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A Mulher Só - capítulo III

     Dona Nenêm estava angustiada naquele dia. Um aperto no coração e uma vontade de chorar. Andava preocupada com o Tião. O filho caçula dera para beber de uns dias pra cá.   Algo o incomodava.
     Talvez fosse pelo casamento que estava perto. Coitado do filho, tão cabeça dura. Perdera os móveis que comprara. Mas ela já tava providenciando outros, não o deixaria na mão. Sua patrôa trocara quase todos os móveis e iria mandar os velhos para a casa de praia. Dona Nenêm faria uma proposta, não queria que sua nora. de quem gostava tanto, não tivesse sua casinha montada.

     Ouviu chamarem no portão, foi até lá.
     Tinha uma mocinha japonesa com um barrigão de uns seis, sete meses. Achou que ela estivesse perdida ou quisesse água.
     “-Pois não?”
     “-É aqui que mora o Sebastião?”
     “-Sim.”  Respondeu dona Nenêm.
     “-Por quê?
     Nenêm desceu os olhos para aquela barriga e um arrepio desceu por sua espinha. De súbito entendeu o que estava acontecendo. Agora sabia o motivo da inquietude do filho.
Não deixou a moça entrar, mas ouviu o que ela tinha a dizer.

     Clara, esse era o nome da moça, estava grávida de Tião. Ele prometera muitas coisas à ela que acreditara inocentemente. Morava próximo dali e conhecera Tião na pracinha do bairro. Saíram poucas vezes, mas ela caíra na lábia dele e dera o seu bem mais precioso: - seu corpo.   Agora, ele a estava evitando, não a procurava mais, fingia que não a conhecia. Ela queria que Dona Neném aconselhasse o filho, ele precisava casar com ela!

     Dona Neném riu e disse:
     “-Filha, ele vai casar sim, mas não com você. O casamento dele é sábado e você faça o favor de sumir e nunca mais aparecer aqui. Quem se abriu para ele, foi você, não sabe que é a mulher que tem que se cuidar?”
     “- Xô, daqui!”

     A japonesinha, com olhar incrédulo, não conseguia falar nada. Colocou a mão sobre a barriga pontuda, como se estivesse com dor, encostou-se no portão e fechou os olhos. Aquilo não podia estar acontecendo. O que falaria para seus pais? Como criaria uma criança sozinha? Como pudera ser tão tola? Ele ia se casar com outra moça...
Voltando a si ouviu a velha gritando:
     “-Xô, saia já daqui que minha nora está para chegar.”

     Reunindo todas as forças que tinha, ergueu o queixo e disse apenas:
     “- A senhora é mulher também, deveria entender a minha dor. Não mereço ser escurraçada. Deixe apenas um recado para o Tião. Diga a ele, que nunca passará de uma calça e uma camisa.”
     Virou-se lentamente e foi andando bem devagarinho pela calçada, parecia que estava com medo de cair...

CONTINUA
CRISTIANE DONIZETE
Enviado por CRISTIANE DONIZETE em 15/03/2006
Código do texto: T123749
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Sobre a autora
CRISTIANE DONIZETE
São Paulo - São Paulo - Brasil
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CRISTIANE DONIZETE