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Fragmentos Urbanos - Estórias de Ônibus

FRAGMENTO 04 - ESTÓRIAS DE ÔNIBUS


        Só quem toma ônibus sabe o que pode acontecer numa simples viagem de um lugar para outro da cidade. Todos os tipos de pessoas tomam ônibus, desde o engravatado executivo até o desempregado desesperado que toma vários ônibus por dia para tentar uma chance. Crianças de colo a idosos que nem sempre conseguem sentar nos assentos que lhe é reservado também são personagens rotineiros.
Certa vez tomei um ônibus no centro com destino a zona oeste, na região de Perdizes. Passei pela catraca e fui sentar nos bancos mais altos afim de ter uma visão panorâmica daqueles que entram pela porta. O ônibus estava parcialmente lotado, ou seja, todos os bancos ocupados e nenhuma pessoa em pé. No banco da minha frente estavam duas moças.
_ Menina, tu não sabe o que o Joel me aprontou. – disse a moça sentada no assento da janela.
_ O que ele fez dessa vez Cileide?
_ Ele faltou no serviço com a desculpa de uma dor de cabeça, ai fui trabalhar, e quando voltei a vizinha disse que ele viu fazendo um serviço pra Liana, que é uma bisca que mora perto da gente, fui falar com ele e ele teve a coragem de assumir, mas disse que foi trocar uma lâmpada, e ainda me pediu pra acreditar, posso com uma coisa dessa?
Ri comigo mesmo e deixei de prestar atenção na conversa delas e virei a cabeça pros lados e vi uma dupla fora do comum, dois rapazes dividiam o banco, um deles tinha o estilo rastafari e pelo que pude ver uma camisa com o rosto do Bob Marley e o rapaz ao seu lado estava todo vestido de preto, com um crucifixo (ao contrário) pendurado no pescoço, nem quero imaginar um diálogo entre esses dois. Numa das paradas do ônibus para entrar passageiros entrou um moço esquisito que passou pela catraca e ficou encostado na barra de ferro próxima do cobrador e começou a falar:
_ Boa tarde pessoal, desculpe o incômodo, mas gostaria de lhes falar alguns versos que escrevo, sou um poeta da rua. Vou ler um dos poemas que já fiz:

        Já andei por várias ruas
Mas não encontrei meu destino
O meu céu não tem lua
Quando você não está por perto.
Sentado na calçada solitária
Só esperando meu amor passar
A paixão quer me atropelar
Até posso me acidentar, desde que o Amor venha me resgatar.

         Todos ouviram e aplaudiram. O poeta popular agradeceu e pediu a quem pudesse dar umas moedas para que ele tomasse outro ônibus e lá divulgar seu trabalho. Eu não tinha muita coisa e por isso dei algumas moedas. Ele foi embora e tudo voltou ao normal. Quando o ônibus passou pela avenida Doutor Arnaldo, vi uma cena curiosa em frente ao cemitério do Araçá. Estava ocorrendo uma greve, mas não uma greve qualquer, pois se tratava de uma greve de coveiro. Só faltava essa!
Em outra parada do ônibus entraram alguns estudantes, aparentemente do ensino fundamental e eram muitos.
_ Meu, aquele professor é um otário, pensa que manda em alguma coisa. – disse um deles.
_ Ele é um tosco, me pegou colando e ainda disse que fazer cola eu sei, mó folgado ele. – disse outro.
_ Então você que é otário então, nem pra fazer cola você presta. – zombou outro rindo do garoto.
_ Ah cala boca, fica quietinho porque você levou o maior fora da história, da menina mais tosca. – retrucou o garoto.
_ Pelo menos eu gosto de mulher, não sou você que só fala e nunca catou ninguém.
O garoto não falou nada, apenas mostrou o dedo do meio. O ônibus começou a lotar e já havia algumas pessoas em pé. Logo depois telefones celulares começaram a tocar os mais diversos tipos de campainhas. Trechos de músicas conhecidas e não conhecidas, latidos, miados, rugidos, sinfonias.Quem atendeu ao toque de latido de cão foi uma garota e parecia estar falando com um homem, será o “cachorro” do namorado dela? A pessoa que atendeu ao toque de rugido parecia falar e apenas confirmando: “sim, eu fiz ou ainda vou fazer ou pior: vou estar fazendo quando sair desse coletivo lotado”, sem dúvida que era o chefe ou quem sabe uma mãe autoritária. Contudo, a conversa que chamou a atenção de todos foi de uma menina que parecia falar com a mãe que estava lhe dando broncas e a menina só se defendendo até dizer algo que comoveu a todos no ônibus.
_ Ah quer saber! Eu fiz mesmo e fiz o teste porque o cara tava sem camisinha e tinha que ser naquela hora. – disse a menina em alto e bom tom sem se importar com o fato de todos terem escutado a bombástica revelação para sua mãe.
Não escutei o fim da conversa, pois a minha vez de descer estava chegando, então me levantei do banco e ao me encaminhar para a porta eu resvalei a mão sem querer nas costas de alguém e a pessoa respondeu no mesmo instante, na verdade uma menina (que pela voz parecia da menina que discutia com a mãe) com toda raiva disse:
_ Pô, tira a mão da minha bunda. – pra minha sorte eu já estava descendo, mas ainda assim pude ouvir o pequeno escândalo que ela tinha feito por um acidente que pode ocorrer num ônibus lotado.

FIM
Miguel Rodrigues
Enviado por Miguel Rodrigues em 09/04/2006
Reeditado em 09/04/2006
Código do texto: T136303
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Miguel Rodrigues
Barueri - São Paulo - Brasil, 33 anos
1432 textos (42634 leituras)
6 e-livros (1681 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 22:13)
Miguel Rodrigues