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O EXPLORADOR - parte final

Baku guinchou e mostrou-se nervoso.

Olhei para trás e vi na barranca quatro índios totalmente nús, empunhando arco e flecha. Mirando-me. Levantei os braços, afinal não podia fazer nada. Dois deles pularam dentro da água e pegaram a corda da canoa levando-a até a margem. Eu permaneci o tempo todo em silêncio. Na verdade sua lingua não era de toda desconhecida por mim, no entanto também não o era de todo conhecida. Era uma mistura muito grande de tupi com Xingu, Oakle com Caraíba, Bororós com Tapajós e alguma línguas mais que não consegui decifrar. Parecia coisa arcaica. Notei os pingentes que traziam nos narizes e nas orelhas. No nariz um osso em forma de lua e nos lóbulos me parecia um dente de algum animal, só que com uma diferença, brilhava demais.

Ficaram curiosos com a cesta e com o pequeno animal dentro desta. Parecia terem medo de Baku.

Eu o peguei no colo e eles abriram os enormes olhos como se eu tivesse feito coisa de outro mundo.

Mas isso durou apenas alguns instantes, um deles, o que parecia líder o grupo. Apontou com a lança para a frente e eu comecei a caminhar. Ví quando viraram a canoa e pegaram a carne de macaco que Ângelo deixara em uma caixa dentro da canoa durante a noite.

Caminhamos durante uma hora. Eu já estava cansado. Queria parar para descansar as pernas, mas os olhares e as pontas das lanças não eram um incentivo a isso.

Durante todo o tempo eu permanecia calado.

Penetramos por um pedaço de mata onde a luz de sol entrava com força mínima. O solo era bem úmido e as folhas no chão formavam quase como um tipo de solo suspenso. Em determinados lugares onde pisava sentia o chão balançar. Lembrei-me das vezes em que ia acampar e subia por cima de raízes que faziam o mesmo efeito, tipo um segundo piso.

Em determinado momentos escutei sons estranhos. Baku pareceu ter ouvido também pois pulou em meu colo assustado. Quando Baku pulou para meu colo percebi que a cesta ainda continha algum peso. Lembrei-me então que Baku levara para dentro do seu ninho minha Nikon 3.2. No momento eu não sabia de que ela poderia me ser útil, mas pensava naqueles hipóteses de que com o Flash eles me renderiam homenagem como um Deus, como algo assim.

O certo é que as pontas das lanças tiravam toda fantasias da minha vista. Por duas ou três vezes sentira uma pontada nas costas quando tentara diminuir a marcha. Eles, os índios, pareciam não se cansar nunca. Ouvira falar de tribos de índios que viviam ainda à parte da civilização e que, segundo relatos, seus homens eram todos de estatura maior que o normal e com corpos bem cuidados, sem gordura. Todavia não deviam ser esses índios de tal tribo. Eram iguais a qualquer homem branco, estatura, cabelos, e com gorduras sim senhor. Para ser verdadeiro em minha declaração, somente o que parecia ser o chefe não tinha barriga alguma. Os outros todos tinham alguma protuberância no abdômen. A diferença neles era seu linguajar, seu comportamento e aqueles penduricalhos que brilham apesar de estarmos em um lugar onde havia pouca luz do sol.

Percebi que os sons se tornavam mais nítidos. Pareciam sons de tambor. Quase uma batucada, sorri ao lembrar que esses índios podiam estar dançando pagode.

Logo um deles subiu em uma árvore e soltou um grito tão forte que pensei que algo de Deus estava em sua garganta. Fizeram-me parar a caminhada e por alguns instantes escutamos o eco repercutindo na floresta. Em seguida outro som vibrou e entendi ser a resposta.

Depois de mais um quarto de hora caminhando ouvi o som de água caindo. Pelo som conclui que estávamos perto de alguma cachoeira. No entanto ainda continuamos caminhando por algum tempo. Então como se estivéssemos no fundo de um túnel, vi a luz ir aparecendo aos poucos.

Um ohhh!! de admiração morreu em meus lábios ao ver a grandiosidade da obra da natureza á minha frente.

Uma cachoeira enorme, devia ter mais de cem metros de queda com uma largura de no mínimo vinte metros. Um verdadeiro lençol branco jorrando e calando todos os outros sons.

Eu ainda estava extasiado admirando aquela beleza quando de súbito surgiu como que do nada dois índios que pareciam serem vigias e da mesma tribo que meus captores.

Os vi indo na frente e descerem por uma íngreme encosta. Reparando melhor notei que era um caminho que pacientemente fora construído como uma passagem.

O que me assustou foi quando os vi descerem por essa escada de pedras e desaparecerem por detrás da cachoeira. Ali era preciso muito equilíbrio pois um escorregão e a pessoa teria uma queda mortal. Olhando para baixo senti um frio na barriga.

Baku pulou novamente para o cesto nas minhas costas e com a ajuda das pontas de lanças me cutucando criei coragem e desci pela íngreme e bruta escadaria. A própria umidade que descia da cachoeira era suficiente para fazer perder o equilíbrio. Notei então que havia uma espécie de corrimão feito de cipós que permitia agarrar-se para não cair.

O assombro que senti quando vi a cachoeira não era nada com o sentimento que agora me tomava.

Uma coisa como que impossível. Havia três grutas abaixo da passagem por detrás da queda d'agua e de todas elas saia um brilho que chegava mesmo a cegar. Penetramos por uma delas e então meus mais secretos sentimentos se tornaram verdade.

Estávamos em outro declive, como que pelo lado de dentro da cachoeira e agora estávamos no avesso daquela entrada, mas não havia queda d'agua apenas uma cidade que se descortinava no vale abaixo de nós. E os telhados e ruas dessa vila refulgiam ao contato do sol. Não podia acreditar no que meus olhos mostravam.

Então era verdade.
Ela realmente existia. .
A cidade perdida do Ouro.

Logo, na descida para a vila, bateram com um pedaço de pau em uma espécie de casco de tartaruga gigante, e um som rouco e abafado anunciou nossa chegada.

Em pouco tempo formou-se uma comitiva indígena para nos receber.

Para meu espanto todos me tratavam bem. Sequer chegavam a me tocar. Pisando naquelas pedras que calçavam as estradas pude perceber que realmente eram de ouro. E os telhados também. Uma massa de barro brilhante com uma cobertura um tanto parecida com as casas dos índios peruanos. Imaginei o que aventureiros e caçadores de fortuna não fariam para ficarem de posse daquela riqueza.

Eu me perguntava o que teria acontecido com Ângelo e os bugres que estavam com ele.

De repente me empurraram para uma cabana e me trancaram lá dentro. Ouvia muitos tambores tocando. Baku gania e fazia barulhos estranhos com os dentes. Não sabia se estava com raiva ou medo. Resolvi lhe tirar a correia que a zoóloga havia lhe posto. Correia esta que estava amarrada á minha cintura. Se eu tivesse que perecer pelo menos que o pobre animal saísse ileso. Não tinha culpa alguma de estar comigo.

Quando o soltei ele começou a dar pulos de alegria e a virar cambalhotas, me divertindo. Chegando mesmo a me fazer esquecer as coisas terríveis que poderiam vir a me acontecer. Sim, pois eu não era burro, e sabia que os índios raramente revelam um segredo. Ainda mais um segredo daqueles. Que faria, em coisa de dias, aventureiros mil chegarem e destruírem tudo aquilo.

Logo Baku sumiu da cabana, subindo pelo telhado dourado e desaparecendo por uma pequena abertura que havia no alto.

O tempo passava lentamente e com isso minha agonia crescia com o passar dos tempo. A morte era uma certeza e mesmo assim eu nutria esperanças, alguma coisa me dizia que eu me safaria.

Eu via os raios de sol irem minguando pouco a pouco pelo vão no alto da cabana por onde meu símio conseguira a liberdade.

Então, acho que pelo cansaço e pelo temor, dormi.

Acordei com gritos e barulho. A porta da tenda abriu-se e dois índios apontando suas flechas e lanças me fizeram levantar-me. Fiz isso com algum receio. Estaria minha hora chegando? Consegui entender a palavra "banho" em tupi.

Logo entraram duas lindas índias na cabana. E começaram a me despir. Eu sentia as suas mãos e olhos percorrerem meu corpo. Me senti ridicularizado perante a pujança dos índios e a minha nudez. As índias começaram a dar risadas e eu mordia os lábios de vergonha. Logo outros dois índios apareceram com uma grande tina cheia de água. Não sabia como poderiam ter uma tina ali, mas provavelmente teriam atacado alguma expedição ou sei lá o quê. O certo é que era uma tina.

Os quatro índios saíram e me deixaram com as duas jovens índias. Uma delas tinha o corpo que qualquer modelo de passarela invejaria, a outra já era de mais idade e suas tetas andavam já um tanto murchas. Em tupi, pedi seus nomes:

Recuaram assustadas, pois provavelmente não pensavam que eu falasse alguma língua indígena.

Acalmei-as e então entrei na tina, mostrando que sabia o que iriam fazer.

Meio assustadas ainda, chegaram perto e começaram a passar-me uma espécie de pasta, era como ensaboar-me. Repeti a pergunta, ao que a mais nova sorriu e mostrou uns dentes perfeitos. Seu nome era Rapodi e a outra era sua irmã, Garapodi. Uma significava filha da luz, e a outra irmã da luz na língua Kaigang.

A mais nova, Rapodi, me parecia meio tímida ainda na minha presença. Falavam da cor da minha pele. Garapodi, falou algo em uma língua que não conhecia. As duas deram risada. Perguntei o que falavam e elas se calaram. Rapodi abaixou a cabeça. Insisti vendo que elas fraquejavam. Disseram que perguntavam se todo homem branco tinha "itsumi’ pequeno. Merda, antes da morte, ainda a perda do orgulho de homem.

Então a porta abriu-se novamente e os dois índios que primeiro haviam estado lá dentro entraram.

As duas mulheres saíram e os índios me jogaram um cocar e uma tanga.

Fingi não entender e através de gestos eles me fizeram compreender que era para vestir-me igual a eles. Ou seja, teria que ficar nu. O banho fora proporcionado com algumas ervas que certamente afastavam os insetos visto que apesar de ser noite ainda não sentira mordida ou picadura alguma.

Quando coloquei a cabeça para fora da cabana meus olhos quase cegaram.

Acho que toda a população da vila estava ali. Formavam um corredor por onde indicavam que eu devia seguir. Eu caminhava vacilante e com medo por aquele corredor humano. Um silêncio ameaçador pairava no ar. Dava para ouvir meu coração batendo.

Ao fim do corredor vi alguém sentado em algo que parecia um trono, ao seu lado havia uma outra cadeira, vazia.

Apesar das fogueiras queimando eu mal podia ver seu rosto. O seu cocar indígena era diferente, maior e usava como que uma pele de animal sobre as pernas. Mas aqueles olhos, era como se eu os conhecesse de algum lugar

Conforme eu caminhava ia tentando reconhecer aquele rosto luzidio que adquiria formas tenebrosas nas trevas que o envolviam.

Então subitamente minha mente se abriu.

Ângelo!!! Era Ângelo! Aquele desgraçado! Eu sabia que não devia ter confiado nele.

Ele pareceu saber que finalmente  o reconheci e então levantou-se com a pose de um rei. A um sinal seu todos sentaram-se sobre as próprias pernas, ou no chão. Os tambores calaram-se.

Retirou o cocar e o colocou na cadeira ao lado.

Eu via seus olhos me penetrarem e vararem o espaço entre nós.

---- Fotógrafo, vem cá! Ângelo quer falar com você! - disse isso e apontou para a cadeira ao seu lado.

Como que hipnotizado por tudo que vivia eu caminhei em silêncio até o local indicado, onde o outrora guia estava.

Só quando estava a uma distância de menos de cinco metros reconheci Maraoni e Tucoiman ao seu lado, como fieis guardas costas.

---- Quem é você? Que significa tudo isso? - por fim balbuciei.

Pelo tom de voz como disse essas palavras índios mais próximos se levantaram prontos para me atacarem com seus facões, mas um gesto do seu monarca e eles sentaram-se novamente.

---- Sentem-se! Ele é meu amigo!- disse isso em Tupi, para que eu pudesse entender.- Te trouxe até aqui por achei necessário conhecer a verdade sobre a exploração da "Dona Marrie" - disse ele dando risada como se o título a Marrie London fosse uma piada - Sou Tucpac, e minha família é da ordem de TupacAmon, da antiga dinastia Maia. Faço parte da 24ª geração. Essa aldeia existe ha mais de cinco séculos, bem antes dos brancos chegarem aqui.

---- É... é o eldorado?

---- sim...e não...essa é Manôa! A cidade dos meus antepassados. Pizon e outros mais tentaram encontrar mas falharam.

---- Porquê?

---- Porque falharam...ora eles só queriam o ouro...

---- Não! Digo porque eu? O que vão fazer comigo?

---- Como eu disse você é dos nossos. Não precisa se preocupar. Foi reconhecido logo que chegou na mata.

---- Como assim? Fui reconhecido? Por quem?

---- O pequeno animal que te adotou. Ele é sagrado. Ele te escolheu.

----- Baku!? - eu não acreditava no que ouvia - mas .... ele é só um macaco...

----- Ele sagrado!

------ Mas você matou um outro macaco lá na floresta!

------ Bugio ser comum! Atacar neném índio! E carne boa. Outra raça de mico ser sagrada. Raça Oympo fez cidade junto com ancestral nosso.

----- É brincadeira né! Baku é apenas um mico.

------ lembra doutora falar que era especial? Raça perto extinção. Cadê o mico?

Eu olhei para os lados. Todos pareciam estar ouvindo e sabendo o que falávamos, mesmo falando em português.

Podia ser Baku um Deus para aqueles índios?

---- Não está comigo!

Parecia que tinha dita algo proibido. Ângelo ou TucPac, como queiram, levantou-se e levantou as duas mãos com as palmas voltadas para cima. Os índios levantaram-se. Ele falou algo que não entendi. Simultaneamente gritos e hurros varreram a noite.

Algumas lanças foram jogadas aos meus pés.

Nisso ouvi um barulho conhecido. Olhei para cima e vi em um galho de um pinheiro o pequeno Baku.

---- porque? que quer com o animal?- desconversei tentando não revelar aos índios onde estava o pobre animal.

---- Animal precisa ser morto em ritual sagrado. Afastar maus espíritos. Proteger nossa raça. Seu espírito irá nos proteger dos olhos dos aventureiros. Diga onde está?

Eu poderia dizer que ele estava ali, sobre suas cabeças, mas fiquei com pena do pobre animal.

---- Não sei! Acha que se soubesse ficaria escondendo e correndo o risco de ser morto?!

---- Você irá dizer onde está o mico! Xamã!! – Gritou ele e um índio velho e com um caneco na mão se aproximou.

---- Branco diz ter máquina da verdade. Manôa tem poção pra mentiroso dizer verdade.

Dois índios saíram da fila e agarraram meus braços fazendo-me ficar de joelhos perante o mestiço, que não era mestiço. O velho índio agarrou meu nariz, apertou-o com força e me fez abrir a boca na marra. Um liquido viscoso e nojento desceu pela minha garganta. Tentei ainda expelir mas não consegui. Seguraram minha boca fechada durante uns dois ou três minutos forçando-me a engolir. Senti uma espécie de tontura momentânea e no instante seguinte me lembro de ter caído em frente ao líder daqueles selvagens. Entrei em transe e só me lembro de ter acordado tempos depois, já na cabana. Não me lembrava de nada do que havia dito. Será que havia entregue o pequeno mico? Meu Deus, se eles o tivessem pego eu não valeria mais nada para eles.

Logo TucPac veio até a tenda. Estava vestido como quando o encontrei no porto de Tefé. Como um branco, ou melhor, como um mestiço.

---- Fotografo está melhor?

---- Sim! Mas com uma maldita dor de cabeça!

---- Efeitos cola....como se diz mesmo?

---- colaterais seu idiota! É, efeito colateral. Que aconteceu? Pegaram o Mico?

Ele sorriu e sentou-se no chão diante de mim, cruzando as pernas.

----- Animalzinho esperto! Fugiu! mas Xamã disse que ele está por perto. Gostou de você!

---- Quer dizer que enquanto eu estiver vivo o mico estará por aqui?

----- Ou que podemos usar fotografo pra pegar mico!

Era verdade. Eu tinha me esquecido disso.

---- Façamos um trato, você dá mico e te deixo ir embora.

Ahá...

---- Está pensando que sou besta? Na primeira oportunidade depois de estarem com o Baku vocês me matam. Fincam uma flecha nas minhas costas.

---- Você tem que entender! Não há outra maneira de sair daqui. Podemos deixá-lo sair vivo, sem problemas. Pois o espírito do mico nos protegerá. Nada do que falar e fizer poderá nos afetar.

Se fosse realmente verdade o negócio do espírito isso também seria então verdade. No entanto eu não queria sacrificar o pequeno animal.

---- Amanhã cedo tenho que ter resposta. Xamã não gosta de ter estranhos entre nós. Diz ele que você trará nossa desgraça e ruína. Eu sempre levei a sério as palavras dele. Mas já está ficando meio gagá... como os branco dizem.

Passei a noite com frio, dormindo no chão duro. Vendo os formigões a alguns centímetros do meu rosto e ouvindo a cantilena ininterrupta dos insetos miseráveis. Na aldeia ainda ouvia um barulho danado, como se estivessem comemorando algo.

Acordei com um som de chocalho ao meu lado. Era Baku. Tinha meu cesto e minha máquina fotográfica dentro. Aquilo era uma maravilha.

Tirei uma foto do pequeno mico e ele começou a girar em torno de si, fechando e abrindo os olhos.

Sorriu, ignorando o perigo que corria se o pegassem ali. Então comecei a falar com ele como se fosse uma pessoa.

---- Baku, você tem que ir embora! Eles querem te matar! Vaí! saí daqui!- mas o símio não fazia nada a não ser virar a cabeça, ora pra esquerda, ora pra direita, como a me entender.

---- Vá! Saia daqui! Vamos!- então ele pulou para meu colo e pegou a máquina fotográfica. Pulou novamente para o chão e apertou o botão. Um flash instantâneo me cegou momentaneamente.

Quando me recobrei levei um tremendo susto. A minha frente estava um lindo índio. Corpo escultural e de beleza impressionante.

---- Branco, vá embora! Faça o que tem que ser feito! A vida é um ciclo, um fica outro vai! Índios não te encontrarão, use isso.

Novamente um flash da máquina e eu fechei e abri os olhos. O índio havia desaparecido e em seu lugar estava o pequeno Baku! Será que tudo fora uma ilusão?

Baku então tinha nas pequeninas mãos um colar estranho, com duas pedras furadas.

Ele pulou e as colocou sobre minha cabeça.

Nesse instante Ângelo ou TucPac apareceu. Um sorriso apareceu em seus lábios.

---- Eu sabia! Sabia que conseguiria! Me dê aqui! --- disse ele e tentou pegar o animal do meu colo.

Eu me afastei rapidamente para o lado e evitei seu contato.

---- tire suas mãos de mim! Seu animal!

---- Animal!? hahahahah.,... animal...ora veja só...então os índios são animais...eu já ouvi isso antes...mas não pensava ouvir isso de você fotografo. Quem trouxe a morte para nós? Quem roubou nossas terras e riquezas? Quem expulsou as outras tribos de suas terras, sem ligar para suas culturas e tradições?

--- ora vá para o diabo com suas teorias e choros nativos. Sabe muito bem do que estou falando.

---- Nossos rituais sempre foram feitos fotografo e estamos agora precisando mais do que tudo do espirito do mico. Afinal você sabe do nosso segredo, sabe o que temos aqui. Precisamos evitar que outros vejam o que viu, que saibam que o que dirá é a pura verdade. E a única maneira de evitarmos isso tudo é com o espírito do mico. Seja compreensivo.

---- A única maneira de pegarem esse animal é sobre o meu....

---- Cadáver?! Fotografo é corajoso, poderíamos fazer isso sim, mas isso não será necessário! Basta nos dar o ...

Joguei o Baku para cima na esperança dele agarrar-se ao telhado de com suas garras e ir embora. Como o fizera na noite anterior.

Mas o pequeno símio mal grudou-se no teto olhou para mim como a dizer algo de importante. E no instante seguinte pulou para os braços de Ângelo.

---- hahahah.... vejam só! Isso mico! vem comigo vem!... E você fique aí! Vou cumprir minha promessa.

Promessa de mestiço. Sei!

Lembrei-me novamente dos pobres Urientes.

Logo o Xamã apareceu e deu-me de beber de mais uma poção não sei do quê.

..................................................



Acordei não sei quanto tempo depois dentro de uma canoa, sozinho e com um par de remos. Em um canto vi uma caixa de papelão. Dentro ainda havia comida do macaco que Ângelo abatera. Ficaram até com minha máquina.

Logo, esgotado, sem forças e pelo calor caustigante do sol, adormeci novamente.

Acabei acordando em uma cama, coberto com um lençol. Sentia sede. Uma enorme sede.

---- Teve sorte amigo! Um pescador encontrou sua canoa a deriva perto do Amazonas. Se vai até lá, tchau pro senhor! --- me disse uma enfermeira velha e gorda.

---- Mas...

---- Não faça força! Está muito fraco. Um pescador o encontrou a três dias atrás. Estava com 42 graus de febre. Escapou por pouco. Disseram que tinha carne de macaco dentro da canoa. Carne com veneno de urubiã.

---- Que...

---- è uma espécie de peixe. Mas não serve pra comer. Sua banha os índios usam para passar nas pontas das lanças e flechas.

Fiquei três meses em tratamento, tentando me desinfectar. Quando saí dali, tentei saber notícias da turma de Marrie London e descobri em um jornal a noticia de que toda a expedição fora apanhada em um rodamoinho e que do barco só sobrara madeira. Nenhum sobrevivente. Muito cômodo.

Durante um tempo tentei convencer políticos e policiais sobre o que acontecera. Mas eu não tinha prova alguma. A não ser um velho colar com duas pedras que me tiravam o sono volta e meia.
Se história do espirito do macaco proteger a aldeia de ouro é ou não verdade, isso  eu não sei, mas parece que deu resultado.





Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 04/04/2006
Reeditado em 05/04/2006
Código do texto: T133407

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes