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A Borboleta Negra e a Luz do Poste (Revisado)


                Iria assistir filme hoje, mas não deu. Não fui nadar, pois também não deu. Fui para a piscina de casa. Nadei até cansar! Estava com raiva de não ter ido ver o filme! Estava com raiva de não ter ido nadar! Mas estava em casa. A natação profissional é bem mais interessante que a doméstica! Bem, pensava na beleza enquanto a raiva estava passando, no quanto necessitamos dela para nos apresentar nesta sociedade de aparências. Pensava. Também pensava nas paixões que estava possuindo, o passado se fez por muita injustiça, mas estivera feliz. Pensava. Tive lido que a tristeza era muito importante, pois só assim teríamos maior noção da maior felicidade; e também no quanto as pessoas viraram “voyers”, o voyeurismo crescia exacerbadamente em nossa sociedade pós-moderna capitalista. Entre pensamentos filosóficos, pensamentos bobos, pensamentos inúteis, uma cena me chamou atenção. Estava sem óculos (não tomaria banho de piscina com os óculos), e vi algo se mexendo, era algo preto. Mexia-se descontroladamente batendo na parede branca. Era um antagonismo gritante, mesmo eu sem os meus óculos pretos, notara a cena; sobreposição de cores chamava muita atenção. Olhei para aquele bicho estranho. Percebi que seria uma espécie de borboleta/mariposa. Afastei-me um pouco mais. Olhei mais para aquela cena bizarra: uma borboleta negra se batendo numa parede branca. Aquele bicho estava incomodado com alguma coisa! Não parava de bater suas assas! Batia descompassadamente! Tive vontade de atrapalhar aquela cena bizarra. Sou humano destruidor de cenas incomodas! Joguei um pouco de água na parede para bater naquele bicho. Ele saiu do lugar que eu tinha jogado água. Joguei novamente com a intenção de atingi-lo! Deve ter pegado um pouco de água naquela borboleta, mas ela não se incomodava com a água. Algo muito mais perturbador fazia-a mexer daquela maneira. Joguei novamente. Ela foi para o chão. A parede já estava toda molhada! E não tive feito nada! Não fiz com que a borboleta parasse com o seu ato perturbador de minha visão e desperdicei água! A borboleta mexia-se no chão. Deixei um pouco essa minha possessão de querer atrapalha-la. Dei um mergulho. Chuá... Quando voltei a ver a cena ela estava com as assas abertas, no chão. Não estava deitada, estava de pé! Depois voltou a se bater. A luz do poste apagou-se. “Que foi isso?” – perguntei-me. Apenas vi a borboleta parando de se bater, começando a voar. Voou em cima de mim, passou por mim e subiu para o telhado da minha casa. Pensei: “Ela estava incomodada com a luz e a fez apagar? Essa borboleta tem o poder de apagar luzes?”. Engano meu, ela tinha muito mais poder que isso... Depois de alguns minutos passa novamente aquele ser negro na minha frente. Sem luz e sem nada para ficar se batendo. Foi-se. Na piscina tinha duas partes: uma ficava mais iluminada pelo poste que ficava de frente para mim (que estava agora apagado) e a luz que a minha casa emitia. Estava entre as duas iluminações, a pouquíssima iluminação e a com pouca iluminação. Esta cena me lembrou as vezes que tinha medo de me adentrar a escuridão, o quanto eu tinha medo de estar no escuro, e agora estava eu na piscina, um poste apagado e uma borboleta louca que teve usado algo para apagar aquilo! “Que é isso?” – pensava eu mais uma vez. Queria conhecer um pouco mais da escuridão, e mais, no fundo da piscina estaria mais escuro ainda. Fui flutuando para o lugar mais escuro, e, conseqüentemente, era o local mais profundo da piscina. Estava indo como se estivesse em procissão macabra. Sugava um pouco de água e soltava. Sugava água e soltava pela boca. Passo a passo dessa missão inesperada para mim. Tinha medo, nunca tive ido com vontade de conhecer a escuridão! Era aquela falta da luz que me chamava: Conhece-me! Continuei indo, pensava em absolutamente nada! Só queria que quando chegasse no lugar mais escuro eu iria mergulhar a minha cabeça até a parte mais funda! Conheceria, assim, um pouco da escuridão... Quando estava chegando na porção mais escura da piscina, quando iria conhecer a escuridão, num passe de mágica (tudo era surpreendente), a luz acende-se. Fiquei frustrado. Mas, mesmo assim, conheci o fundo na piscina. Não de forma escura!  Conheci o fundo da piscina de sua melhor forma, como ele era realmente. Fiquei pouco tempo debaixo d’água. A minha respiração não funcionara tão bem naquela hora. Conheci...
                Mais que saber fazer mágicas, que apagar postes, que ascender luzes de postes, aquela borboleta tivera as letras em seu favor. Tivera tudo. O conhecimento de si, borboletas voadores, a si mesmo. A luz atrapalhou bastante a borboleta letra negra de se conhecer. Fez-se do imaginário, mas pra mim, letras, tive que aceitar a luz! Era pr’eu ter conhecido a escuridão melhor! É melhor ser escuridão! Letras brancas, pessoas reais, verdades... O ser humano no dangerosíssimo conhecimento... As verdades voam! Borboletas negras! E eu na piscina tomando mais um banho de água para me aliviar do calor da luz... Melhor que queimar seus ossos carregando coisas que nem são suas, são deixa-los em paz! Borboletas negras... verdades... E as lágrimas caem dos olhos infantis, enchendo as águas de março, de setembro e de outubro. O ato de nadar continua sendo o mais esperado, assistindo coisas que nem são nossas, na verdade.
iuRy
Enviado por iuRy em 23/04/2006
Reeditado em 21/05/2006
Código do texto: T144209
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Sobre o autor
iuRy
Olinda - Pernambuco - Brasil, 28 anos
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