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O EXPLORADOR - parte 02 de 03

O barco estava parado no meio do rio. Um rio que já não era mais o Solimões. As águas eram mais claras e calmas. Alguns bugres vinham de canoa trazendo pedaços de bambu na tentativa de desencalhar o barco do banco de areia. O capitão estava desolado a um canto de cabeça baixa enquanto o mestiço lutava com vontade forçando uma estaca contra a lateral do barco e tentando junto a outros bugres mover o barco. Mas o esforço era inútil. Cheguei perto deles e tirei a máquina do meu ombro, jogando-a sobre umas sacas de alimento. Ângelo sorriu quando me viu juntar-se a eles. Depois de meia hora de infrutíferas tentativas o guia teve a idéia de descermos todos e irmos de canoa até a margem. Marrie London e o Alemão biólogo conversavam algo em alguma lingua que não consegui entender. A médica mostrava preocupação no rosto e os demais ocupantes não demonstraram nada além de expectativa.

Nosso guia disse que deveríamos ir todos para a margem e tentarmos então tirar um pouco de peso de dentro do navio. Com menos peso poderia ser mais fácil movê-lo. A preocupação do comandante era a de que o casco tivesse sofrido alguma avaria durante o choque com o banco de areia. Algum tronco ou pedra. Mas depois de uma análise mais cuidadosa verificamos que não havia esse problema.

Eu havia assumido naturalmente um lugar de segundo tenente do guia. No entanto o barco precisaria trocar umas peças que romperam-se com o choque. Um dos carregadores disse que tinha parente na aldeia e conseguiria ir até a cidade mais próxima e voltar em dois dias. Era um atraso considerável. Marrie London não gostou nada daquilo.

Se tivéssemos outra pessoa com capacidade de guiar o barco certamente o bêbado do capitão seria demovido de seu posto. Mas não tínhamos ninguém com esse conhecimento.

Ângelo, o guia, disse que podia ir na frente, junto com mais duas pessoas, para inspecionar o local onde iríamos passar quando o barco estivesse pronto.

Marrie London não entendeu.

---- Rios do sul melhor de navegar. Norte muitas cachoeiras e quedas d'agua. Preciso traçar caminho pra barco não bater. Fotógrafo, bom de cabeça vem comigo. Vocês esperam na aldeia. Fazemos cabana para Dona Marrie dormir e vamos amanhã de manhã.

Disse isso e já punha mãos a obra ordenando que alguns bugres começassem a limpar um lugar para a cabana da expedição. Em menos de cinco horas, com o sol ainda alto, vi surgir uma impressionante choupana onde antes era um pedaço de capim e mato.

Havia espaço suficiente para todos e ainda lugar para guardarmos os mantimentos e equipamentos.

Baku sumira durante o dia, mas á noite retornara para junto de nós. Parecia ter tanto medo da noite na floresta quanto nós humanos.

Os piuns, mosquitos da mata Amazônica, verdadeiros vampiros de bicos, nos infernizaram até que um dos bugres pegou umas madeiras verde e umas folhas de bambu e fez uma fumaça dos diabos. Quase morremos juntos com os tais de piuns.

O biólogo mostrou-se preocupado pois algum inseto lhe mordera a perna por cima das meias e a perna estava ficando arroxeada.

Ângelo pediu a uma mulher da aldeia que fritasse dois ovos. Com os ovos ainda quentes, pegou um pedaço de pano e colocou a compressa sobre o local da ferida.

O gigante alemão tremeu como vara verde. Alguns bugres davam risada. No entanto, no meio da noite ele acordou e verificou que as gema dos ovos tinham puxado todo o veneno. Estavam rochas e o aspecto da perna do homem melhorara. Ângelo, sempre atento, lhe disse que assim que amanhecesse pedisse para a mulher fritar mais dois ovos novamente e só tirá-los quando o sol estivesse na cabeça dele. Ou seja, pude entender que devia tirar somente lá pelo meio-dia.

Cansados e extenuados, os bugres se deitavam em cima de folhas de coqueiro enquanto nós dormíamos em redes com mosquiteiros e ainda umas cem dúzias de mãos de óleo pelo corpo. Pois sabíamos do perigos dos anofelinos, e também dos carapanãs, mosquitos que davam medo só pelo tamanho, enquanto os primeiros podiam nos matar, pois se nos picassem nos deixariam com uma herança de impaludismo. Muitos deles, dos bugres, já haviam conseguido anticorpos naturais para essas doenças, devido ao contato quase que diário com esses vermes.

Acordei com Ângelo tocando em meu braço. Aquela desconfiança do primeiro contato havia sido quebrada. Eu agora o via com outros olhos. Parecia ser o único a saber o que fazer por ali.

Marrie estava de pé, uma bota de cano alto, calças e camisa de manga comprida. Roupa que a maioria de nós brancos estávamos usando para nossa proteção, apesar do calor escaldante. Ela se aproximou de nós e nos desejou sorte. Disse que se em três dias não tivesse noticia nossa voltaria até Tefé.

Ângelo garantia que nos veria antes do prazo.

O guia agora trajava uma calça comprida caqui, um chapéu e um facão na cintura. Os bugres também estavam com um facão na cintura. Mas era só o facão sobre a pequena tanga que usavam. Estes usavam roupas antes porque vinham da cidade. Na aldeia a maioria dos bugres andava desnudo do tronco para cima, com apenas essa pequena tanga escondendo seus sexos. E eu sabia que se sentiam mais livres assim.

Achei que Ângelo me chamara para ir junto por que eu era um dos únicos com quem ele podia falar, tanto em português, quando não queria que os bugres soubessem o que dizia, como em tupi, quando não queria que o pessoal da exploração soubesse. Ele deve ter sentido que eu entendia tudo o que falava, mesmo quando tentava usar um dialeto dos kaigangs.

Na pequena canoa embarcamos eu, Ângelo, dois bugres e o pequeno Baku, que não se desgrudou um minuto de mim. Com a sugestão de uma mulher da aldeia, no dia anterior havia feito uma espécie de cesta, que presa ás costas, o pequeno animal podia ir comigo aonde quisesse. Bastava se enfiar na cesta.

Ângelo sorria vendo as caretas que o pequeno símio fazia. Mas eu não gostava do olhar que dirigia ao animal. Imaginei se ele não estava pensando em comer o pequeno animal.

Nós quatro nos revezávamos nos remos.

No primeiro turno, remavam Ângelo e Tucoiman, depois eu e Maraoni.

Aos poucos vimos as pequenas casas feitas de tapê irem se perdendo na distancia. As margens do rio não eram tão largas. Ângelo me explicou que enquanto os rios afluentes do amazonas da esquerda estão na vazante, os da direita estão na enchente e que a época da chuva tem início do sul para o norte e á medida que os rios da direita do amazonas vão recebendo água em suas cabeceiras, os da esquerda vão secando, deixando ao sol pedras e galhos. Mas tarde acontece o reverso.

Disse-me ainda que "Dona Marrie" queria seguir o curso dos rios da esquerda o que era muito difícil conseguir com barco grande. Com canoas é mais fácil, visto que existem muitas cachoeiras e pedras nos cursos daqueles rios.

Então entendi o porque dele ir na frente. Queria traçar uma espécie de mapa. Pois sabia que em muitas partes os rios parecem paliteiros de gigantes, dado o número de galhos e árvores em seu seio.

Remávamos e volta e meia um bugre jogava uma linha no rio na tentativa de pegar algum peixe. Falavam muito do tal de pirarucu. Eu já ouvira falar, mas confessei que nunca vira um de perto.

Depois de cada turma ter remado duas vezes por incontáveis distancias dentro daquela água meio barrenta, Ângelo apontou uma barranca onde descansaríamos um pouco. Disse que logo chegaríamos a um rio por onde teríamos que entrar. Tucoiman amarrou a corda em uma arvore ribeirinha e Maraoni nos ajudou a puxar a canoa até a margem.

Ângelo falou para não sairmos dali que ele e Maraoni iriam caçar. Eu me assustei. Caçar!? Ali?! no meio daquela mata fechada? Tucoiman me explicou enquanto os outros dois sumiam entre as árvores que eu devia fazer um pequeno mapa do percurso que já havíamos feito. Com a ajuda do bugre tracei um mal desenhado mapa, mas que depois poderia ser muito útil. O sol começava a cair, e eu ouvia barulhos assustadores vindo da mata. Já ouvira barulhos assim na aldeia, mas eram em menor intensidade. Nada como aquilo. Os predadores se aproximavam de nós disse Tucoiman, mas não devia me preocupar pois era isso que Ângelo e Maraoni estavam esperando.

Mal ele acabara de falar isso ouvi um tiro, que no silêncio da mata parecia mais um canhão sendo disparado. Ato pronto o bugre, meu acompanhante, começou a pegar pedaços de madeira e folhas para fazer uma fogueira. Os malditos mosquitos já começavam a incomodar. Então vi Tucoiman pronunciar um nome que me causou calafrios: "tsegolara", que significava Cobra grande. Olhei então para a barranca do rio onde ele apontava e vi passando próxima ao nosso bote uma enorme sucuri. Se ele não dissesse tratar-se de cobra eu diria que um tronco de árvore estava ao lado da canoa. Olhando melhor vi o movimento sinuoso e silencioso que o enorme réptil fazia em torno da nossa embarcação.

Fiz menção de pegar a carabina, mas ele segurou minha mão;

---- Não! Dá azar! Só mata bicho pra comer ou se defender! Ela vai embora!

E era verdade. Em poucos minutos aquela espécie de tronco descia rio abaixo junto com o vermelho do sol indo dormir.

Ouvi barulho na mata ao lado e apontei para o local. O bugre também armou-se e esperamos alguns minutos. Nisso caindo do céu alguma coisa escura espatifou-se aos nossos pés.

Baku ficou histérico e começou a pular e guinchar na cestinha que eu tinha nas costas.

Então eu percebi o porque.

Aos nossos pés jazia um macaco de quase um metro. Na verdade um metro ele tinha de mãos e pernas. O tronco era pequeno. Um balaço lhe varara a cabeça que agora era uma massa disforme e esbranquiçada.

---- E então? gostaram da nossa janta? - disse Maraoni sorrindo quando saiu da mata junto com Ângelo.

---- Mas....mas...é um macaco! - disse eu quando pude falar.

Ângelo deu de ombros.

---- Carne boa fotografo! Devemos agradecer! Foi único bicho que encontramos! Pele dele pode servir para espantar outros bicho!

Baku ainda guinchava, mas agora com menos fervor. Chegava mesmo a arranhar meu coro cabeludo, com suas unhas que a zoóloga cortara cuidadosamente.

Dito isso, Ângelo e Maraoni começaram a tirar a pele do animal. Eu me senti um pouco mal vendo aquilo, mas lembrando-me dos Urientes que comiam cavalos criei um pouco de força.

Meia hora depois eles fizeram mais quatro pequenas fogueiras e colocaram em cada uma delas uma espécie de espeto com um pedaço de pele de macaco. O cheiro era horroroso. O guia me disse que os animais sentiam o cheiro de carne queimada e isso os mantinha distante. Pois segundo uma lenda o macaco era considerado um animal sagrado na floresta e os outros animais respeitavam quem pudesse levar a melhor sobre esse animal.

O que eu sei é que até mesmo os mosquitos pareciam entender isso. Foi a melhor noite que já havia passado no mato. Sorte minha pois não havíamos levado mosquiteiro algum. Estendemos as redes no chão e dormimos. Todos nós com a mão em alguma arma. Eu não desgrudava da minha carabina. Nas poucas vezes em que acordei vi que os outros também dormiam com a mão ocupada.

Na manhã seguinte Ângelo saiu pelo mato, costeando o rio, enquanto eu e os outros dois bugres íamos o seguindo de dentro do rio. Por várias vezes não o enxergávamos e apreensivos aguardávamos sua presença próxima para nos indicar que estava tudo bem.

Logo ele fez sinal para nós da margem. Encostamos e ele entrou na canoa.

Disse que tinha sinais de que havia uma aldeia próxima. Talvez não fossem amistosos. Eu devia ficar calado enquanto eles conversavam com os moradores. Afinal muitos índios odiavam os brancos. Os tinham como causadores de suas desgraças. O que não era de todo mentira.

Me deixaram na canoa e foram, os três até onde Ângelo imaginava fosse a aldeia. Da barranca eu os espiava, até que em dado momento não os vi mais.

Os bugres haviam amoitado a canoa em meio a uns galhos e árvores que estavam caídos dentro da água, na margem. Mas quando vi que eles demoravam eu resolvi sair para ver o que acontecia.

Desamarrei a canoa e mansamente, devagar fui remando, descendo com ela costeando a margem.

Já fazia quase duas horas que eles haviam saído e desde então mil coisas me passavam pela cabeça. Sabia, pelo pouco que estudara da região, que tribos ribeirinhas geralmente são pacíficas, pois estão em contato quase que diário com pescadores e outras embarcações. No entanto Tucoiman dissera que já havia muito tínhamos saído das rotas normais de navegação. Me lembro que antes de apoitarmos ele disse que poucos aventureiros tinham entrado pelas águas que nós estávamos navegando.

Pensando nisso nem percebi o perigo que corria até que uma lança zuniu junto a mim.

Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 04/04/2006
Código do texto: T133406

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes