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Noite de valentia

Sabe aquelas tardes quando você sai do trabalho, cansado, caído, desiludido, puto da vida. Primeiro, o patrão te torrou o dia todo. Depois tem puxa-saco te entregando a toda hora. De promoção não estão atrás, pois o senhor todo poderoso não dá moral pra ninguém. Só ele quer mandar. Jamais passaria a sua autoridade a outra pessoa. E os clientes? É duro de agüentar, hem?
Apesar de tudo, a gente ainda leva as coisas na paciência, empurrando com a barriga. Afinal, dizem que sou um classe média. Tirei esta conclusão assistindo uma reportagem na televisão que falava sobre a delimitação das classes sociais – bonito isso!
- Ô Jorge. Ô Barriga. Esse desgraçado desse carro não quer pegar de novo! (Tô precisando trocar essa bateria).
É sempre assim, quando a gente mais precisa dele, ele falha, logo agora que parece que vai chover. E eu não quero que aquela gripe da semana passada volte. Deus que me livre!
- Pegou, obrigado! (Quando vou poder comprar um carro novo?).
Eu não moro muito longe do trabalho. Apenas vinte minutos, e pimba, estou em casa, mas também a loja em que eu trabalho não fica muito no centro. Eu não conseguiria um emprego numa delas tão cedo. Afinal, já estou na idade do lobo. E para quem chega aos quarenta e não tem uma carinha bonita e nem pernas bem torneadas, não há mais oportunidades e a vida começa a tomar um outro rumo (eu não ligo). Estou em casa com a minha loirinha gelada deitada comigo no sofá assistindo um daqueles noticiários que mostra a realidade das ruas. Como são incríveis os acontecimentos! Como eles vão fundo nas verdades das notícias! (Eu gostaria de ter essa coragem). Que coisa! Enchente de novo! (Ainda bem que onde eu moro é bem alto).
Nossa, minha mulher está demorando pra chegar. Aquela patroa dela é bem exploradora. Será que ela não podia liberá-la pelo menos um dia mais cedo? Será que ela não sabe o horário que a coitada sai de casa? (Eu queria que ela não precisasse trabalhar fora).
- Oi, bem! De novo tarde? Eu já estava preocupado.
Afinal, lotação neste horário só dá assalto.
E eu sou da velha guarda, eu amo a minha esposa. É claro que não sou nenhum santo. Eu sou um homem, e homem na minha família tem que ser macho, e honrar as calças que veste. Quando o meu pai falava isto na minha época de menino, eu não entendia muito bem. Tive que crescer para entender. Agora eu entendo. Outra prova de macheza era bater em qualquer um que te olhasse torto. Bom, esta parte gostaria de esquecer. Não sei se cheguei a ser o orgulho da família. Enfrentei muitas brigas e descobri que eu não serviria nem para ser escudeiro do Bruce Lee. (Será que é por isso que meu pai não ligava muito pra mim?).
- Benzinho, a que horas a janta fica pronta?
Hoje estou com uma fome. Minha mulher não poderia ter chegado um pouco mais cedo para me fazer o jantar? Eu sonho com o dia em que vou chegar em casa e encontrar a comida posta à mesa, só me esperando. (Será que é verdade que as gordurinhas adquiridas depois dos quarenta não saem mais? Preciso fazer um regime). Ô jantar demorado!
- Vai demorar muito amorzinho?
Eu sempre chego com fome. Minha mulher nunca está. Detesto esse negócio de lidar com forno e fogão, estas coisas são para as mulheres, elas que levam jeito para esse negócio. Quando morava sozinho, tive que me virar. Queimei muita lata. Graças a Deus agora estou casado.
- Benzinho, a comida estava uma delícia. Só o arroz que estava faltando um pouco de sal e o feijão faltou chegar um pouquinho, mas a mortadela e o ovo...
 Meus filhos já estão crescidos e agora eu posso me deitar tranqüilo no sofá sem que a criançada fique pulando encima da gente, desvairadas. Logo terei um neto. O meu filho foi danado, foi namorando e embuchando aquela menina que estudava com ele. Onde eles moram faz com que eu me lembre do início do meu próprio casamento. Parede e meia. Esposa não trabalha. Comida quente na hora certa. Mesmo assim me preocupo, o menino depois do incidente teve que parar de estudar para trabalhar. Mas mesmo que ele quisesse não poderia, minha nora é um poço de ciúmes. Ela conhece bem o marido que tem, (puxou à família).
Meu outro menino, um pouco mais novo e mais ajuizado, continua estudando e sai cedo para o colégio. Ele diz que quando terminar vai fazer um cursinho pré-vestibular, desses comunitários promovidos por alunos que já estão cursando a universidade e querem ajudar outros a entrar naquele universo. (Ele vai conseguir)
Nossa! Como eu ia me esquecendo? Hoje tem um filme de aventura na TV, “Os dragões não sei das quantas”. Hoje em dia, assistir esses filmes é a única coisa que me distrai nessas noites quase solitárias. Como a minha esposa levanta-se cedo demais, trabalha demais e chega tarde demais, eu fico abandonado demais. Mas o que importa? O fogo já passou faz tempo. (Essas coisas passam mais rápido do que a gente imagina).
Saiu no noticiário de hoje que teve mais uma fuga de presos. Ainda bem que eu moro longe do cadeião público, (como o povo que vive aos arredores consegue passar a noite bem, sabendo que há vários bandidos à solta por perto?). Está na hora de dormir. Acho que vou deitar-me, amanhã pulo cedo.
Com o desligar da televisão, tudo se torna mais calmo. As ruas da periferia são pouco movimentadas, rasgadas raramente pelo som dos carros dos boyzinhos barulhentos, que vêm não sei de onde. Eles não moram por aqui, disso eu tenho certeza. Mas o diplay do rádio-relógio já mostra que um outro dia já se inicia. E tudo leva a crer que esta noite será como qualquer outra.
Tinha chovido um pouco à tarde, e a noite estava fresca, mas apenas um lençol era o suficiente para nos aquecer. Primeiro a canseira me envolveu, depois veio o relaxamento. Tentei rezar, dormi antes que terminasse a primeira oração. Não sou muito de freqüentar cultos religiosos. Aliás, nem me lembro de que religião a minha família era. Mas dizem que rezar faz bem. Empacotei de vez.
- O que você quer benzinho? Barulho? Que barulho? Eu não vou ligar pra polícia. É sua imaginação. Deixe-me dormir. Nós temos que levantar cedo amanhã.
O sono me envolvia como se eu tivesse tomado anestésicos.
- O que? Outra vez? Eu vou me levantar pra ver. Já falei que não vou ligar pra polícia.
Olhei pela fresta da cortina. Não vi nada. Deitei-me novamente. Mal fechei os olhos e quem ouviu foi eu. Parecia algo sendo arrastado, e havia também um som metálico que tilintava. Então saltei da cama abruptamente. Minha mulher pedia em voz baixa para eu não me aproximar da porta ou da janela. Você sabe como é a preocupação feminina e como os homens são intrépidos.
Apesar da insistência para que eu ligasse para a polícia, não acatei seu pedido. Lembrei-me que quando eu era criança, qualquer um que se aproximasse da minha casa, sem ser convidado, o meu pai o escurrassava com um velho cassetete que ele o tinha guardado para essas ocasiões, (se bem que ele o reservava para as brigas familiares também). Meu pai era destemido. Nem colocava a camisa e já saía e resolvia o problema com suas próprias mãos.
Coloquei a camisa e abri a porta com um facão na mão. A minha mulher sussurrava, murmurava, gemia, chorava, pelo menos ela não gritava, senão ia espantar a presa. Mesmo sob protesto saí pé ante pé.
Percebi que a porta do meu carro estava aberta. Tinha uma pessoa deitada no chão. Parecia incapaz de se mexer. O outro tinha um objeto na mão, parecia um revolver. Me escondi rapidamente. Pensei, meditei, calculei, concluí: consigo. Empunhei o facão com bastante força, ajeitei a barriga, apertei os pés no chão e fui.
Aproximei-me cuidadosamente e bati com toa a minha força com o facão de chapa nas costas do indivíduo. Com o solavanco ele derrubou a arma e gemia de dor. Eu não sabia que havia outro atrás do carro. Quando ele se levantou, bati com o mesmo facão novamente de chapa bem no meio do seu rosto barbado. Os dois ficaram no chão gemendo de dor.
Com o barulho, a metade da vizinhança já se fazia presente. A minha mulher se desmanchava em lágrimas. Alguém já havia telefonado para a policia. (Com isso se explicava porque ela tinha chegado tão rapidamente). Naquelas redondezas, raramente se via uma viatura. Os policiais alertaram-me que eu não deveria mais agir daquela maneira, isso poderia colocar a vida de muitas pessoas em perigo, mas que eu estava de parabéns pelo trabalho. Afinal, os três: os dois feridos e o defunto eram nada mais, nada menos do que alguns dos fugitivos mais perigosos do cadeião público daquela tarde. (E eu achei que morava longe o suficiente).
As coisas se acalmaram lá pelas três. Fui dormir como herói. (Provavelmente a televisão viria entrevistar-me no outro dia).
O galo cantou, o relógio despertou e levantei-me. Minha querida abria os olhos lentamente. Ela assustou-se ao acabar de abri-los porque eu a olhava fixamente.
- O que foi? Perguntou-me com o olhar assustado.
- O que foi o que? Retruquei. E acrescentei: “Está orgulhosa de mim?”
- Orgulhosa de que? Seu dorminhoco!
Não entendi! Ou entendi?
Wilian Aparecido da Cruz
Enviado por Wilian Aparecido da Cruz em 10/03/2006
Código do texto: T121381
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Sobre o autor
Wilian Aparecido da Cruz
Jandaia do Sul - Paraná - Brasil
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