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Estava revirando meus livros e baús antigos em busca de uma citação bíblica escrita em 1817, que meu avô ganhara de seu pai quando saíra da Itália em 1919. Eu queria levá-la até um rabino conhecido meu para apreciá-la.

Retirava livro daqui, coloca ali, revira aqui, acolá e nada do tal papel. Peguei a pasta de fotografias sem perceber. O espírito da saudade soprou sobre minhas veias e mesmo nessa idade, 76 anos, e talvez justamente por esse motivo, em mim ele trouxe grandes emoções.

Revi nas fotos amareladas que o tempo coloriu com seu toque nada sutil, antigos amigos. Estava ali a foto dos meus três anos quando vovô ainda tinha cabelos negros e vovó ainda vivia. Na outra página a foto do meu primeiro prêmio quando estava na primeira série. E fui percorrendo aquelas páginas sentindo um vazio tão grande.

Logo mais encontrei uma foto do time de futebol da época em que iniciei minha pequena carreira de jogador. Estava ali o Elvis, com seu cabelo sempre bem penteado; o Serginho, o primeiro com quem troquei tapas e socos e que depois viria a ser meu grande amigo; o Gilmar que vivia arrotando e que um dia me salvou de morrer afogado no rio. Eu tinha então, nessa ocasião 12 anos.

Deixei o quarto do jeito que estava, livros, revistas e papéis por todo lado. Peguei os álbuns, sete ou oito ao todo e fui até a pequena sala. Com a dor nas costas me incomodando sentei-me na cadeira de vime que minha filha havia me dado no 60º aniversário. Quando a gente chega a uma certa idade poucos são os prazeres que podemos usufruir. Eu adoro ler, quando a vista não arde, ouvindo música clássica ou ópera. Ahh, Botinni. Isso é lindo de se ouvir.

Bom, depois de sofrer para ligar aquele aparelho ( tem muitos botões), sentei-me e com uma coberta sobre as pernas fracas abri outro álbum. Como o destino é sábio, ingrato e como gosta de judiar de nós. É preciso paciência para vencê-lo ou pelo menos entendê-lo.

Pensei nisso ao ver a foto de Aline. O álbum era dela. Na primeira folha duas fotos da falecida esposa. Uma ainda pequenina, bebê, aprendendo a andar, a outra com uma sacolinha de plástico com o material escolar e uma bela trança com seus cachinhos dourados.

Me lembrei de quando a conheci. Era inverno de 1947 , eu contava então com 25 anos, já havia namorado algumas moças da região mas nunca pensara em me casar. Vivíamos ainda uma época de pós guerra e como eu não fora servir por ter um defeito na perna, (coxeava) alguns pais não me viam com bons olhos.

Nessa época meu irmão contava com 22 anos e como fora um pracinha era o xodó da família. Eu me orgulhava de ser irmão do soldado Luighi, como ele era mais conhecido. Meu irmão contava histórias maravilhosas sobre a coragem e o desfortunio dos soldados e da guerra em si. Na nossa cidade, então um pequeno grupamento de colonos imigrantes Italianos, ele era visto com ódio por uns e com admiração por outros.

Nosso pai, na época, se desligou das famílias que não gostavam de meu irmão ter tomado parte na guerra. Luighi sempre fora um rapaz melhor de aparência que eu. Quando Deus lhe deu a beleza e a força a mim sobrou a inteligência. Não!! nunca fui de me vangloriar e nem fui um gênio, mas eu conseguia compreender melhor certas coisas, melhor e mais rápido que muitas pessoas da nossa localidade.

Meu irmão trazia consigo os traços italianos dos nossos antepassados. Alto, perto de 02 metros, um gigante na verdade, olhos claros e cabelos aloirados. Minha mãe dizia que ele era o mais belo homem que ela já vira, mais bonito até que os de revista (qual a mãe que não fala isso do filho?).

Quanto a mim, eu era simplesmente um "negroni",ou "negreto" como papai dizia quando se zangava. "Negroni" era como ele tratava os brasileiros legítimos, que possuíam uma cor mais escura que os italianos. Devido a tudo isso vocês podem imaginar como era fácil a meu irmão arrumar namoradas.

Nessa época eu já tinha três cavalos, sete reses e uma junta de boi, além de um pedaço de terra distante três horas a cavalo das terras do meu Pai. Durante a época de colheita eu ficava com eles, meus pais, meu irmão e minhas irmãs, depois eu ia para minhas terras. Ás vezes ficava ali 90 ou cem dias, pois eu tinha um rapaz que cuidava dos meus animais, então não me preocupava tanto.

Em junho de 1947 eu já tinha ajudado meus pais na colheita de arroz, então peguei meu cavalo baio, coloquei umas espigas de milho em um bornal e umas raízes de mandioca, não sem antes tomar um bom café com leite e comer uma polenta assada na chapa do fogão. ( fogão a lenha, naquela época não tinha fogão a gás por aquelas bandas). Meu irmão me acompanhou até a metade do caminho, só até encontrar um bar. Após muito insistir eu apeei do cavalo e entrei com ele. Naquele tempo não era bar, mas bodega que falávamos.

Vi que meu irmão era conhecido ali pois todos lhe cumprimentaram e me ignoraram, em seguida começaram a fazer brincadeiras com ele, brincadeiras que eu não aprovava pois eram de muito mau gosto para com as mulheres do vilarejo. Tomei um copo de cerveja fresca e montando no cavalo me despedi de meu mano.

O tempo ameaçava chuva e eu apertei o passo do baio. Em pouco tempo além de uma hora eu já avistava o morro onde por de trás se escondia meu barraco e minhas terras. Os cachorros latiram e vieram ao meu encontro. A uma certa distância me reconheceram e latiram de felicidade acompanhando o cavalo. O rapaz veio montado em sua égua abrir a porteira.

Muito alegre ao rever-me , abraçou-me ao descermos dos animais. Fui tomar um banho enquanto ele tirava os arreios do baio. Se eu já estava cansado imagine o animal que por três horas seguidas trazia a mim e a carga nas costas. Após tomar banho fui até o sobrado para ver se ele havia conseguido fazer o queijo conforme eu indicara.......

Encontrei sobre um banco de madeira um facão que não me lembrava de ter comprado. Quando Luciano voltou depois de trocar o gado de pasto, lhe perguntei.

---- De quem é esse facão Luciano?

---- Haa! O seu Osvaldo veio pedir umas canas para levar e deve ter esquecido aí. Deixa que eu levo. --- fez menção de pegar o facão.

--- Não!! Deixa que eu levo! Faz quase um ano que não vou visitá-lo.

---- Eles agora tão com a filha mais véia com eles! voltou da cidade.

Como todo jovem, cheio de hormônios, a simples menção de ter uma moça por perto me deixou ainda mais animado para ir ver a família do seu Osvaldo. Logo após o almoço selei o baio e rumei em direção a casa dos Swaitzer.

Em meia hora eu avistava suas belas terras. Seu Osvaldo fora quem me vendera aquelas terras que hoje eu possuía. Ele possuia quase duzentas cabeças de gado de corte umas 50 ou 60 de leite. Era um homem simples, descendente de alemães que conseguira fazer render todos os trabalhos de seu pai.

Dona Matilde me recebeu no alpendre:

---- Apeie seu Augusto. Quer comer? A comida ainda tá no fogo.

---- Obrigado, Dona Matilde. Já comi lá no rancho. Vim aqui para devolver o facão para o seu Osvaldo. Luciano disse que é dele.

Falei assim que desci do cavalo, como para ter um motivo da minha ida até ali. Entrei na casa grande e aconchegante, maior até que a dos meus pais. De costas para mim uma moça estava sentado fazendo lã em um roca de fiar. O barulho era o único dentro da enorme casa. Ao ouvir meus passos, como a quebrar a harmonia da máquina, ela se voltou.

Levantou-se. Alta , quase 1,80, eu a medi mentalmente, cabelos loiros crespos soltos quase iam até a cintura. Usava um longo vestido florido e uma toalha sobre o colo.

---- Boa tarde! - seu sorriso era lindo - Prazer! Eu sou Aline e você é ...?

Apertei sua mão como se fosse um menino, fascinado com tamanha beleza.

------ Esse é o Augusto, Aline! Nosso vizinho mais próximo. O rapaz que comprou aquelas terra lá atrás do morro. Fazia tempo que não aparecia por aqui filho, sentimos sua falta! - eram muito carinhosos para comigo.

A muito custo soltei sua mão. Era de uma maciez aveludada. Me lembro que mais tarde eu diria que ela tinha mãos de veludo.

------ Isso! Isso mesmo!

Acho que Dona Matilde percebeu que eu ficara fascinado pela sua filha. A moça sorriu e perguntou se eu queria tomar chimarrão.

---- Papai foi para o campo com o pessoal para apartar uns bezerros e vacinar o gado. Ele me disse que o seu irmão foi na guerra, é verdade?

----- É sim. Serviu na 23 ª companhia de infantaria.

----- Papai não gosta muito que se fale sobre isso aqui em casa. O Fabricio, meu irmão maior, queria ir servir mas o pai não deixou. Foi embora uma noite e já faz seis anos que não temos noticias dele.

Fiquei conversando uma boa hora com a moça e sua mãe na esperança de que o pai dela realmente demorasse, no fim me despedi.

Voltei para casa assobiando uma canção quando os morcegos já rondavam os pés de manga que ladeavam a estrada. Por três dias eu fiquei com a imagem dela na cabeça.

No fim de semana seguinte resolvi matar uma rês. O Luciano não entendeu porque matar uma das minhas vacas se eu podia pegar uma do meu pai. Ele me devia cinco da ajuda que eu lhe dera na colheita. Quando selei meu cavalo e separei a melhor carne em um borná ele sorriu.

---- Inté parece que vai num casório.

Disse ele quando me viu todo arrumado, barbeado e com a melhor roupa que tinha na casa. Ao montar no baio os cachorros latiram. Dei a volta na casa enquanto os cachorros corriam pelo campo de encontro ao intruso. Conheci o cavalo malhado de longe. Meu irmão, só reconheci mais tarde, quando vi que o cavalo parecia pequeno, com aquelas longas pernas sobre seu flanco. Tentei desconversar, mas meu mano viu o borná e não sossegou enquanto não lhe disse aonde ia.

Trotamos então até a casa dos Swaitzer, conversando alegremente. Meu irmão não conhecia aborrecimentos. Estava sempre de bom humor. Não me lembro de tê-lo visto reclamando de algo. Eu, que andava cabisbaixo e silencioso o tempo todo, me deixava contagiar por sua alegria naqueles momentos em que ele estava ao meu lado. Me arrependeria amargamente, mais tarde, por ter levado meu irmão até lá.

Como estávamos plantando capim, em minhas terras, seu Osvaldo me levou para apreciar a qualidade do pasto que possuía, como a mostrar vantagem de um tipo A sobre um tipo B. Luighi ficou na casa. Quando voltamos á casa Luighi, Aline e Dona Matilde havia ido de jeep até a cidade buscar mantimentos. Um sentimento de revolta bateu em meu peito. Tive a vontade de pegar a carne de volta e nunca mais falar com meu irmão.

Rapidamente me despedi do seu Osvaldo e rumei para casa rocambudo. A noite, quando meu irmão apareceu em casa, eu nem me levantei, fingi estar dormindo; ele já sabia aonde estavam as cobertas e o colchão. O dia seguinte foi um inferno para mim. Ficar ouvindo meu irmão cantarolar enquanto roçávamos um pedaço de mato era um martírio para meu coração atormentado. Quando fazíamos uma pausa para descanso ele sorria contente e falava;

----- Eita vizinha bonita mano. Não tem lugar pra mim ficar aqui no teu rancho por uns tempos? é uma guria muito inteligente, cheirosa. Teve um momento, na cidade, em que ela se encostou em mim. Mano,-- balançava a cabeça -- acho que estou gostando dela.

Não sei se ele percebia meu estado diante de tal afirmativa. O fato é que eu tremia, tremia tanto que a foice acabou por escapar por entre minhas mãos quase acertando meus pés.

---- É mesmo? -- consegui balbuciar.

---- Pô, gustinho você bem que podia me ajudar.

---- Eu!! Te ajudar? como assim?!

---- Deixa eu ficar aqui com você e o Luciano. Eu ajudo na lida.

---- Mas o Papai.....

----- Haa, o pai, ele se vira. Por três meses ele só vai preparar a terra. Deixa eu ficar aqui. Vai mano! Deixa?!! Vocês precisam de ajuda pra plantar o capim.

O pior é que era verdade. Porém eu sabia o verdadeiro motivo dele querer ficar. Assim ele acabou ficando conosco. Era difícil o fim de semana em que ele não ia ver Aline. E eu ficava em casa sozinho, me corroendo de ciúmes.

Não, eu não odiava meu irmão por isso. Mas... eu me achava com direito. Pois eu a vira primeiro. Fora eu quem o levara até ela. Ás vezes eu pensava em mandar ele sair de minha casa. O que ainda me alentava era que ela não dera sinal algum de gostar dele.

Isso eu sabia pelo que ele falava. Porém não sei porque eu também me sentia triste quando ouvia ele dizer tristemente que achava que ela não gostava dele. Eu tentava reanimá-lo, incentivá-lo; porém por dentro uma parte de mim torcia para não dar certo. Se eu já estava arrependido de tê-lo levado até a casa dos Swaitzer, seis meses depois eu me arrependeria ainda muito mais quando soube através dela, em uma visita sua, que iria noivar com meu irmão.

Nessa época meu mano já não estava mais morando comigo. Havia voltado para a casa dos nossos pais. Por isso ela fora me convidar para a festa de noivado, já que era mais perto que fazer meu irmão vir até minha terras.

Ela parecia feliz, toda sorridente. Ela sempre sorria. Um sorriso lindo. Meu Deus, eu a amava tanto. Mas ela jamais olharia para mim com amor. Talvez com piedade por causa do meu defeito físico, era o que eu pensava.

No dia do noivado eu compareci a festa no salão paroquial da comunidade, vestido em trajes comuns. Afinal eu não tinha motivo nenhum para festejar. A mulher que eu tanto amava ia oficializar seu compromisso com meu irmão. Conversei rapidamente com os noivos, com meus pais, e fui para um local meio distante e isolado secar as lágrimas que corriam abundantes sobre meu rosto.

Naquele momento o mundo parecia não fazer o menor sentido para mim. Eu amava meu irmão e por mais que quisesse não conseguia odiá-lo. Ele tinha o direito de ser feliz, mas será que tinha que ser justo a Aline? Meu irmão podia escolher a mulher que quisesse e foi escolher justamente aquela por quem eu estava apaixonado. Porquê? Porquê? A dor que eu carregava comigo era enorme. Desde crianças era ele quem sempre tinha as mais belas namoradas.

Mas mesmo assim eu ainda ponderava meus sentimentos com relação a ele, pois por mais que ele merecesse ainda assim eu devia minha vida a ele, quando me salvou de morrer afogado juntamente com o Gilmar. Chorando, com a cabeça abaixada, entre as mãos, senti um suave toque nos meus cabelos.

---- Ora Augusto!! Que é isso!! Chorando?!---- Era ela. Aline. Se soubesse o motivo do meu choro.

------ É. -- com a manga da camisa enxuguei o rosto --- É de felicidade. Eu gosto muito do meu irmão e ...

---- Sim? e....

--- e.... -- será que eu devia falar? - não, eu não ia fazer isso.

----- Ora Augusto, venha para o salão. Todos estão lhe procurando.

Naquele instante eu percebi que ela ficou sabendo sobre os meus sentimento. Coxeando, a segui, tentando limpar meu rosto e fazer um sorriso para as pessoas. Luighi assim que nos viu veio em nossa direção, colocou-se entre nós dois e passando os enormes braços sobre os meus ombros e os de Aline a beijou apaixonadamente. Meu coração parecia um pedaço de vidro trincado. Cheio de estilhaços. Senti um principio de tontura. Luighi amparou-me e me levou até um canto do salão, onde ficamos a sós.

---- Augusto, que você tem meu irmão?

----- Nada Luighi. Estou cansado. Acho que fiquei muito tempo no sol. É melhor eu me retirar para casa.

----- Que é isso? Vai me fazer essa desfeita. E o papai e a mamãe? Não senhor. Vai ficar aqui até o fim da festa.

---- Não Luighi. Por favor. Eu não vou suportar...

---- Suportar? Suportar o quê? alguém te tratou mal? Algum filho da porca dona te ofendeu mano? Quem foi o infeliz?

---- Não Luighi! nada disso. Ninguém fez nada para mim, nem contra mim.

----- Mas então homem... olha Augusto, se você tem algum problema me fale. Sabe que entre nós nunca teve segredos.

----- Eu sei mano, mas você não...

----- Sei, sei.. não vou entender né! Olha mano, eu e a Aline temos uma surpresa para você! Adivinhe?

----- O que? O que que é?

--- Você vai ser nosso padrinho de casamento.

Eu não agüentei. De repente tudo escureceu. Acordei com meu irmão me dando uns tapas no rosto. Não sei quanto tempo fiquei desacordado, acho que somente uns cinco minutos, pois ainda não havia ninguém aos nosso redor.

---- Puxa mano, você me deu um susto e tanto. Acho que deve consultar um médico. Deve ser o efeito dos veneno que passa na roça.

---- É. Talvez. Acho que você tem razão. Na próxima vez que for a cidade vou até o doutor Chico.

Depois disso Luighi voltou para a festa e eu fiquei ali, sozinho, com meus sentimento. Voltei para casa à noite com inveja do meu irmão e irado por meus pais censurarem minhas atitudes na festa.

No dia seguinte meu irmão apareceu por lá. Como Luciano estava roçando distante da casa, só eu me encontrava no interior desta e nem percebi a sua chegada. Quando dei por mim, ele estava ali, parado no vão da porta. Seu corpo quase fechando a entrada. Nesse momento eu percebi o quanto ele era enorme.

---- Muito bem Augustinho, agora vamos falar pra valer.

---- Primeiro bom dia né mano. E falar o quê? - disse eu limando uma enxada, sentado em um banco dentro da cozinha.

---- Você sempre se achou o esperto né? E me julga um brutamontes sem nada na cabeça além do chapéu não é?

---- Que que você está falando?

----- Pensou mesmo que ia conseguir esconder seus sentimentos de mim? Nós somos unha e carne mano.

Ele sabia!!! Eu devia imaginar que um dia ele ia descobrir. Imaginei, na hora, que Aline tivesse falado para ele. Porque eu também sabia que ela sabia que eu a amava.

---- Do que você está falando?

---- Seu merda! filha da mãe!! ....

Disse isso e avançou para cima de mim. Com um soco me jogou no chão. Estava nervoso como um boi bravo. Tirou o chapéu e amassando-o o atirou longe, quase como fizera comigo. ----- Porque tinha que ser assim mano? Porque não me falou antes?

Eu levantei-me e com a manga da camisa limpei o sangue da boca. Acho que tinha quebrado uns dentes. Depois, mais tarde, aquilo me fez usar uma ponte de três dentes.

---- Eu... eu... Luighi,, eu....

----- Peste mano, eu vim para cá disposto a te encher de soco. Como você deixou acontecer? sabe que eu não faria nada contra você. Deus, porque isso!! E você seu peste, nunca disse nada a ninguém. - dizia ele gesticulando muito, como nossos pais e todos os Italianos costumam fazer.

----- Ela... ela.. te contou.... ela sabe?

----- Não! ---- depois --- Acho que não. Mas você deu bobeira ontem!

----- Desculpe!

----- Merda, como posso brigar com você? Pede desculpas quando quem devia pedir perdão era eu. Você merece ela. Eu não! Sabe, acho que a vida de casado não é pra mim. Você me conhece. Sabe como eu sou. Eu gosto de baile, ir no bar a hora que quiser. Sou paquerador. Adoro um rabo de saia.

----- Mas vocês vão se casar?

---- Pois é... me desculpe mano. Se eu soubesse...Doeu? -- disse colocando a mão no meu maxilar e olhando para minha boca. Por isso que eu não conseguia odiá-lo. Era uma manteiga derretida.

---- Luighi, eu vou embora daqui. Vou vender minhas terras pro Luciano. Ele vai me pagar aos poucos. Um tio dele vai ajudar a pagar.

Parecia que ele levara um tapa. Seus olhos tremeram e abriram-se.

----- Não!!! pelo amor de Deus! Madonna, não! isso não!

---- Você sabe que é necessário. Vai ser melhor para nós dois. Eu não quero perder sua amizade mano, e quem sabe longe daqui eu consiga esquecê-la.

---- Não! você não precisa fazer isso! Sabe que eu gosto de você. É você que consegue manter nossa pequena família unida. Se não fosse por você papai jamais teria me deixado ir servir o Exército. É você quem consegue fazer o pessoal da comunidade entender que eu não fui pra lá matar os parentes deles, mas sim lutar pela liberdade nossa e deles também. Além disso, sabe que eu preciso de você. Você acha que eu consigo falar com aqueles caras do bar, ou dos bailes, o que eu falo com você? Eu sou sacana, bebo, farreio, passo a noite nos arraiá, dizendo que sou isso, faço aquilo, mas a verdade é uma só. Eu não valho nada. Essa mulher e você são as duas únicas pessoas que eu amo de verdade mano. Haa mano e agora? O que eu faço? Não quero te magoar, mas ela é tudo que eu sempre sonhei como mulher.

----- Não faça nada. Ou melhor, faça sim. Case com ela e seja feliz.

Me doía tanto dizer aquilo. Mas era a coisa certa. As famílias de hoje em dia jamais compreenderiam, mas aquela era outra época, e outros eram também os valores morais. Certamente se fosse hoje eu poderia pensar diferente, isso é, se hoje eu tivesse 25 anos.

Dois anos se passaram.

Eu fora morar pro interior do Rio Grande do Sul, e nenhuma noticia mandara para os meus. No entanto, através de um caixeiro viajante, um daqueles ambulantes que possuia um veiculo motorizado, eu ficava sabendo das novidades que aconteciam por lá. Passado o dia da independência de 1949 , este homem de negócios chegou em nossa vila rural. Como eu vendia queijo para ele revender, o procurei e começamos a conversar. Me contou novidades da república e muitos outros causos que lhe contaram nas cidades e vilas por onde passou.

Então eu perguntei sobre o local onde minha família estava.

---- Uma desgraceira. Dio santum! - Foi com estas palavras que ele iniciou seu relato. Meu irmão Luighi havia falecido em uma briga em um baile. Menos de cem dias depois de eu ter partido, não chegara a se casar. Levou uma facada mesmo estando armado. Ninguém entendeu porque não atirou. Depois disso meu pai havia se descuidado da lida do gado e da plantação; uma peste acabou com dois terços do rebanho e o plantio de soja estava todo comprometido. Minha mãe sofrera um infarte e ficara com um lado do corpo paralisado. O portador de tão más noticias se surpreendeu ao ver-me com os olhos lacrimosos e me acompanhou nas lágrimas no fim de suas noticias terriveis e sombrias.

Voltei para casa dos meus pais em menos de sessenta dias depois de receber tão más noticias. Deixei alguém para vender minhas terras gaúchas. Só quem perdeu tudo na vida e depois conseguiu se erguer, sabe como me senti dezoito meses depois , no natal de 1951, quando desposei Aline. Mas o que eu não sabia é que o destino mais uma vez me reservaria momentos difíceis. Em maio de 53 nasceu Osmar nosso primeiro varão. A alegria nossa era imensa. Meu pai retomara o gosto pela vida. Parecia que o neto era sua sombra. Porém a leucemia veio em 57 e levou Osmar no inicio de 1958. Em seguida minha mãe partiu para o céu sendo que logo depois meu pai a acompanhou.

Em 1960 nasceu Martina. Quando pensei novamente ter encontrado a felicidade, vi Aline definhar dia a dia, por causa de um maldito câncer. Agrotóxicos. Foi isso que o médico disse. Ela foi forte, agüentou o máximo. Em 1971, ela partiu. OH céus, eu queria ter ido junto com ela. Eu me senti como uma folha de papel jogada ao vento, no caso o minuano.

Mas eu tinha Martina e zelei por ela, sendo pai e mãe ao mesmo tempo. Quando completou quinze anos eu a coloquei em um colégio interno. Sózinho, me afundei no poço da solidão e no álcool. Aos poucos fui perdendo os bens que a família tinha deixado.

Então um dia Martina voltou. Estava casada. Ia me levar para a cidade. E aqui estou. Ainda bem que tenho meu próprio quarto. Nem todos conseguem isso em um asilo.

 
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 11/03/2006
Código do texto: T121902

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes