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Adeus poeta! Bem-vinda poesia

                                                Andréa Farias



Já se iam 12h, quando continuar a dormir tornou-se impraticável. Certamente, por conta de um pretensioso raio de sol que insistia em invadir o quarto por entre as varetas da persiana e projetar-se diretamente sobre o corpo estendido na cama. O ambiente tornara-se aquecido e claro demais para perseverar no desânimo. Era a natureza dizendo: "levanta-te e anda".  Na prática, não era tão fácil assim.
Ela entendera a mensagem, mas ainda não reunira forças para algo mais brusco do que uma leve erguida de pescoço seguida de uma olhadela ao redor. Pelo menos, até ser captada pelo grande espelho redondo estrategicamente localizado em frente ao leito. Agora, podia ver com maior nitidez do que os olhos embaçados de choro das noites anteriores e a dedicação à própria dor a tinham distraído. O mais impressionante é que, dentre sandálias e bolsas jogadas aos cantos, almofadas, roupas usadas, lenços de papel e laminados de chocolate amassados o que mais a impressionara naquele quarto tenha sido a patética figura denunciada pelo espelho. "Quem é esta derrotada? Que olheiras!" pensou, antes de deixar a cabeça cair novamente sobre o travesseiro.
Deitada, de barriga para cima, ela rememorou as duas ou três noites passadas entre choramingos e pesadelos e aquela angústia que pressionava o peito e gelava o estômago. Era a herança do relacionamento com o tal poeta. Cheio de sensibilidade com as palavras, um belo currículo intelectual; ele a havia conquistado por aí. Sempre preferiu homens do tipo para admirar e este parecia perfeito no quesito. Bela formação literária, amante dos clássicos, ele sabia impor o vocábulo como o mais hábil dos mosqueteiros a manusear um  florete. E o pior, o fazia com graça e imponência, como se encenasse um drama de Shakespeare para um teatro lotado.  Com certeza, o cara certo para ela, não fosse o fato de tanta perfeição se referir especificamente à literatura.
Não, não era um “galinha”. Mas, embora não admitisse, relacionamentos vinham em último lugar na sua lista de prioridades. Primeiro uma boa leitura, um bom filme, uma corridinha no parque, uma sesta, ou qualquer outro evento de última hora. Só então, o finalzinho da noite, se não fosse no meio da semana, era todo dela. Na prática, significava não receber uma ligação, um torpedinho para o celular ou um mísero sinal de vida do ex, até que ele tivesse feito tudo a que tivesse se proposto naquele dia, semana, etc. O pior é que as coisas nunca saem exatamente como planejamos, logo, a possibilidade de ele não manter contato em função dos próprios contratempos se ampliava e muito. Sem contar aquela função básica de homem que não sabe o que quer, mas que não quer ficar sozinho enquanto se permite a eternidade para decidir. Ou pior, do tipo que não libera a garota só para não ter de vê-la nos braços de alguém mais decidido do que ele.
Se fosse um qualquer, ela teria percebido rapidamente que se tratava apenas de um garoto egoísta como tantos outros que se encontra vida afora. Mas, pela aparência de príncipe urbano, ela precisou de meses de tentativas, expectativas frustradas, e agora, de um bendito espelho redondo, para ver o quão devastadora havia sido sua dedicação a um namoro nestas circunstâncias.
Também não poderia dizer que fora ruim, do contrário, não teria ficado tão abalada com o final recente daquela relação. Quando estavam juntos, entendiam- se bem e este era o “x” da questão. Tinham encontros interessantes, divertidos, havia afinidade e troca entre eles. Por influência do rapaz, ela voltara a escrever e já planejara o retorno à faculdade para a conclusão do mestrado. Ele admirava a capacidade de ação e de reação que ela tinha frente a desafios e também a alegria que demonstrava a todo o tempo pelas longas e espontâneas risadas. Não era um sujeito muito exultante, conservava um certo ar enigmático, de pouco riso, mas até aquela pontinha de tristeza ficava charmosa para um poeta.
Nunca havia se interessado pela quase óbvia combinação de olhos e cabelos claros, até que ele a tivesse interpelado naquela livraria. “O que você está lendo?”, indagou tentando puxar conversa. Não era uma pergunta muito apropriada para a moça que folheava um livro infantil com o qual pretendia presentear a afilhada. Mas acabou dando certo e, dois dias depois, jantaram juntos. Foi quando começou o mal entendido. Acharam que tinham afinidades suficientes para um relacionamento duradouro. Os dois formados em Letras com ênfase em Literatura, leoninos com aniversários consecutivos, até nascidos no mesmo hospital. Parecia mais uma das muitas ironias do destino, quando tudo parece encaixar-se numa estranha lógica.
Com o olhar fixo no globo do lustre do quarto, ela despertou do devaneio. Num rápido lance, jogou os lençóis ao chão como se, com isso, pudesse afastar as lembranças. Reuniu toda a energia que restava e lançou-se para fora também. Havia vencido aquele campo de força imaginário criado pela inércia. Estava fora da cama, mas ainda não em pé. Então, rastejou sentada pelo tapete, abriu caminho por entre calçados, papéis e toda sorte de quinquilharias que haviam se acumulado desde que se entregara ao desespero. Respirou fundo e, de um pulo só, levantou-se, vencendo a sonolência que a travara até então. Com a imagem novamente refletida no espelho, constatou: estava mesmo um horror.  “Tudo isso por um poetinha?!”, inconformou-se.
Espanou o traseiro com as duas mãos, deu mais uma espiada, agora corajosa, para dentro da moldura redonda. Bufou ar pela boca já levando os dedos aos cabelos, como se tentasse minimizar os estragos do travesseiro. “Você é uma mulher ou uma ratazana?”, questionou-se, determinada.
Roedora ou não, ainda precisaria de um bom banho para se recompor. Por isso, não perdeu mais tempo. Correu para o banheiro e foi logo abrindo a torneira para liberar a água. Em pouco tempo, o local estava todo envolto em vapor. Enfrentou o primeiro jato do chuveiro com a cabeça, depois colocou o resto do corpo e a alma para dentro do Box. De olhos fechados, deixou que a água escorresse do rosto para baixo como se esperasse que aquele peso da insatisfação descesse junto para o ralo. Ficou assim por alguns minutos. Pensando...
Não se conformara com o fato de aquele rapaz, aparentemente sensível, bonito, inteligente promissor, com todos estes atributos, ser incapaz de gostar dela do jeito que esperava. Para alguém como ela, com a auto-estima sempre à prova, fora mais fácil assumir a responsabilidade sozinha. “Pronto, a culpa é minha”. Inverter a lógica: dizer-se incapaz de fazer-se amar por ele. E assim, sentir-se feia, insuficiente, frágil, desinteressante: triste num quarto fechado em pleno sábado de sol.
Como quem se consola, acariciou-se com a esponja ensaboada. Cobriu as pernas e os seios com a espuma, como se brincasse com as próprias formas. Soprou bolhas de sabão, sorriu, fez penteados com xampu, uma espécie de reconquista de si própria. Coxas  e braços bem torneados, pele morena, barriga quase nula, bumbum praticamente rijo: era bonita. Como poderia ter se esquecido disso? E aqueles problemas não lhe pertenciam. Azar é dele! Desligou o chuveiro bruscamente, como quem marca o instante de uma descoberta ou redescoberta: a alma já estava limpa. O espelho do banheiro, mesmo embaçado, denunciava isso. Enrolou-se à toalha branca.
De volta ao quarto, a velha moldura redonda parecia bem menos assustadora. Expôs-se com confiança: era ela, ali, de novo, bem mais corada. Até a cabeleira, molhada, voltara a cachear-se. Suspirou aliviada.
O calor já dominara o ambiente por inteiro. O bom dia havia prevalecido sobre a penumbra do quarto. Rendeu-se: escancarou a janela e deixou a vida entrar por completo. “Quem sabe um vestido?!  Poderia ser o verde tomara-que-caia de malha fria”, matutou e seguiu murmurando: “fresquinho, ideal para aquela situação. Cor de esperança.” Puxou-o do cabide. Caiu-lhe como uma nova pele: perfeito.
Um punhado de creme nas mãos, depois, direto no cabelo. Sacudiu a cabeça com vigor e, pronto, caracóis ativados. Dois contornos firmes de rímel verde ardósia sobre os grandes olhos, um risquinho fino de delineador rosado para receber o gloss pérola e aquele par de  brincos de cristal furta-cor, como poderia  esquecer?! Para finalizar: pendurou um par de óculos de sol marrons estilo anos 70 na alça do vestido. Em pé, maquiada e penteada, ela já destoava do ambiente caótico que a depressão havia decorado. Sapatos de volta ao baú, papéis ao cesto, roupas limpas e bolsas ao armário; as sujas, à área de serviço. Catou-as, embolou –as e lançou direto dentro da máquina de lavar. Pelo corredor, letras grandes e vermelhas saltarem-lhe aos olhos, como aquele famoso aviso de perigo formado pela junção da caveira sobreposta por um enorme x: ainda havia algo a fazer.
Era o último livro do tal poeta, na estante, a caminho da porta principal do apartamento, entre Saramago e García Márquez. No impulso, puxou-o para fora. Primeira página assinada com a caneta que lhe dera de presente. “À flor poética cujo pólen a tudo transforma”, ele rabiscara de última hora. Ela o havia inspirado a uma bela dedicatória, mas não o bastante para um verso sequer entre os mais de cem poemas sobre belos sentimentos não praticados. Já estava na hora de demonstrar sua insatisfação com aquilo tudo. Virou a página. Buscaria a poesia em outras fontes. Pôs o livro debaixo do braço,  soltou-o junto ao lixo reciclável.
Calçou uma de suas sandálias, a marronzinha com a fivela de amarrar no tornozelo. Ideal: não tão alta que lhe causasse desconforto, nem tão baixa que não lhe conferisse a imponência necessária. Desceu os 3 lances da escada do prédio, de dois em dois degraus, como criança. Abriu a porta que dava para rua. Apertou o primeiro raio de sol entre as pálpebras do olho esquerdo. Era a senha para sacar os enormes óculos escuros. Estava preparada para aproveitar aquela tarde luminosa. A rua, larga e extensa, fez-se passarela. Ajeitou os passos, caminhou na ponta dos pés, conforme os saltos. Do outro lado da calçada, o primeiro assovio masculino. Deixou que aquele elogio brejeiro entrasse pelos ouvidos, aquecesse a alma, cutucasse a auto-estima, mas segurou-o antes que escorresse pela boca. Ainda não era a hora. Os lábios deveriam continuar com aquele leve biquinho, meio felizes, meio orgulhosos, como se dissessem: “obrigada, estou quase pronta”. Mas, por traz dos óculos, os olhos não se continham: já derramavam-se em sorrisos para a poesia que a vida ainda tinha a oferecer.
Andréa Farias
Enviado por Andréa Farias em 25/03/2006
Reeditado em 09/05/2006
Código do texto: T128295
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Sobre a autora
Andréa Farias
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 40 anos
9 textos (585 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 22:21)
Andréa Farias