Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Quem conversa demais dá bom dia a cavalo

   Naquela manhã ensolarada e quente parecia que tudo iria transcorrer na mais completa normalidade num lugar do Mato Grosso goiano, chamado Jussara.
   A cidade amanhecera calma, sem noticias de brigas ou tiroteio nas ruas ou no cabaré. Também já fazia alguns dias que nada de importante acontecia por ali.
   O coletor da cidade, João de Brito Penna, mais conhecido como “Peninha”, atravessou calmamente a avenida e abriu a Coletoria Estadual, a repartição onde trabalhava. Sua casa ficava em frente à coletoria, ao lado do Hotel Jussara e da Pensão Canhete. Havia até montado para sua mulher uma loja que vendia tecidos e calçados.
  Como era de costume foi para sua mesa de trabalho e após conferir seus diários, sentou-se em um banco que havia ao lado da mesa, próximo à porta de entrada. Tirando o chinelão colocou o pé direito sobre o referido banco e começou a coçar entre os dedos uma das frieiras crônicas que possuía ha muitos e muitos anos. As frieiras segundo ele, eram recordações de um passeio que fizera no rio Araguaia, quando pisara em titica de capivara. Mas também não queria se curar das mesmas, pois achava muito bom sentar-se naquele banco, ficar naquela posição coçando as frieiras, e apreciar o vai e vem de gente e veículos na avenida.
   Peninha estava absorvido naquela árdua tarefa, e quase em êxtase, pois para ele não existia sensação melhor que coçar suas frieiras e preparava-se para mudar de posição e iniciar a coçar o pé esquerdo quando chegou o "Nenzinho”, sobrinho do Antonio Canhete da pensão, todo esbaforido e deu-lhe a triste noticia:
   -Seu Peninha, o velho Canhete acaba de morrer do coração. Coitado, morreu como um passarinho!
   -Que é que você esta me falando Nenzinho? Como foi que aconteceu?
   -De repente... Desculpe, mas não posso falar mais nada agora, porque preciso avisar a família! E saiu quase correndo rua abaixo.
   O Nenzinho era sobrinho e fora criado pelo Canhete. Magro, alto  deveria ter uns vinte e cinco anos de idade, solteiro, morava na pensão e ajudava nos serviços da casa. Era muito brincalhão e segundo diziam, o maior mentiroso da cidade.
   Peninha olhou em frente, para a Pensão Canhete, e de fato viu um movimento de gente da cidade chegando lá. A noticia corria depressa. O Canhete era muito conhecido em Jussara.
   Com a sua calma de sempre, levou quase dois minutos para calçar os chinelões, e foi ver o que podia fazer para ajudar no velório do vizinho.
   Nessas alturas, o corredor da pensão já estava cheio de gente, e mal dava para chegar até o interior daquela casa.
   Após muitos e muitos pedidos de “por favor, deixe-me passar”, “com licença”, conseguiu chegar até o salão onde funcionava o refeitório da pensão.
   Para sua surpresa, lá estava o Canhete sentado em uma cadeira preguiçosa e cercado de curiosos. Todos riam e estavam felizes, pois não passara de mais uma mentira do Nenzinho, que a essas alturas  também já havia chegado, e estava a morrer de rir da peça que havia pregado no pessoal de Jussara.
   Peninha aliviado volta para seu posto de serviço e senta-se novamente em seu banco e volta a coçar o pé direito, aguardando a hora do almoço, mas antes passaria no quiosque do Zino onde tomaria umas três ou quatro cervejas.
   O ônibus que saíra do distrito Santa Fé estava para chegar. Vinha lotado, pois era final de semana e os passageiros, geralmente gente  simples da zona rural, traziam consigo frangos, rapaduras, feijão e muitas outras mercadorias para comercializarem na feira. Às vezes traziam até porcos dentro de sacos e os colocavam no corredor, atrapalhando assim a movimentação dos passageiros dentro daquele veículo. Nos bagageiros em cima das poltronas, não cabia mais nada. Quem estava sentado muitas vezes era surpreendido com farinha ou outros objetos caindo sobre sua cabeça. Outros que viajavam em pé muitas vezes caiam sentados sobre aqueles que tiveram o privilegio de arranjar uma poltrona, com os solavancos do ônibus provocados pelos buracos da estrada.
   Não era raro surgir aquele tão terrível e conhecido mau cheiro, que obrigava a todos taparem os narizes e abrirem as janelas para poder  respirar. Talvez o responsável pelo “pum” era aquele passageiro sonolento e muito sério que tapando o nariz apontava e acusava o pobre do suíno que estava ensacado.
   Neste ônibus estava o velho Sinval. Pequeno fazendeiro na região do Tira – Pressa, perto do lajedo, que vinha fazer suas compras e beber suas cachaças de final de semana em Jussara. Já havia bebido algumas doses de pinga em Santa Fé e trazia para vender algumas galinhas e palmito, de sua fazenda. Com o dinheiro da venda, além das compras já programadas em uma folha de caderno, beberia um pouco e iria se divertir no bordel do Elísio. Morava sozinho em sua fazenda e pouca gente ia lá, pois era muito difícil o acesso. Não havia estradas e o caminho era de terra vermelha e parecia que havia óleo misturado, pois a poeira pregava na roupa e não saia mais. Também tinha o lajedo, onde diziam ser assombrado. Nesse lajedo existiam muitos desenhos feitos talvez por alguma civilização muito antiga que passou por ali, e que muita gente acreditava ser coisas do sobrenatural.
   O velho Sinval já meio zonzo da bebida vinha tagarelando muito e não se controlava mais. Também quando bebia, gostava de contar mentiras. Suas terras eram poucas, mas segundo ele, era a maior fazenda da região. As terras eram na maior parte improdutiva, pois havia muita pedra e região de muito babaçu.
   Peninha estava atento ao movimento da rua, e em seus pensamentos vinham lembranças da noticia dada pelo Nenzinho, e ria consigo mesmo daquela brincadeira de mau gosto. Viu quando iniciou uma briga em frente ao Hotel Jussara. Levantou-se do banco e foi até a porta para ver o que estava acontecendo.
   Dois homens discutiam e começaram a trocar murros. Um deles caiu e o outro sacou de um revólver e...
   O ônibus vai estacionando em seu ponto em frente ao hotel, e os passageiros ainda dentro viram toda aquela confusão. Sinval abriu a janela e enfiou a cabeça para fora e viu o homem caído e o outro com o revólver na mão, gritou:
  -Atira na cabeça que mata mais depressa!
  O homem que estava armado assim o fez. Atirou na cabeça do outro que teve morte instantânea.
  Sinval não conhecia os que estavam brigando, pois nunca os vira em sua vida e por falar demais, foi preso e indiciado como co-autor daquele crime.
  Processado e julgado acabou levando alguns anos de prisão para deixar de conversar demais.
  Peninha voltou para seu banco, tirou o chinelão do pé esquerdo e começou a coçar suas frieiras de titica de capivara enquanto pensava nas quatro ou cinco cervejas que iria tomar ali no quiosque do Zino, ao lado... Devido às ocorrências que o preocuparam tanto, iria aumentar sua cota de bebidas naquele dia.

Milgo
Enviado por Milgo em 21/02/2006
Código do texto: T114376
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Milgo
Goiânia - Goiás - Brasil, 75 anos
5 textos (845 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 02:27)
Milgo