto bêbados.
      Acordei com um negócio me cutucando o dedão do pé. Era um passarinho, bicando minha botina, cheia de estrume. Levantei-me, espreguiçei-me, e só então olhei para Perivaldo. Dormia ao lado de Adriana, deitado no chão, em cima de uma pedra. O fogo da fogueira que eu fizera ao redor do quadrado de terra onde dormíamos, ainda tinha umas brasas acesas. Olhei ao redor.

     Estávamos em um pasto de gado. Ao longe avistei uma casa. Esperei ainda uns dez minutos e então acordei Perivaldo. O cara roncava pra chuchu. Não sei como Adriana aguentava. Mas ela também roncava.
Os dois acordaram. Perivaldo avistou a casa também.
--- Podemos ir até lá! - talvez nos ajudem. - lhe disse.
--- É melhor. Depois dessa merda de noite. Olha só, estou toda estropiada. - dizia Adriana mostrando as marcas dos insetos e os arranhões.
--- Está certo! Eu estou com uma fome do caramba.
Rumamos para a casa. Conforme nos aproximávamos da casa, eu ouvia um barulho conhecido.
--- Água! Estão ouvindo?- e corri para o lado de onde eu ouvia o barulho.
     Os pilões!!
     Finalmente eu os achara. Ali estavam os famosos pilões. Eram uns sete poços cavados pela mão da natureza, que formavam o desenho do famoso instrumento que os antigos colonizadores e colonos usavam na fabricação de grãos e farinha em seus sítios e fazendas. A água era límpida e transparente dando uma falsa idéia da profundidade desses poços, sendo que alguns podiam ter mesmo mais de cinco metros de "fundura" e a visão dizia que não tinha mais que um metro.

     Fiquei ali parado olhando admirado aquela beleza toda, pois os pilões tinham uma saída onde as águas se reuniam e formam o início das águas que iriam formar o corgo que teria lá na frente aquelas duas lindas quedas d'água.
Perivaldo foi até a fazenda e conversou com um peão. Este foi chamar o proprietário.
     O dono, um senhor italiano gordo e de boa aparência, nos recebeu com alegria. Tomamos café e logo ele nos levou de carro até onde estava nosso acampamento.
    O pessoal estava preocupado conosco. Já tinham ligado para o corpo de bombeiros e estes disseram que se não aparecessemos pelo manhã, iriam começar as buscas.
    Foi uma aventura inesquecível.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 19/02/2006
Código do texto: T113930

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes