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DOLORES DE TODOS NÓS

Ela se chamava Dolores. Maria Dolores. E no nome a sina de todas as Marias. As Das Dores, como eram chamadas as suas irmãs gêmeas do Nordeste do país. E Dolores sofria a sua própria dor e sofria, também, as dores de todas as brasileiras. Brasileiras estas, que lamentavam, dia após dia, o terem nascido em um país que não lhes dava oportunidade de ascensão social.

Ser pobre e ser mulher no Brasil sempre foi um grande desafio à sobrevivência. Mesmo com as mudanças operadas nos últimos anos nos escaninhos do poder, quando um sociólogo e um operário tiveram a chance de modificar para melhor a vida das mulheres pobres do país, não se percebeu o devido investimento na área social que se era de esperar. Que povo, então, representam, ao ocuparem com garbo e ostentação a presidência da República?

É nesse contexto que vamos encontrar a nossa Dolores. Mulher hoje madura, na altura de seus 35 anos, que desde cedo encarou todas as dores possíveis e imagináveis para vencer na vida. Dolores nascera de família pobre, em Tangará da Serra, MT, no início da década de 70. O Brasil acabara de ganhar o tricampeonato de futebol no México, e Seu Olvídio, pai de Dolores, vibrava com cada gol marcado pelo escrete canarinho, principalmente os que conduziram à posse definitiva da Taça Jules Rimet na epopéica vitória de 4 X 1 sobre a temível Itália.

Sua esposa ficara grávida por aqueles dias. Os sustos que Dona Albertina tomava ao perceber os gritos de vibração do marido com os gols da Seleção, só perdiam em empolgação para as suas performances sexuais nas noites e madrugadas após os jogos da Seleção de Zagalo.

No pequeno barraco de pau a pique que se erguia no assentamento de retirantes que o governo Médice, ao fazer vistas grossas, permitira erguer-se ao longo da Serra de Itapirapuã ou Bocaiuval, no município de Barra do Bugres, território esse que consta como a planta inicial do Município de Tangará da Serra. Pois no barraco televisão era coisa de outro mundo. Dos americanos, Armstrong, NASA e outros bichos. O velho radinho de pilha de Seu Olvídio, tocava música sertaneja em alto som e gritava gols aos berros, como que querendo convencê-lo, ainda, que era tempo de “pra frente Brasil!”

Dona Albertina é que teve que agüentar todo o entusiasmo do marido, noite após noite, ao longo daquela edição da Copa do Mundo. E olha que Seu Olvídio não torcia só para o Brasil não. Era daqueles apaixonados pelo bom futebol! E tome comemoração de gol bonito... E o resultado apareceu poucos meses depois, vindo à luz no final do primeiro trimestre do ano seguinte, quando a casa foi enriquecida do nono filho, com o nascimento da pequena Dolores.

O nome da menina foi insistência da mãe, devota da Imaculada, fã de carteirinha de Santa Ingrácia e visitadora de presépios na cidade, toda vez que o Natal se aproximava. Talvez Dona Albertina quisesse pontuar o seu sofrimento, com tantas bocas para alimentar, um marido sem estabilidade empregatícia, a vida beirando as raias da miséria e agora uma criança de peito que lhe consumia boa parte das já débeis energias, tão necessárias aos cuidados do barraco, cujas paredes esturricadas ameaçavam desabar sobre seus moradores. Não havia nome melhor!

Na paupérrima realidade de Tangará da Serra, Dolores foi crescendo e aprendendo, às duras penas, o que era a vida. Enquanto estava na primeira infância, e ainda não fôra apresentada às realidades hostis do mundo, Dolores era feliz! Foi feliz no barro. Foi feliz na lama. Brincava em casa e brincava com os outros meninos e meninas nos assentamento; o grande quintal de todos onde todos eram felizes à sua própria maneira.

Até o dia em que entrou para a escola pública e descobriu que até entre os pobres havia discriminação. Porque havia os pobres, os pobres-pobres, os pobres-um-pouco-mais-pobres e os pobres-muito-mais-pobres. Havia os pobres dos bairros e os pobres do assentamento do governo. Ela pertencia ao último escalão da pobreza. Porque havia menina que tinha meia e calcinha e ela era do tipo de menina pobre que não tinha.

E ela só descobriu isso no dia em que os meninos das turmas mais avançadas, resolveram brincar de levantar a sainha das meninas menores e descobriram que ela e mais duas coleguinhas do assentamento estavam sem calcinha, por baixo das saias de pregas azul-marinho doadas pela municipalidade. E depois disso ficaram zuando de terem visto a perereca delas.

Dolores ficara muito enjoada com aquilo tudo e, naquele dia mesmo, tomou uma decisão que seria determinante para o seu futuro. Nunca mais seria humilhada por ninguém e nunca dependeria de ninguém ou ficaria devendo favores.

Os anos se passaram. A pequena Dolores transformara-se numa adolescente bonita, pele morena, cabelos negros como a noite e compridos como um véu, parecendo uma índia destes brasis de Deus. A adolescente foi muito cortejada, mas ela tinha uma determinação na vida e cedo saiu de casa para trabalhar de serviços gerais numa instituição religiosa. À noite, fazia seus estudos e, nos fins de semana, visitava os pais, sempre levando presentinhos para os irmãos e compras para a casa.

Paralelamente a tudo isso, ia juntando algum dinheiro na poupança, dinheiro este que veio a financiar sua Faculdade de Administração de Empresas e permitir o seu ingresso na vida pública, tendo passado em concurso para a área administrativa de uma empresa gestora da preservação ambiental em sua cidade.

Nossa personagem cumprira fielmente sua determinação e hoje se constituía numa mulher independente, madura, bonita e feliz, com uma vida sólida e uma tranqüilidade econômica de causar inveja, que passava bem longe das peripécias socioeconômicas que teve que viver na infância e adolescência.

Mas, havia um senão a toldar-lhe os dias. Houve um aspecto da vida que ela teve que sacrificar para alcançar seus objetivos. Dolores era uma mulher experiente na vida cultural, profissional exemplar, uma balzaquiana bonita, mas de pouca experiência na vida afetivo-amorosa. Sacrificara o amor, os relacionamentos, as investidas de homens abusados que ousaram desejar seu corpo moreno, atraídos pela bela estampa que possuía. Tudo para dedicar-se com força e determinação tão somente aos projetos pessoais voltados para a realização profissional e financeira.

É claro que colaboraram para isso dois ou três namoricos mal resolvidos e um envolvimento mais sério com um homem bem sucedido na vida, mas que descobrira depois, ser casado, o que a frustrara sobremaneira, pois se sentira traída e ludibriada em seus sonhos de mulher para o casamento.

Agora, nesta altura de sua vida, descobrira-se aberta para envolvimentos emocionais, relacionamentos afetivos, embora se sentisse despreparada para isso, resultante dos atropelos anteriores que a vida lhe reservara. Ainda era uma mulher bonita, que conservara no rosto a beleza e o encanto femininos e no corpo o frescor da juventude a soprar desejos e anseios ardentes na paixão juvenil, mas não se sentia segura o bastante para a paixão, embora até mesmo estivesse aberta a relacionamentos fortuitos e casuais, desde que o parceiro jogasse limpo e aberto com ela, sem ilusões e tapeações que provocaram em sua vida feridas intermináveis.

Dolores não queria novas dores. Dolores agora só queria amores. Por isso, não aceitava mais ilusões e ludíbrios de qualquer espécie seja no plano econômico e social, seja no plano afetivo e emocional.

Foi nestas circunstâncias que a conheci. A linda Dolores que andara no passado com os pés no barro, agora, deslizava serena em lindos sapatos de grife, modelos de última geração da indústria calçadista brasileira, desfilando graça e leveza, para tantos quantos divisassem seu belo corpo feminino transitando nas ruas da cidade. Tangará da Serra cresceu e com a cidade sua ilustre moradora.

Dolores estava feliz no dia em que a encontrei. Trajando um lindo vestido vermelho que fora especialmente confeccionado para a primeira exposição individual que faria no Salão de Artes da cidade, Dolores estava orgulhosa de sua expansão nas artes plásticas e me convidara para aquele momento especial. Foi com muita satisfação que participei daquele momento especial de sua vida e que viajei com Dolores naquele fim de semana para um merecido repouso nas praias do Ceará. Naquela oportunidade pude sentir a vibração de uma mulher forte, batalhadora, vencedora, que erguera um troféu de amor e solidariedade com sua vida e dedicação.

Foram dez dias de muita alegria e amor. E, quando nos despedimos, deixamos em aberto à possibilidade de novos encontros e novas alegrias. A partir daquele dia minha Dolores passaria a ser chamada de Graça. Continuaria Maria, mas agora Das Graças!
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 12/04/2006
Código do texto: T137890
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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Alex Guima