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A RAVE DO GIRASSOL

O som da música eletrônica estava bombando. Num frenético ritmo bate-estaca, todos se lançavam alucinadamente em busca de emoção e prazer. Milhares de jovens se acotovelavam na pista, enquanto a rave prosseguia animada. A fama da Rave do Girassol alcançara tanta repercussão que até a revista “Mixmag”, a bíblia da música eletrônica inglesa, viera fazer uma reportagem.

Quando entrei na festa já passava da meia noite e a madrugada e manhã seguintes prometiam muita animação. Não estava acostumado com o estilo da festa. Meu reduto era mais um bailezinho ou balada, tudo muito suave, ao som de música romântica e coisas do gênero. Mas, por insistência de um amigo, resolvi enfrentar a noite e conhecer a Rave do Girassol.

De cara, um susto enorme. Percebi a turma muito doidona. E, quando me ofereceram o ecstasy assim que cheguei, percebi logo que a barra seria pesada. Tentei entender aquele mundo. Realmente, para manter-se acesso o tempo todo, ligadão, era preciso um estimulante. O comércio de droga sintética corria solto. Manter-se acordado naquele ambiente de som louco não era muito difícil, mas, manter o interesse naquilo tudo, para muitos, dependia de uma força estimulante.

Foi tentando entender onde estava e o que fazia ali que percebi a presença de Vânia, linda morena que dançava desenvolta na pista à minha frente. Pelo que percebia da garota, ela estava alta, plenamente estimulada sexualmente. Estava constantemente tomando água numa garrafa enorme e ingeria bebidas isotônicas para reposição rápida de carboidratos, o que denunciava os efeitos colaterais do uso da droga, que provoca a perda intensa de líquidos, levando à desidratação.

Estava estupefato com tudo que via, pois, para mim, aquele mundo era muito novo. Puxei meu amigo para o lado e perguntei:

- Mas como essa gente toda apareceu aqui? Não vi cartaz, divulgação, nenhum tipo de promoção acerca da festa!

- Você está por fora mesmo! As raves não são promovidas pelo sistema tradicional, não, meu amigo. Elas se propagam através de telefone, e-mails, filipetas distribuídas em pontos estratégicos como estações de metrô e pontos de ônibus e, principalmente, no velho sistema boca a boca. Quem já participou se encarrega de divulgar a próxima e trazer novos adeptos. A coisa funciona. Tanto é que você está aqui, véio...

Ele tinha razão. O esquema rant and rave funcionava mesmo. Para fugir da fiscalização da polícia, nada como promover festas em galpões abandonados ou grandes áreas ao ar livre. A Rave do Girassol era assim. Tão logo o sol se punha, a turma começava a montar o esquema e, através da Internet, e-mails, orkut e outros esquemas que envolviam desde salas de bate papo até sites de relacionamento, a galera tomava conhecimento rapidinho do que estava por acontecer.

Foi assim que cheguei ali, por intermédio de meu amigo Felipe e, pelo jeito, fora assim que Vânia chegara à festa também, pois estava solta, desinibida, deixando que os efeitos do ecstasy a levassem a uma loucura psicodélica sem tamanho. Este efeito socializante da droga tornava a moça muito liberada, espontânea, sensual, como se reagisse como animal no cio.

Ver as pernas grossas de Vânia que se descortinavam aloucadamente toda vez que sua saia de tecido flutuante esvoaçava ao som da dança frenética, era algo incrivelmente sensual. Estava ficando excitado só de contemplar a moça daquele jeito tresloucado. Não fizera nem faria uso da droga, mas a minha libido em perfeitas condições de uso, me estimulava o apetite sexual pela jovem.

O tempo voava. Já passavam das duas horas da manhã, quando Vânia vem dar rebolativa onde eu estava. A dança louca a fazia rodopiar pela pista, dando incertas por todos os lados. Naquele momento, meu lado tinha sido beneficiado. Não resisti. Tomei-a nos braços e beijei-a intensamente. Ela correspondeu aos meus beijos, pois, não fora casualmente que viera dar nos meus costados.

Foi um beijo animal, pura sexualidade à flor da pele, explosão de desejo sem pudores, mesmo que tendo por assistência uma rave inteira com mais de duas mil pessoas emboladas naquele galpão envelhecido. Vânia quis ir mais fundo na insana busca de satisfação sexual. Eu ainda estava lúcido, embora tivesse consumido umas duas cervejas. Não faria sexo com ela ali, embora percebesse que a desinibição no ambiente fosse total.

O fato de recusar suas investidas sobre mim, esfriou-a ou irritou-a, de modo que ela não se fez de rogada e descartou-me, indo direto a caça, no meio do salão. Excitado, não poderia ser para menos, vi quando ela se embolou com um rapaz e fizeram sexo ali mesmo, sob a penumbra cúmplice de outros corpos que também alcançavam o prazer. Quase gozei solitário com aquela visão, depois da intensa excitação que ela provocara em meu corpo.

Depois daquela cena, os enfoques foram repetitivos. A madrugada passou e ela deve ter sido usada e ter usado pelo menos uns dez caras de diferentes idades, jeitos, formatos e raças. Não havia, na democrática Rave do Girassol, qualquer tipo de discriminação. Todo mundo era de todo mundo!

Confesso que senti um pouco de nojo diante de toda aquela situação. Acho que estava no lugar errado, ou, então, não entrara no clima certo para poder efetivamente desfrutar do ambiente. Quando deu cinco da manhã, já zonzo com tudo que experimentara e equilibrando-me num andar trôpego e cambaleante, escarafunchei-me sorrateiramente porta afora, ganhando a liberdade do ar-livre que a Zona Norte da cidade me apresentava.

Para minha alegria, uma fileira de táxis postava-se na larga avenida defronte ao velho galpão da extinta Companhia de Papéis Estrela e eu pude tomar uma condução ligeira para casa, deixando com o meu amigo Felipe a responsabilidade de concluir a festa.

Duas semanas depois ainda refletia sobre este mundo louco das raves. Alguém até poderia me chamar de ET, mas este mundo não era para mim. Felipe me informara que saiu da festa depois do meio-dia e que até o fim rolou muita azaração. O fato é que li nos jornais do dia seguinte a notícia da morte de Vânia. Alucinada por tanto apetite sexual e já extenuada de tanto envolver-se libidinosamente com os rapazes e moças, resolveu tomar algo mais forte e a mistura de esctasy, álcool e maconha provocou uma parada cardíaca sem retorno. Conclui que realmente este não era o meu mundo e que a beleza e a juventude estão por um comprimido...
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 03/05/2006
Código do texto: T149454
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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