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AMIGOS


   Já faz algum tempo. Mas não o suficiente para que eu possa esquecer.

  Era verão.

Eu iria completar meus primeiros 20 anos de vida. Estava no auge da mocidade, na época dos grandes sonhos de realizações e cheio de ideais. Havia me formado no Dezembro passado. Estava radiante.

Então em Janeiro  nós fizemos uma excursão para Florianópolis. Havíamos, eu e a turma da sala, trabalhado duro nos bailinhos que promovíamos, para poder fazer esta viagem. Era o sonho de todos nós, na época. Praia, mulheres lindas, movimento, diversão, muita bagunça e a secreta esperança de um  romance  com alguma das moças que também iam junto conosco. Afinal também faziam parte da turma de aula.

Na viagem de ida até Floripa foi uma algazarra só. Iríamos ficar hospedados na casa de um Deputado, que ora não lembro o nome. A casa ficava a caminho da praia dos Ingleses. Nunca tinha visto uma morada tão magnifica. Parecia um Sitio. Tinha  campo de Futebol, quadra de tênis, um pequeno ginásio e piscina. Para mim aquilo era o máximo. Nunca tinha visto uma casa como aquela.

Ao chegarmos, jogamos nossas coisas, malas e bugigangas, em um canto qualquer. Fizemos um lanche rapidamente e se mandamos para a praia. Foi um dia de descobertas. Era a primeira vez que eu via o mar. Não só eu. A maioria da nossa turma. Ficamos o admirando um bom tempo. Contemplando sua grandiosidade e esplendor.

Passado o momento de contemplação algumas das garotas se atiraram na água. Logo os outros garotos as seguiram, jogando-se de encontro ás águas salinas. Eu que não sabia nadar fui até onde a água batia em meu peito. Fiquei uns vinte minutos no mar. Sentindo a força das águas retirarem a areia sob meus pés. Era uma sensação deliciosa e nova. Mas eu era precavido, outrora em um rio, quase  me afoguei. Logo sai dali e fui caminhar pela praia.

Estava caminhando sozinho. Curtia as belas garotas, que deitadas na areia, se mostravam aos meus olhos cobiçosos. Então em dado momento percebi que estava sozinho. Não que eu não gostasse, mas lembrei que era festa, deveria estar me divertindo, como os outros. Iniciei a volta correndo, despreocupadamente, deixando meus pés chutarem água em quem estava na beira da água, e sorrindo, para aqueles que achavam ruim.

Ao chegar aonde havia me separado do pessoal, vi um dos meus amigos sozinho em um local da praia, sentado na areia, a olhar o horizonte.

---- Celestino, que que há rapaz? Porque está tão triste? Vamos se divertir! - eu realmente estava alegre.

---- Ah, não é nada não! - disse ele fazendo pouco caso.

---- Pô cara, deixa disso, vamos lá! Vamos cair na água. Você ainda nem se molhou!- falei olhando para sua bermuda e vendo que estava seca.

---- Não dá, já disse. Aonde você estava? você sumiu? - disse levantando os olhos pela primeira vez.

---- Não desconversa, Celestino. Tira essa camiseta cara e se atira, vai!!-- eu tentava o estimular, mas vai que não obtinha sucesso.
---- Vamos correr? Pra que lado você foi? Daquele ali?! - me disse apontando o dedo-- Então vamos pra esse lado!

E saiu caminhando, de cabeça baixa, passos curtos.

Vi quando um casal, os dois bronzeados e de corpos bem delineados, passaram por ele, e comentaram em voz baixa sobre albinos e coisa tal como "que pena, e ainda é toco de um braço só", "coitado".

Era isso!! Só agora eu havia percebido! Ele se sentia inferiorizado.
 Fiquei com raiva do casal. Ele era igual a nós. Eu sempre o tratara como tal. Por isso até não ligara o fato de estar triste. Nunca o tratei com pena, com dó. Era meu amigo. Era capaz de fazer muitas coisas. Não era um inválido. E fora eu insisti tanto para ele vir com a gente, agora me sentia quase culpado pelo que ele passava. Pois ali, na praia, onde todos desfilavam corpos esculturais, morenos, bronzeados, ele ficava exposto, como uma cicatriz que todos notavam e olhavam.

Fui atrás dele. Caminhei com Celestino a tarde toda. Quando voltamos para o ônibus, o pessoal já estava nos esperando. Muitos fizeram piadinhas, sobre nós dois ficarmos a tarde toda juntos. Coisa que sempre ocorre em turmas que estão a fazer festa.

Ficamos ainda mais três dias em Florianópolis, e nesses três dias eu fiquei ao lado dele. Às vezes me batia uma vontade de deixá-lo só, com sua dor, mas sempre fui muito sentimental. Sabia que ele andava triste. E tentava fazer de tudo para alegrá-lo. E ali nós aumentamos nossa amizade. Falamos sobre nossos sonhos e nossas esperanças do futuro ser melhor. Brincava com ele dizendo que quando fosse Advogado, lhe compraria um braço mecânico, só para poder abraçar todas as meninas que agora se afastavam dele. Na volta para casa no ônibus, alguém chegou para mim e me disse.

---- Cara, gostaria de ter a tua coragem para andar com ele do lado. Já viu como a turma nem ligou pra ele? Ninguém queria ser você e estar ao lado dele, só que queriam se mostrar, e tinham vergonha de estarem perto dele. - disse um dos rapazes que viajavam conosco.

---- Olha, eu não preciso de coragem. Ele é meu amigo, de verdade. Não é apenas um colega. É um amigo. E pra mim a amizade é mais que simplesmente falar. É sentir. Que se dane se perdi a festa que vocês deram na Boate Shampoo, lá na Beira mar, que se exploda se eu não bebi tanto quanto vocês, eu ainda estou vivo, e ele também.

---- heii, bicho, que é isso, eu vim aqui agradecer... - ele disse assustado pela ênfase com que eu defendia o rapaz de um braço só.

---- Agradecer?!! Que merda! Seus merdas!! -- todos dentro do ônibus me olharam.-- Vocês falam tanto de amizades, fazem festa e mais festa, mas não sabem o verdadeiro valor da amizade. Meu Deus, ele não é um cara de outro planeta, é como nós, estudou com a gente durante dois anos, lembram? Então porque o ignoraram? Porque o deixaram de lado durante todo esse tempo, nenhum de vocês soube ir até ele e o convidar para sair? Ao menos sentar e conversar com ele.

--- Eei, eieee, qual é? Tá bancando o bom samaritano agora? Ficou andando com ele pra cima e pra baixo por que quis, ninguém lhe pediu para fazer isso!! - disse um outra garoto com quem eu realmente não simpatizava.

---- Eu sei disso. Eu sei. E me orgulho disso, e mais, me orgulho por que não sou da "turminha de vocês".

---- Hei, deixa pra lá cara, esse pessoal tá com a razão. Eu é que não deveria ter vindo. Eu sabia que não ia dar certo.- falou baixinho Celestino no fundo do ônibus.

----- Que é isso Celestino!? - lhe disse sentindo agora toda angustia que estava dentro do meu peito, prestes a sair pela garganta como um vulcão em erupção. ----- Viu só o que vocês fizeram? Quer dizer que enquanto ele nos ajudava lá nos bailes, tudo bem, mas então ele não devia vir? Era isso que vocês queriam ? Meu Deus, quanto que eu me enganei a respeito de vocês? E você Luiz? Não diz nada? Não lembra quando ele te emprestou dinheiro pra você pagar a mensalidade da escola? E você Rojani? Só te importa a festa, nada mais? Será que o que tem de bela, tem de vazio o coração? Sabem de uma coisa, eu vou descer desse ônibus. Vou pegar Um outro e pagar passagem. É melhor que andar com vocês.

---- Hei cara, que é isso?-- disse o Luiz. -- Não precisa exagerar. Calma! Calma!

---- Haa, deixa ele. Quer descer, desce. Quem você pensa que é para dar lição de moral? Ficou apaixonadinho por ele é? Ou só está com inveja da gente, porque a gente se divertiu, saiu, arrumou umas gatas, enquanto você ficava cuidando do aleijado? - o Décio disse isso. Mal ele acabou de pronunciar essas palavras eu soltei o punho direito em seu queixo. Ele se desequilibrou, bateu em um banco, e quando tentou revidar o pessoal o agarrou.  Rapidamente formou-se uma discussão generalizada dentro do ônibus.

O motorista ouviu a bagunça e parou o ônibus. Veio ver o motivo da gritaria. Celestino continuava lá no fundo do ônibus, sentado sozinho em um banco, com a cabeça branca entre as pernas, quietinho, sem soltar a voz. Olhei para ele antes de descer do ônibus. Jogaram minha mochila por uma janela.

Vi o olhar de desaprovação que o Luiz me lançou pela janela. Não acreditaram que eu fosse tão longe a ponte de descer do ônibus. O celestino continuou com eles.

...................................

Dois dias depois deles eu cheguei em casa. Cheguei de noite, cansado e com fome. Havia gasto minhas economias todas na passagem de ônibus. Ao amanhecer fui para o trabalho sem falar com ninguém de casa. E assim o corre-corre do serviço preencheu meu dia. A noitinha, ao chegar em casa, vi as luzes apagadas, e com certo receio abri a porta. Foi a maior surpresa da minha vida. Lá estava toda a turma que havia ido viajar comigo. Me abraçaram, me xingaram e, emocionados choramos juntos. O Celestino me abraçou e soluçando me disse algo que nunca esquecerei. ---- Se todos tivessem um sentimento de amizade tão forte, com certeza muita coisa seria diferente.

Isso foi a mais vinte anos. Muita água correu depois. Mudei de cidade, casei, separei, tornei a casar.  Algum tempo atrás fiquei sabendo que o Celestino tinha falecido. Problema de ostioporose. Havia feito varias cirurgias no braço  e também acabou por perder uma perna antes de falecer. Quem me enviou a carta dizendo que ele havia falecido foi o Décio, que depois da viagem virou um dos melhores amigos do Celestino. E também fiquei sabendo que ele deixou um menino para a esposa criar. A esposa dele se chamava Rojani, a morena bonita da nossa excursão.

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Quando conto essa história muitas não acreditam nela pelo tom politicamente correto, mas aqueles eram outros tempos, outros modos e costumes.

Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 03/04/2006
Código do texto: T133143

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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