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Um amor maldito


Marcos acordava cedo para ir trabalhar.
5:30 da manhã levantava e preparava seu café, dava um beijo na mãe e rumava até o local onde ia pegar a lotação para o trabalho. Almoçava no serviço mesmo e voltava para casa ás 18:00 hs. Ás 19:00 estava na sala da 3ª série da única escola da cidade. Às 23:30 encontramos Marcos jantando e arrumando suas coisas para o dia seguinte.

 Essa é uma preliminar para nos situarmos e nem precisamos falar sobre o esforço que um moço de 19 anos fazia na vida, para que esta fosse um pouco menos penosa para os seus familiares. Filho de uma mãe que cuidava do lar, e de um pai, sem estudos, que tinha por oficio a profissão de viga noturno, e sendo o primogênito, se sentia responsável pelos mais novos.
 
A rotina era sempre cumprida a regra. Acordar cedo, ir trabalhar, voltar, escola, jantar, dormir tarde. Sem tempo para as alegrias que todo jovem em sua idade gostaria de ter, e que devia ter. Para não passar os domingos como todos os demais dias; sim, todos os demais, pois trabalhava o sábado também,, ás vezes alguns amigos, ou melhor conhecidos, passavam em sua casa e o tiravam, a contragosto, do meio dos livros e o levavam para jogar futebol em algum campo no interior da cidade.

E quis o destino, esse senhor da vida e da morte, que um sábado, voltando este jovem de caráter e formação extraordinária do trabalho, parasse em frente a uma vitrine de loja e ficasse uns minutos a contemplar um vestido que havia meses vinha namorando para poder presentear sua mãe. Não era um vestido elegante, brilhante ou de luxo. Nem mesmo era uma roupa para se usar em um salão de festa. Porém para Marcos representava como se o fosse. Via sua mãe dentro da peça e sorria sozinho.

E nesse instante de contemplação que ficou, Marcos viu através da vidraça da loja quando duas moças atravessavam a rua. Duas lindas moças. As acompanhou por momentos pela vidraça, depois afastou o pensamento. Havia coisas mais importantes. Tinha que pagar o aluguel, ajudar seu irmão a pagar o curso de inglês, curso este que Marcos desistiu de fazer para poder ajudar o caçula a estudar.

Entrou na loja e mais uma vez, como já fizera anteriormente, pediu o preço. Novamente teve que ficar para o mês seguinte.

Ao sair da loja quase tropeçou em alguém. Ele desculpou-se. A moça sorriu. Então reparou nela. Cabelos loiros, cacheados, chegando até um pouco abaixo dos ombros; uma pela clara, lábios grosso; vestia uma camiseta branca e uma bermuda jeans, e seus pés calçavam um par de tênis brancos.

Esse momento, esse segundo, que parece uma eternidade aos olhos de quem o arqueiro cupido acerta, fez seu coração estremecer.
A cumprimentou desajeitadamente, e também a outra moça. que só agora via, estava ao lado de tão bela ninfa.

Elas se afastaram sorrindo. Talvez do jeito atabalhoado como ele se comportara, mas pouco importava isso a Marcos.

De repente ele esquecera suas preocupação. Estava mais leve, mais alegre por dentro. Seu coração pulsava feliz, sentiu vontade de cantar e o fez.

O fim de semana passou e Marcos não conseguia tirar a linda moça dos seus pensamentos. Não pensava nela com malícia, ou com desejos de pura carne, pensava nela como um viajante no deserto pensa na água; como um preso pensa na liberdade; pensava nela com necessidade.

A rotina semanal cumpriu-se novamente, porém dessa vez parecia que o tempo passou voando, pois o coração do jovem só trazia pensamentos para a loira sorridente. Arrumou-se todo no sábado a noite, quando chegou do serviço, se preparando para ir à missa. A sua mãe sorria feliz, pois coração de mãe não se engana, e sabe quando um rebento seu começa a amar.

Nada haviam combinado os dois seres alvejados, porém quando as pedras caem do céu, com certeza já tem alvo fixo. Vamos encontrar Marcos sentado em um banco dentro da igreja, rezando ajoelhado após receber a comunhão. Eis pois que seus olhos se levantam a todo instante e buscam alguém entre a multidão. Vagueiam de um canto a outro procurando aquela que não sai de seus pensamentos.

Dando por encerrada sua oração pós-hóstia, senta-se e desanimado começa a se dar por vencido. A fila da comunhão já está.... A fila!!! Claramente ele a vê! Linda! Um belo vestido branco, dando a ela uma suavidade tão pura e alva que mais parece um óleo de Rafael. "Ó Divina, òh meu pai, quisera poder ser eu o amado dela do mesmo modo, e com a mesma intensidade que ela é a minha", rezava e dizia para si mesmo Marcos.

Após ela receber a hóstia, ele a observou ainda até ver aonde iria sentar-se. Se ela percebeu seu olhar não deu a entender.

O rapaz estava triste, queria falar com ela, mas ao mesmo tempo receava, pois era tímido e podia ser que uma conversa assim, tão cedo, poderia vir a destruir seus sonhos e esperanças.

No domingo saiu para jogar futebol e ao voltar, perguntou a um amigo se conhecia uma moça loira de cabelos cacheados, que só aparecia na cidade aos sábados, ou seja, ele imaginava que ela só aparecia aos sábados, pois era somente nesse dia que a via, e como a cidade era pequena, dava para se conhecer todos os habitantes, mas ela ele não conhecia.

O amigo disse que devia ser a filha de Dr. Murtinho, o médico da cidade, o único por sinal, e que ela estudava em outra cidade, uma cidade maior.

Essa conversa que no inicio devia causar mais bem que mal, na verdade teve efeito contrário.

No coração simples e puro de Marcos ele observou que jamais poderia ter alguma chance com a moça. Ela vinha de uma família abastada, ele era um joão-ninguém. Se um dia fosse falar com o pai dela, pedi-la em namoro, o que ele diria? Parecia que via a cena:
----- E então, como a manterá? terá você condições de dar a ela o que eu dou? Poderá oferecer o conforto e o luxo a que ela está acostumada? Na verdade só a fará sofrer, e se a ama de verdade quererá vê-la infeliz? Com estes pensamentos a lhe envolverem Marcos resolveu esquecê-la.

Mas como? Falar é fácil, mas aqueles que já sentiram a ferroada no peito sabem o quanto Tristão e Isolda sofreram e não ignorem ser menor o sofrimento deste rapaz.

O amigo também lhe disse aonde ela morava. Mesmo com o coração pesado, Marcos resolveu não se entregar. Na segunda feira pela manhã, antes das seis, encontramos este jovem vindo para pegar o lotação que o levará até o serviço, subitamente pára em um canteiro de flores, canteiro daqueles que existem nas ruas separando as vias de trânsito dos veículos, arranca então uma rosa com todo cuidado, coloca o ramo sobre o casaco que o protege da fria neblina, e logo a frente, joga a rosa sobre a sacada de uma casa.

E essa situação repetiu-se inúmeras vezes no verão, enquanto a diva desse jovem permaneceu na cidade.

Mas como tudo tem um começo e fim adiantemo-nos no tempo e chegamos até a data em que a linda moça, que até agora ocultemos o nome por justa razão, tem que voltar aos estudos e deve viajar até a outra cidade. Tomemos nota que passados quatro meses, ela , a doce e meiga ninfa dourada e o jovem e bom samaritano Marcos, ainda não trocaram palavras não fosse o pedido de Desculpas de Marcos no dia em que primeiro se viram.

Porém um rosa sempre aparecia no alpendre da casa e ela sabia, através do seu coração, ele pensava isso, que ela sabia que era ele quem as jogava ali.

Um aviso veio de um amigo dar a Marcos a informação que ela viajaria para estudos. Pediu um dia de folga no Serviço, contou os trocados que tinha, sacou mais alguns poucos no banco e na segunda feira foi o primeiro a entrar no ônibus.

Ansiosamente aguardou ela entrar. Mas e se ela não fosse nesse horário? Não, impossível, o outro horário só saia à noite. E se ela não quisesse falar com ele? Dúvidas o assaltavam. Devia desistir? Já estava para descer quando as pessoas começaram a entrar. Entram duas moças. Nenhuma delas era ela. Outros mais entraram. Nada!! O motorista consultou o relógio. Marcos também. O cobrador entrou. Ouviu-se o motor ser ligado. Ela não vinha. Papel de bobo, idiota.

Uma luz dourada penetrou no corredor do ônibus quando os cabelos anunciaram a chegada tão esperada. Seu coração disparou. Viu em que poltrona ela sentou. Rezou para ninguém sentar do lado dela. A prima sentou-se do outro lado do corredor. Mais que depressa Marcos saiu do fundo do ônibus e avançou resoluto até onde ela estava. Cumprimentou aqueles olhos verdes timidamente, e com o sorriso como porta de boas vindas sentou-se ao lado da sua musa.

Pela primeira vez, estava próximo dela. Não trocaram uma palavra. Sentados, apertaram-se as mãos, entrelaçaram-se os dedos. Marcos ansiava por um beijo, mas ela tinha a prima do outro lado que não desgrudava os olhos e ouvidos dos dois. Então conversaram longamente.

Ela disse estar indo estudar para fazer o vestibular. e como o estudo na cidade era precário e desnutrido de condições para que pudesse enfrentar uma faculdade, resolvera de comum acordo com os pais e os tios, ela e a prima iriam para outra cidade. Contou sobre seus planos futuros e quanto mais ela falava mais Marcos se apaixonava.

Ela tinha tantos planos, tantos sonhos. Uma energia, uma alegria que contagiava-o. Quando perguntou o que Marcos iria fazer na cidade grande, ele desconversou, disse que ia atrás de emprego.

Não teve coragem de dizer a ela que pegara o ônibus somente para terem a oportunidade de conversarem. Quando chegaram na cidade grande se despediram. Ele pensou em dar ali um beijo no seu sonho encantado, pois afinal ansiara tanto por isso durante a viagem, porém ficaram somente nos acenos.

Acenos igual aquele que ela lhe deu quando estava jogando futebol em um dia de domingo e ela e seus amigos assistiam. Um aceno ás escondidas. Naquele dia marcou dois gols. Ela agora repetia o gesto, porém o escondia da prima. Será que tinha vergonha dele? Ou era medo? medo de que a prima contasse a seu pai, e esse resolvesse castigá-la?

Marcos esperou ela se distanciar, juntamente com prima, e então as seguiu. Havia visto como fazer isso em alguns filmes que assistira. Dobravam uma esquina e em seguida, sem ser notado ele também dobrava, entravam por uma viela e em seu encalço ele também entrava. E nesse jogo de gato e rato, Marcos as seguiu durante quase uma metade de hora.

Viu quando elas entraram em um pequeno prédio de dois Andares.
E agora? O que fazer a seguir? Voltar para casa? Já!!? Mas acabara de chegar.

Estava pensando enquanto voltava em direção a rodoviária. Passou em frente a uma loja e de repente viu uma linda blusa de malha. Assim como tempos atrás via sua mãe em um vestido agora via sua estrela dourada dentro deste tecido. Fechou os olhos. Imaginou-a vestida com aquela blusa.

Idiotice!! Mulher gosta de rosa, e depois não saberia dizer o modelito dela. Que número usava? A rosa era a melhor solução. Contou os trocados que possuía. Se comprasse a blusa não teria dinheiro suficiente para a passagem de volta.


Mas quem diz que o coração usa a razão? Este é um órgão musculoso e arrogante que fica à parte do cérebro, pensa por si só. Adiantemo-nos e vemos agora Marcos entregando a vizinha das moças um pacote pedindo a esta para entregar esse volume para a mais bela das belas. A mulher sorriu como dizendo que entendia, e de fato entendeu.

Marcos voltou para casa. A pé. Caminhou um bom tempo, logo pegou uma carona que um pouco do trajeto o aliviou. Chegou em casa ao cair da noite. Extenuado, perdeu a aula e dormiu de roupa e tudo. Ficaria mais tarde sabendo que caminhara 42 Km a pé.

A semana parecia interminável para ele. Será que ela gostou? será que serviu? Se se a mulher não entregou? Será que sabe que fui eu? Se gostou o que fará? E no final daquela semana que levou um século para passara, Marcos foi a missa. Sentou-se no banco que sabia ela sempre sentar. Ela sentou-se ao seu lado.

Ele já tímido por natureza, talvez agora mais, depois de ter feito ato tão impensado, não tinha coragem de olhar para ela. Então mais pessoas sentaram naquele banco e ela achegou-se junto a ele. A mão dela tocou a sua. Foi um toque suave, gentil. Carregado de ternura. Ele a olhou naqueles olhos que o mar invejava, e ela sorriu um sorriso de aceitação.

A missa começou e andava rapidamente naquele sábado a noite. Era missa da Páscoa. Em dado momento quase ao término da celebração ele e ela saíram para fora da igreja e foram até uma pequena sacristia que havia lá fora. Ele a tomou nos braços e beijou-a apaixonadamente sob a luz do crucifixo no altar dessa pequena capela. Foi um beijo carregado de paixão e amor. Ela abriu seus lábios macios e recebeu docemente a boca dele na sua, declarando aquele ser seu primeiro beijo, o que deixou Marcos ainda mais feliz.

Os olhos dos dois brilhavam e quando davam mais um beijo antes de saírem do lugar sagrado o padre os flagra. Expulsa-os a gritos de "Amaldiçoados, sacrílegos. Pecadores" e toda uma gama de palavras que os santos padres usam para excomungar alguém que cometeu o pecado do amor. Típico de uma cidade pequena e de famílias tradicionais.

Ela sai correndo e ele a perde de vista no meio do povo saindo da missa. O padre o encara duramente e diz que Deus jamais irá permitir essa união que acabava de começar de modo tão catastrófico. É um amor maldito diz ainda o homem de batina.

 Lá fora Marcos ainda tem que enfrentar o olhar de reprovação dos Pais da moça e também o dos seus.


Avancemos pois mais uma vez no relógio do tempo. Dois meses se passaram . Marcos nunca mais viu sua luz inspiradora.

Ele agora anda cabisbaixo, e taciturno, ele que antes era só alegria, força e vigor. Soube que os pais dela a haviam proibido de voltar a cidade e encontrá-lo e soube também que a tinham tirado do prédio em que morava na cidade onde ele fora.

Mas ele ainda passava em frente a casa dela nos sábados, na esperança de vê-la , como a havia visto uma noite, quando depois de voltar da aula na sexta à noite a vira debruçada na varanda, com a lua, invejosa de sua luz, a brilhar por detrás dela, formando um círculo luminoso com ela ao centro.. Era essa a imagem que ele iria carregar dela.

Porém vendo que não teria mais ela para si e não suportando mais os olhares de reprovação que a cidade lhe enviava, Marcos resolveu deixar a cidade. Partiu, deixando pais, irmãos e emprego. Nada mais tinha sentido. Nada importava. Partiu sem Destino.
 
Muitos anos se passaram.

Em um dia de chuva Marcos voltou a pequena cidade.
Sentado em uma mesa de bar, perguntou ao homem por detrás do balcão sobre seu ex-primeiro amor. Disse, o homem, que ela havia se casado mas que tinha fotos do casamento na vidraça da loja.

Foi olhar as fotos na vidraça da loja, a mesma loja onde olhava o vestido da mãe, que já havia falecido.

De véu e grinalda.... Lágrimas vieram aos seus olhos.
Em uma foto da festa de casamento , ela estava usando a blusa vermelha que ele lhe dera de presente. Chorou mais. Pois ali, naquela foto, poderia ser ele ao lado dela a receber a benção divina. Mas ao contrário, aquele mesmo padre que celebrava a união dela, foi o mesmo que os amaldiçoou. E saber que aquele homem, um desconhecido, desfrutava do amor que ele devia ter ganho.


Enxugou as lágrima e foi até a igreja rezar. Queria pedir perdão pela sua covardia quando não foi falar com os pais dela. Devia tê-los enfrentado, devia ter procurado por ela.

Mas quando saiu dali, só pensava em vencer na vida. Mostrar aos pais dela que era digno, trabalhador e podia dar uma boa vida a filha deles, e que se nasceu pobre não tinha culpa alguma.

Estava absorto, rezando, quando sentiu uma mão no ombro. Voltou-se e viu o passado brilhar diante de si.
Sua fada agora era mulher e muito mais bela que fora outrora. Abraçou-a e secou as lágrimas com as costas da mão.
Disse ela: "Amaldiçoados fomos por um amor que nunca ninguém irá sentir. Eu jamais irei esquecer. Você foi meu primeiro amor. Não se sinta culpado Não há culpado pelo que não se fez. Deus não quis, não permitiu. quem sabe foi melhor assim." assim dizendo ela saiu.

Ao chegar a porta ele a ouviu chamá-lo.
---- Vem Marcos!! Quando se principiou a mover-se viu um alegre menino correr em direção a ela.

Ele então chorou mais uma vez. Pois assim como ela havia imortalizado seu amor dando seu nome ao filho, ele a havia imortalizado também, dando a sua filha o nome de Aline.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 27/02/2006
Código do texto: T116579

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Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes