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Cotidiano


A penumbra e o calor faziam os olhos voltados para porta parecerem esperar uma fuga; mas seu corpo morto sobre a cama fora assassinado pelo atraso do que estava por vir.

Desesperar-se no momento era impossível, desprendera toda energia necessária para isso em vagas situações.Ainda assim, seus pensamentos divagavam em sucessivas idéias de rasas euforias.

Há muito nada impulsionava sua existência; e se numa moldura estivesse seria um quadro pintado pela inércia das horas.Suas dores eram o sinal de que ainda vivia, apesar de lhe parecerem o inferno póstumo.Um meio copo d’água sobre o móvel não representava a ingestão de analgésicos; pois as dores da alma não se curam por meio deles.Diante da estagnação dos fatos, a piedade do tempo presenteava-lhe anestesiando-o de quando em quando.

Seus olhos continuavam a fitar a porta, com a certeza de que nada chegaria; e que o refúgio procurado estava ali; naquela cama que opunha resistência ao receber seu corpo; ali, trancado na solidão, fugido do que gozava e odiava.A idéia da morte já passara pelos seus planos em outrora, no entanto, num instante; essa possibilidade afligia suas ansiedades por lhe parecer rotineiro.Como se acordar ao amanhecer fosse morrer a cada novo dia, como se morrer agora fosse permanecer no cotidiano
Domanny de Lima
Enviado por Domanny de Lima em 01/03/2006
Código do texto: T117429
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Domanny de Lima
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