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A Árvore

A faculdade onde estudo não fica longe de casa. É uma distância enigmática, porém. Muito próxima para valer uma passagem de ônibus, muito distante para caminhar. De segunda a quinta, desço de um circular e sigo uma longa avenida sob o sol do meio-dia.

Em um desses dias de aula estressante, perdi algumas horas no campus para cuidar de alguns assuntos burocráticos. Quando cheguei ao portão de saída já passava das duas, e eu contemplei o caminho à minha frente. A avenida sem fim reluzia, escaldante e impiedosa. O calor brotava do asfalto e formava miragens como num deserto. Nenhuma sombra à vista. Vamos lá.

Prossegui sob o sol, já bem menos forte do que ao meio-dia, mas ainda forte o bastante para evocar aquelas incômodas gotas de suor que se espalham pelo rosto, correm pelas linhas da testa, encharcam o aro dos óculos, e descem lentamente pelo pescoço, torturantes.

Após algumas centenas de passos pesados, cheguei ao ponto que mais temia. Perto do final do trajeto, uma ladeira se projetava à minha frente, pouco íngreme mas longa, ladeada por uma fileira de árvores magras.

Comecei a subida angustiante. Passo a passo eu tentava me concentrar em Aristóteles e Sausurre e Henderson e Martin mas nada me desviava daquela sensação de esgotamento, como se o suor levasse embora todas as minhas forças. E o sol brilhava, gritante, os raios penentrando no couro cabeludo e no tecido das roupas. E eu, subia e cambaleava, com a determinação de um zumbi.

Perto da metade do caminho, parei lentamente ao lado de uma árvore. A copa era um pouco maior que as outras copas por perto, e o tronco era mais largo e firme. Instintivamente, sufocado pelo calor, apoiei-me com uma das mãos naquela casca áspera.

O que se sucedeu ainda não consegui explicar com clareza. O vento abafado pareceu se filtrar no meio daqueles galhos, chegando até mim com um frescor revigorante. Apertei minha mão contra aquele tronco. Era quase como se minha fadiga estivesse sendo transferida para a árvore e descendo ao solo pelas raízes, como a eletricidade que passa por um fio terra. Em retribuição, eu sentia energia correndo por aqueles vasos lenhosos e passando para a minha pele, se espalhando.

Observei a árvore e seu galhos retorcidos por um longo momento. De certo modo ela parecia me retribuir o olhar, aquelas grandes folhas escuras como pupilas curiosas. Sob aquela sombra e em meio àquele perfume distinto de grama, houve um momento bonito de apreciação mútua, por mais ridículo que tal pensamento possa parecer. Passou-se um minuto, eu recobrava meu ânimo pouco a pouco e invejava aquela árvore que se estendia ao meu redor. Seres engraçados, as árvores. Sempre ali, no mesmo lugar em que você as vê todo dia, complacentes e diminutas à sua própria existência. Uma vida imóvel, sem dúvidas e sem medo, sugando a vida do solo e do sol, e apenas SENDO, sem se importar com outros verbos ou outras sensações.

O sol dera uma trégua e resolvi continuar. Esbocei um sorriso, e, em pensamento, murmurei um “obrigado”. Logo em seguida captei uma resposta, em alguma linguagem misteriosa e inexplicável. “Obrigado”.
Guilherme Eddino
Enviado por Guilherme Eddino em 10/03/2006
Reeditado em 10/03/2006
Código do texto: T121179
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Sobre o autor
Guilherme Eddino
São Paulo - São Paulo - Brasil, 30 anos
4 textos (89 leituras)
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