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Cícero

Chovia.
A rua sendo ingreme, trazia de cima para baixo um grande volume de água.
O rapaz caminhava rapidamente, debaixo de seus braços, tentava proteger algo.
Olhava de um lado para outro, preocupado...
A água torrencial não dava sinais de parar de cair.
Parou em uma esquina. Sinal fechado para pedestres.
Carros passavam em alta velocidade lançando golfadas de água que estava na pista, sobre o rapaz...
Parecia imune a tudo aquilo.
Permanecia com os dois braços seguros junto ao peito, como a agarrar algo, proteger algo, mesmo sabendo que naquela chuva nada poderia evitar de molhar fosse lá oque fosse que levava consigo.
Suas roupas estavam todas molhadas.
O calçado, um par de mocassins, estava encharcado, quando caminhava fazia barulho, ploc, ploc...
O sinal mudou.
Ele atravessou a rua.
Um raio cortou o céu e a claridade mostrou o rosto do jovem.
Era de uma bela face, mas de alguma maneira séria demais... Parecia até que se não estivesse chovendo poderíamos dizer que estivera a chorar...
Às vezes ele abaixa a cabeça e com os braços tenta conter um pouco da chuva que lhe atinge o rosto.
Seus cabelos, pretos como a noite, lhe caem curto, á moda de executivo...
Sua roupa encharcada compõem-se de camiseta e calças jeans...
Um trovão ribomba nos céus e ele levanta a cabeça e franze os lábios...
Tem que se apressar...
Pessoas passam por ele em seus carros e chegam a buzinar, como se estivessem preocupados com o rapaz que caminha resoluto debaixo de tanta chuva...
Mas ele não ouve as buzinas, ele não ouve nada...
Sua cabeça tem uma determinação, ele sabe aonde ir, e o que tem que fazer...
Um ônibus passa por ele, e da janela ele observa um gesto que alguém lhe faz. Provavelmente estarão lhe tirando sarro, lhe chamando de louco...
Sim, ele também se acha louco, ás vezes pelo menos, pois só um louco faria o que irá fazer... mas sabe que alguém tem que fazer... os outros jamais entenderão...

O jovem não apresenta mais de 20 anos de idade...
Mas a tristeza em seu rosto lhe rouba toda essa mocidade,e por instantes, quando ele mergulha em seus pensamentos, seu rosto parece envelhecer outro tanto...
Ao longe ele divisa seu objetivo...
“Falta pouco!” – ele balbucia em voz baixa...
Um carro do corpo de bombeiros passa por ele, fazendo o maior barulho com suas sirenes...
Água espirra em suas roupas, já encharcadas e suja da lama...
Agora ele pega uma bifurcação e entra por uma estrada de terra batida...
Caminha mais uns duzentos metros e então empurra um portão de ferro... conforme ele sabia, estava aberto...
As cruzes indicam o caminho...
Mais no fundo, junto a uma casinha, ele pára e tira de sob seus braços cãozinho que ganhara de seu tio quando fizera 15 anos...
Cícero era o nome do cão... Ele não parava de latir, parecia o orador romano que não se calava... então o nome...
Seu tio sabia que o menino, para se recuperar melhor do acidente em que perdera pai e mãe e mutilara seu irmão, precisava de algum outro ser para dedicar atenção e cuidados...
Agora o pequeno Cícero estava ali, duro e frio, com os olhinhos abertos como a entender o pranto que tomava conta do jovem rapaz...
“ Me deste novamente o gosto pela vida... Suas brincadeiras, seus latidos, sempre me despertavam para a vida... Quando perdi meus pais, nada mais tinha sentido para mim, meu irmão virou quase um vegetal, perdeu os dois braços e acabou indo morar com outra pessoa, apesar do Tio querer ficar com ele também, mas a gente entendeu que era muita despesa para o Tio Henrique...Ahh Cícero, quantas vezes me lambendo o rosto, mostrou que eu ainda podia viver, podia sentir as coisas... foste sempre meu companheiro... todos meu chamavam de autista... diziam que vivia só para mim... mas não... eu vivia com papai e mamãe... no meu mundo eles ainda viviam... mas você nobre amiguinho, aos poucos foi conseguindo aquilo que médicos, psicólogos e fisioterapeutas não conseguiam... eu me divertia muito contigo...e quando íamos para o sitio... nossa, era tão gostoso correr contigo para cima e para baixo...
E agora meu amigo? Como vou conseguir prosseguir sem você? Será que alguém já amou tanto um cachorrinho como eu te amo? Vou colocar você junto com mamãe e papai em um mundo só meu... sim... o mundo é tao complicado para se entender... talvez o único amor verdadeiro seja o nosso, um homem e um cão... quantas vezes ouvi dizer que o cachorro é o melhor amigo do homem... as mulheres se afastam de mim, quando ouvem falar que sou autista, os rapazes não querem minha amizade, me chama de louco. “ e assim o jovem derramava lágrimas sem notar que um vulto se aproximava por detrás dele...
      ---- Fabricio que fazes por aqui? O que aconteceu? – falou uma voz grossa de homem.
     ----- Eu .... eu vim... me desculpe... – disse o rapaz se voltando...
     ----- Venha, vamos embora! Você é maluco? Andar debaixo de toda essa chuva...
     ----- Não me bata por favor! Eu só queria... –
    ------ Filho, eu não vou lhe bater! Venha comigo e pegue sua caixa de sapatos... francamente!
     O homem esperou pacientemente o jovem pegar a caixa branca de sapatos e a colocar debaixo do braço...
     ----- Vamos, sua mãe está nos esperando no carro! E prometa a ela que nunca mais vai brincar debaixo da chuva....
     ----- Prometer... tá bão! Cícero... eu ia me despedir...
     ------ Droga, filho, já te disse, Cícero é a marca do Sapato, não existe nenhum cão...
O jovem seguiu o homem até um carro estacionado junto a marquise...
  Uma senhora bem vestida estava sentada no banco do carona, e no banco de trás um menino estava comendo chocolate.
---- Ele está ficando cada vez pior! Talvés devessemos interná-lo mesmo, ou colocá-lo em uma casa de tratamento intensivo! – falou o homem quando sentou-se ao volante e saiu com o carro...
--- Filhinho, que é isso!? Todo encharcado? O que aconteceu para você vir até aqui?
---- Cícero morreu! Ia enterrar ele... é meu único amigo...
O jovem dizia isso e agarrava com raiva a caixa branca...
---- Cícero morreu... e começou a chorar...
O pai voltou-se no banco para ver o jovem e não prestou atenção na estrada...
---- Pai! Olha pra frente!!!
O rapaz gritou e o homem desviou o carro de outro carro que vinha em sentido contrário. Por centímetros não acontecera um acidente...
---- Perigo!! Cícero falou pra não olhar pra trás quando dirigir...Cícero esperto...
O casal fez uma troca de olhares e ambos ficaram em silêncio até chegarem em casa.
Tiraram as roupas do rapaz e o colocaram em seu quarto.
Mais tarde foram até o quarto e observaram o jovem ajoelhado junto a imagem de uma santa rezando...
---- Que Deus tenha piedade de nós! – disse sua mãe...- Disseram que tens pouco tempo conosco, e ainda resolve pegar uma chuva dessas?
---- Piedade Dele! nós temos saúde... O que será que ele tanto reza? Será que compreende o que está acontecendo?
--- tanto sofrimento querido... é apenas um jovem que quer viver como tantos outros... Será isso um castigo? Será que ele entende que está sofrendo?
O homem caiu em prantos... – é Nosso filho querida, temos que ser fortes... enquanto viver resta sempre uma esperança... Deus é grande, há de nos ajudar...
A mulher apoiou a cabeça no ombro do marido e soluçou:
----- Eu queria tanto que ele fosse feliz!


Duas semanas depois encontraram o corpo do rapaz duro na cama... sob o colchão encontraram vários textos escritos por ele.... Médicos disseram que o rapaz entrara em estado de coma psicológico, estava vivo, seus membros respondiam, mas seu cérebro se fechara...não se comunicava mais com o nosso mundo...

E lá ia um rapaz alegre correndo alegremente com um pequeno cãozinho branco...
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 18/03/2006
Código do texto: T124754

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes