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O último dia...


Acabara de receber o telefonema da Maria Eduarda, como estava feliz, finalmente iria provar aquela mulher o seu grande amor.
Conhecera Eduarda nos aquartelamentos da cidade de Mostar na Bósnia onde prestara serviço na Unidade de Manutenção de Paz da ONU. A sua voz pousada e forte chamara-lhe a atenção para a grande mulher que os acompanhava nesta arriscada missão. A admiração passou rapidamente ao amor, manteve-o escondido por respeito à hierarquia militar, embora a sua vontade seria gritar ao mundo o que lhe ia no peito. Ela notara também o carinho e atenção que lhe devotava aquele militar, mas como mulher casada e superiora hierárquica não podia de forma alguma prestar atenção à forma, delicada e carinhosa, que aquele militar a tratava.
A missão terminou e por largo tempo fizeram a sua vida, quase esquecendo a existência desse amor, que florira naquela cidade de Bósnia e lhes deixara uma marca indelével de algo de muito lindo, que não chegara a dar frutos. Não raro era Marco lembrar-se de Eduarda e um suspiro escoava-lhe da alma, mostrando que afinal tinha a ventura de ter amado verdadeiramente uma mulher, mas tinha-se diluído no tempo e na vida de uma das vitimas desse conflito em que interviera; Fora ferido, uma malvada bala destruíra-lhe um joelho, provocando-lhe a invalidez de um dos membros inferiores, era pois mais um dos Deficientes das Forças Armadas.
Eduarda também não era feliz, o seu casamento mantinha-se apenas de fachada e vezes sem conta relembrava as missões que tinha realizado como Oficial Superior de Segurança, esses tempos viviam na sua memória e aqueles olhos castanhos esverdeados, embriagados de meiguice, do Primeiro Sargento Marco não era fácil de esquecer.
O Computador era o escape destes dois ex-combatentes, navegavam pela NET, como passatempo e uma maneira simples de conviver sem que para isso tivessem de se deslocar. Um dia Marco acessou um programa conhecido de salas de convívio, escolheu uma de poesia, que era agora a sua maneira de expressar a dor da ausência do ser amado, da sua imobilidade forçada e do desgosto que lhe ia na alma.
Foi com maravilhosa surpresa que ouviu uma voz tão sua conhecida e amada dizer um poema dele em que falava da nostalgia e amargura desses tempos de missão. Era ela...
Aquele nick Flor da Serra era o seu grande amor, estava ali acessível ao conhecimento, no entanto a alegria que sentia no coração, deu azo a uma tremenda dúvida, como estaria agora, ainda se lembraria dele? O Dizer aquele poema, que lhe oferecera, mostrava que sim.
Sentia não lhe assistir o direito de entrar na sua vida assim de modo intempestivo e resolveu frequentar anónimo aquela sala por alguns dias com o nick Soldado. Numa tarde ela voltou a repetir aquele poema e mencionar o autor como um grande amigo, mas que não podia divulgar o nome sem autorização expressa dele. Assim Marco resolveu interferir e escrever na sala. – Podes sim amiga, pois esse poema é meu.
No seu PC abriu-se uma janela onde Flor da Serra lhe perguntava em privado:
- És o Marco?
- Sou sim, és a Eduarda?
- Meu Deus que felicidade! Sou a Eduarda sim.
- É uma felicidade para mim saber-te bem.
- Desde que foste ferido e evacuado nunca mais soube nada de ti. Mas a saudade é muito grande.
- Fiquei muito feliz por saber que guardas o meu poema de guerra.
- O guardei com muito carinho, era a única recordação que me restou de ti, daqueles olhos meigos que me olhavam com tanta ternura.
- Eduarda, sabes da minha condição de Deficiente das Forças Armadas?
- Sei meu querido camarada de armas. Aliás, foi a única coisa que consegui saber quando regressei a Portugal, porque não me foi possível localizar-te. Diz-me meu querido como tem sido a tua vida?
- Moro aqui em Lisboa num quarto alugado a um velho casal e trabalho como Técnico de Informática, arrasto a minha prótese em passeios pelas margens do Tejo; É esta a minha vida, lembrando sempre o meu grande amor.
- Moro em Alvalade, portanto estamos perto; Eu quero ver-te Marco, ficou um grande carinho por ti. Dá-me o número do teu telemóvel, pois não quero perder-te mais uma vez.
- Eduarda, sou um farrapo do garboso soldado que tu conheces-te, vais ficar desiludida comigo.
- Meu querido tu nunca serás um farrapo, a tua alma de poeta foi o que amei e que agora mais que nunca preciso.
Trocaram os números de telefone para um contacto mais estreito e para se encontrarem. Regressaram à sala onde a alegria era agora notória.
Houve muitos contactos e por fim descobriram que os sentimentos tão ciosamente guardados, continuavam actuantes nos seus corações.
Marco já falava na sala com desenvoltura mostrando na sua poesia a grandiosidade do seu amor. Enquanto Eduarda deliciava-se nas suas palavras sonhando o dia em que aqueles belos olhos castanhos e boca sensual estariam disponíveis para ela.
Combinaram o encontro nas margens do Tejo para finalmente deixarem o PC e sentirem todo o seu carinho e amor juntos.
Marco teria de ir a Sintra para fazer um trabalho e correria para Belém para encontrar-se com Eduarda, para posteriormente irem almoçar num dos restaurantes que abundavam naquele local; Era finalmente o culminar de um longo estio nas suas vidas.
Eduarda nas suas 54 primaveras era uma mulher bastante bonita e ela sabia disso; Mas hoje preparava-se para se mostrar mais bela ainda, ansiava a hora de estar nas margens do maravilhosos rio, ia finalmente concretizar um sonho, poder beijar aquele homem que desde sempre a cativara, a hora desejada aproximava-se e seu coração acelerava.
Marco vestira-se com certos cuidados para que a impressão que iria causar não fosse uma desilusão para Eduarda. Arrancou em direcção a Sintra, era normal a sua marcha ser bastante lenta, pois a viatura preparada para a sua deficiência, não lhe dava a devida segurança numa travagem rápida, mas hoje tinha pressa de se encontrar com o seu grande e único amor e esses cuidados foram postos de parte. Rapidamente chegou a Sintra, resolveu o problema que lá o levara e encaminhou-se para o seu maravilhoso encontro.
Passou por São Pedro de Sintra e perto do Arco do Ramalhão verificou que um condutor louco, vinha em direcção a si numa velocidade suicida, ainda tentou travar, mas a sua deficiência tornou-se impeditiva para essa manobra, ao bater sentiu uma dor terrível no peito e de seus lábios a par com o sangue, soltou-se um nome que ecoou no ar.
Eduardaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
E veio a noite para Marco.
Eduarda esperava pelo seu amor, olhando tristemente as águas do rio Tejo.

FIM.
       



António Zumaia
Enviado por António Zumaia em 22/03/2006
Código do texto: T126896
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Sobre o autor
António Zumaia
Portugal
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