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Aconteceu no hospital

                     

Eram dias difíceis aqueles. Estava casado há quase sessenta anos e minha mulher, amiga e companheira dedicada de tantos anos, caíra seriamente doente. No começo foi um mal estar súbito e parecia não ser nada demais, mas o problema se repetiu. Em pouco tempo o quadro se agravara muito e seu médico me confidenciou que ela padecia de doença muito grave e que não havia chance de recuperação. No máximo umas poucas semanas até que a morte a levasse.
Nossos filhos, já adultos e agora casados, estavam envolvidos com suas próprias ocupações e residindo em cidades distantes. Não tinham condições de fazer companhia à mãe no hospital assim, eu ficava com ela o tempo todo. Isso era um sofrimento enorme para mim. Ficava horas a fio sentado numa poltrona ao lado da cama olhando para minha mulher, me lembrando do quanto era linda quando nos casamos. Me lembrava do esforço que ela fez para me ajudar nos tempos em que eu, ainda jovem e pobre, lutava desesperadamente para sustentar a família e vencer na vida. A todo momento me vinham as lembranças de como era delicada e da excelente educação que deu a nossos filhos. Ficava sufocado ao me recordar de sua dedicação à nossa família. Com certeza foi a pessoa mais educada que conheci. Contado o tempo de namoro e casamento, eram quase sessenta e cinco anos de vida em comum sem que jamais tivesse ouvido sair de sua boca uma palavra ríspida, muito menos um palavrão. Quanto mais lembrava de tudo que vivemos e o que ela representava, mais doía meu coração. Tinha consciência que ela chegava muito depressa ao fim e nada poderia ser feito para reverter aquela situação. Nunca imaginara sentir tanta tristeza porque sabia que, com ela, morreria uma parte de mim. Justamente a melhor. Se de um lado não podia demonstrar meu desespero, de outro não conseguia disfarçar minha angústia.
Um dia, como sempre acontece nos hospitais para irritação de pacientes e acompanhantes, apareceu um missionário oferecendo sua igreja como opção única e definitiva de salvação e seu Deus como produto a ser comparado com os “deuses” de outras  igrejas e comprado como se fosse um xampu recém-lançado no mercado. O camarada, marketeiro eficiente que era,  fazia de tudo para nos convencer que, aceitando sua fé, seria certa nossa salvação. Garantia até que, ingressando em sua igreja, teríamos o perdão dos pecados passados, presentes e futuros. Para falar a verdade até que me senti tentado porque, garantido o perdão futuro, poderia sair pecando sem peso na consciência e com a certeza da impunidade. Queria dar um passa fora no camarada mas estava me contendo porque sabia que minha mulher, mesmo irritada com a inoportuna visita, acabaria por condenar esse ato que, tinha certeza, classificaria como indelicado.
O camarada não calava a boca.
Não sei se faz isso com todas as suas  vítimas ou se fôramos nós os escolhidos para ouvi-lo recitar os milhares de versículos decorados. Fez um discurso inflamado sobre a necessidade de pagamento do dízimo para se alcançar a salvação o que, pelo menos para mim, tem o mesmo significado das antigas indulgências, tão veementemente condenadas.
 Minha mulher, muito apegada à sua religião, depois de longo tempo de conversa fiada, começou a me olhar e em seu olhar notei o pedido para despachar o pescador de almas. Até ela, a mansidão em pessoa, já não se agüentava mais. Eu, que há tantos dias estava recluso naquele quarto de hospital, apesar da enorme chateação, dava continuidade à conversa apenas porque tinha a oportunidade de conversar com alguém diferente e que, ao contrário dos amigos que visitavam minha mulher, não falava apenas de doenças - tema preferido dos que visitam doentes. Convidei o camarada para me acompanhar até a sacada do quarto para continuarmos nossa conversa.
O que aconteceu logo após soube por minha mulher.
Ela, agora uma saudosa lembrança, começou a sentir uma enorme sede provocada pela ingestão de certo medicamento. Desejava, desesperadamente, um pouco d’água e me chamou. Não consegui ouvir seu chamado porque o barulho do trânsito na avenida em que se situa o hospital era enorme e, na minha idade, a audição estava muito prejudicada. Ela, cada vez mais sedenta, me chamou várias vezes mas eu não ouvi. Minha doce mulher, já não mais conseguindo se conter, reuniu o resto das forças que haviam em seu corpo já quase sem vida e gritou tão alto que sufocou o barulho do tráfego e superou minha parcial deficiência auditiva:
- Seu filho da puta !
O missionário, batendo em retirada, me disse : Ela está chamando o senhor !
Dario Castellões
Enviado por Dario Castellões em 10/03/2006
Código do texto: T121372
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Sobre o autor
Dario Castellões
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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