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Dom Caramujo - parte 09 de 10

---- gostaria de ir até a aldeia! – disse tentando esconder o temor na voz.
Enquanto um conversava comigo o outro bugre foi andando e fazendo um círculo a minha volta.
---- Que vai fazer na aldeia?- quis saber o que me interrogava.
Eu olhava para trás para me certificar da atitude do outro índio.
---- Se fosse possível gostaria de conhecer a vida de vocês. Sou escritor! – resolvi mentir, mostrando o caderno que levava.
O índio pegou o caderno e folheou. Fiquei com medo que soubesse ler e descobrisse que era apenas um diário pessoal meu. Sim, pois a Funai estava presente na região e eu sabia, já tinha visto na cidade, vários indiozinhos indo á escola.
Para a minha sorte ele não sabia ler, eu acho, pois me devolveu o caderno.
---- Venha com eu! – disse ele fazendo sinal para o seguir.
Caminhei com ele em silêncio até chegar a uma pequena clareira próxima a um riacho.
Durante a caminhada várias crianças da tribo vieram até nós. Algumas me tocavam e puxavam minha mochila como se quisessem que a desse. Mas depois do índio ralhar com eles e eu esbravejar nos deixaram em paz.
Bom, o amigo deve estar pensando “Então quer dizer que era só falar que era escritor que lhe abriam passagem?”
A verdade é que as coisas não estavam nada bem na região. Havia muita agitação por causa de uma suspeita de estupro e assassinato na cidade. Contavam que fora um índio. No entanto sem provas concretas a polícia não podia fazer nada. Com isso todos os moradores da cidade começaram a olhar para os bugres com outros olhos.
Eu soube disso e resolvera conversar com os aborígenes para saber o seu lado da história. Podia dar um bom tema para um livro. Só tomei coragem de fazer isso depois que um índio na cidade me abordara quando escrevia algo sob a sombra de uma mangueira e me perguntara se era escritor. No princípio titubeei, mas depois com um pouco do ego aquecido disse que sim e perguntei o motivo da pergunta. O velho índio me disse que a tribo precisava que alguém escrevesse a verdade sobre os fatos. Nesse momento entrei na linha final da minha história.
Conversei certa manhã com a dona da Pensão onde eu alugara um quarto. Ela me disse como fazer para chegar até a aldeia. Mas me aconselhou para tomar muito cuidado. Os índios estavam irados com os homens brancos. Antes de eu sair, como um urubu farejando carniça pediu se podia jogar fora os cadernos que eu escrevera sobre minhas memórias. Claro que eu disse não.
Mas voltando á aldeia, pois é, logo na entrada, junto ao chão batido e cheio de cães pestilentos vi a figura do velho índio que me encontrara na cidade.
Levantou-se de um pulo e veio até mim.
---- Obrigado! Graças a Tupã temos alguém por nóis!
Os outros índios logo nos cercaram e eu era o centro das atenções.
De uma tenda, ou barraca, como quiserem, saiu um homem que devia ser centenário. Vestia uma pequena túnica feita de penas e caminhava com dificuldades. À sua mão esquerda uma vara  o mantinha ereto. Seus cabelos eram esbranquiçados e compridos caindo por sobre seus ombros curvados. Sua pele era escura como um chocolate. Sua boca tinha poucos dentes, mas seus olhos.... seus olhos pareciam brasas.
----- Branco!- gritou - Vem com pajé!
Passei três dias com os Xavantes e então soube da verdadeira história.
O assassino e estrupador era o filho de um fazendeiro poderoso na região. Os índios sabiam pois na fazenda desse fazendeiro havia uma índia que ouvira o velho, pai do rapaz,  falando com os peões. Este dera instruções de que deviam espalhar na cidade a idéia de que a culpa era de um índio. Para isso escolheram um dentre eles que devia servir de testemunha ocular, deixando no entanto a idéia de que era impossível a identificação de um indivíduo, pois o ato ocorrera durante a noite. E essa testemunha devia dizer que estava uns cem metros distante do assassino e só o vira pelas costas, identificando uma penas e notando que o indivíduo estava descalço e sem roupa.
Sem nenhum apoio fui até o delegado e contei o que haviam me contado. O Delegado achou graça e disse que os índios eram muito espertos; que estavam esperando me enganar para que eu enganasse aos outros. Insisti no que falava e ele me admoestou dizendo que era muita coisa eu ficar dizendo aquilo. Afinal eu chegara na cidade havia menos de duas semanas e ninguém sabia nada sobre mim. Lhe disse que assim que chegara na cidade fora lhe procurar justamente para que pegasse meus antecedentes e pudesse descansadamente desfrutar do lugar.
Me dispensou e mandou-me para casa. Disse que iria chamar a testemunha novamente para novo depoimento. Mas que precisaria de minha presença.
Satisfeito por finalmente fazer parte de algo importante, voltava para casa. O caminho da delegacia até a pensão devia ter uns seiscentos metros mais ou menos. O ruim é que haviam poucos postes de luz no caminho. Em certo momento um estremecimento se apoderou de mim. Voltei a tempo de ver duas silhuetas me seguindo a certa distância. Não eram silhuetas indígenas. Algo dentro de mim despertou o interesse da sobrevivência.

Capítulo Dez

Apressei o passo e cheguei mesmo a iniciar uma corrida pela estrada de terra seca e solitária, quando um carro apareceu em minha frente freando fortemente e levantando poeira.
----- Calminha aí camarada! – disse um homem com cara de poucos amigos e me apontando um rifle, de cima de um jipe.
Em seguida os dois rapazes, jagunços para ser mais exato, chegaram aonde estávamos.
----- Entra aí cabra! – me disse um homem encorpado e com um revólver na cinta aparecendo sob a abertura da camisa.
Era o fim! Eu sabia que agora só um milagre me salvaria. Nos poucos dias que estivera na cidade soube como o pessoal resolvia seus problemas por ali.
----- Então é amigos dos bugres né?! Vamos dá um jeito nisso.  Pisa aí! – disseram para o motorista do jipe me jogando dentro do veiculo.
Saíram cantando pneus na escura noite de Nova Xavantina.
Enquanto isso dentro do carro me chutavam de todas as formas. Eram pés e botas vindo de todos os lados, de cima, de baixo. Coronhadas a tordo e direito. Um pontapé atingiu meus testículos. Uivei de dor. Tentava me proteger formando uma bola com o corpo mas isso era impossível. Uma coronhada na cabeça e senti o sangue escorrer. Comecei a ficar tonto.
----- Ninguém aqui mexe com o coronel seu porra! Tá pensando o quê? Que pode chegar e ir fuçando por aí? Aqui tem gente decente seu safado – e ato pronto mais chutes e mais coronhadas.
Não sei quanto tempo andaram com o carro me batendo e chutando. Por duas ou três vezes, desmaiei para apanhar mais e novamente desmaiar.
Meu corpo era uma massa disforme de sangue e ossos quebrados quando me jogaram na areia em um local ermo e distante.
Pararam o carro e voltaram a me golpear.
Então em dado momento resolveram fazer algo pior.
Um deles voltou ao Jipe e pegou um pedaço de ferro.
Enquanto um deles me pegou pelas pernas o outro pegou-me pelos braços e viraram-me de bruços.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 14/04/2006
Código do texto: T138859

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes