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MISTÉRIOS DA LAN

Foi tudo muito rápido, mas o tapa no rosto da menina me fez saltar da cadeira, como se eu próprio tivesse sido estapeado. Em seguida, o ambiente escureceu um pouco, caindo numa penumbra de entardecer, como se o sol tivesse se escondido por trás de uma nuvem. Eram as portas de aço da loja que estavam sendo arriadas para acobertar o crime.

Como disse, tudo acontecera num repente. Estava com Taty no messenger. Ela era uma linda morena, que me conquistou desde que a vira. Comecei meu jogo de sedução e ela foi se soltando, apesar de estar em companhia de alguns amigos na lan. Até admitira um possível encontro, mas, em meio aos meus galanteios, observava insistentemente que seu tempo acabaria. Disse-lhe que seu rosto era lindo, mas que queria ver todo o corpinho, para observar o conjunto da obra. Ela riu e não disse nem que sim nem que não. De repente, levanta-se, pega a mochila e se retira com os colegas.

Deixar a câmara aberta e o messenger ligado foi o recurso que ela usou para eu observá-la do jeito que queria, sem dar na pinta para os colegas que estava desfilando para mim. E, realmente quando se levantou, deixou à mostra um lindo e sensual corpo que acabou de me seduzir. Mas, a cena foi rápida. Ela saiu com a turma e, em seguida, observei um movimento intenso em direção à porta. Pelas horas que eram, deduzi que a lan fechava para o almoço e todos estavam se retirando com esta finalidade. O que não esperava, foi o ocorrido em seguida. Com a pressa de um foguete, um rapaz deu uma gravata numa garota que entrava, empurrou-a contra a parede, jogou sua mochila ao chão e largando a vítima por um momento, abaixou a porta de aço da loja e deu início a prática do crime.

A menina que estava sendo constrangida naquele momento a um relacionamento sexual forçado devia ter seus dezessete anos. Era uma garota normal, um tipinho moreno brasileiro de subúrbio, cabelos trançados, corpo magrinho, vestindo uma camisa de malha preta com alguma estampa de banda de rock e uma saia jeans que lhe deixava à mostra um belo par de pernas magrelas. O rosto era magro, nariz afilado, sobrancelhas aparadas e jeitinho maroto de menina escolar.

O rapaz não a deixou esboçar reação. Acabara de trancar a porta e num golpe dera uma tapa no rosto dela para intimidar e, jogando sua mochila ao chão, levantou sua saia que erguida na altura da barriga, deixava a mostra uma bundinha magra, que quase não se escondia dentro de uma minúscula calcinha rosa.

Assistia aquilo tudo pela câmera e me sentia um invasor, observando a intimidade alheia sem ter sido convidado. Mais que isto, fui tomado de uma indignação à toda prova, já que o sexo que estava sendo praticado não era espontâneo, livre, desejado, mas era uma forçação de barra para cima de uma menina indefesa.

O rapaz, moreno, de seus 23 anos, era do tipo freqüentador de academia, os famosos Pittboys, que atormentavam a vida de pessoas inocentes. Não sei se era o dono da lan, ou algum intruso que conhecia os costumes da loja e sabia que estava na hora do almoço e ninguém se encontraria por lá. A menina deveria ser uma desavisada qualquer que, chegando naquele horário, teve o azar de ser premiada com a situação.

Tudo foi muito rápido e intenso e me despertou o quanto de possibilidade existe com o uso da tecnologia moderna. O rapaz desceu sua calça, puxou num movimento brusco apenas a calcinha rosa da menina, transformando-a em um pequeno pedaço de lycra rasgado e introduzindo seu membro na mocinha, roubou-lhe a virgindade, fazendo de seu corpo um depósito de esperma e de sua alma um barril de pólvora da angústia, pronto a explodir a qualquer momento.

Feito o serviço, o rapaz tirou da bolsa um boné, colocou-o sobre a cabeça, entrou para o interior da loja, fugindo do meu raio de visão – deve ter ido em busca de algum dinheiro no caixa – e zarpou célere deixando para trás uma menina arrasada, toda lambuzada, que se deixou escorregar pela parede vindo a sentar-se ao chão de forma desalentada.

Os cabelos desalinhados; o rosto vermelho de tanto chorar; as marcas roxas das agressões sofridas, espalhadas pelo corpo; as forças exauridas; a fraqueza física e moral de ter que enfrentar a dura realidade dali por diante. O tempo passou. O crime não levara mais que oito minutos. A desolação da menina não mais que dez. E eu ali, angustiado, sem ter o que fazer, tentando adivinhar onde ficava aquela lan, provavelmente em algum lugar desses brasis de Deus, num desses subúrbios da vida, onde as coisas funcionavam mais ou menos à bangu.

Vi tudo. Assisti a tudo indignado. Revoltei-me com a desumanidade. Torturei-me com a minha incapacidade de fazer alguma coisa, naquele momento cruel de que fora testemunha ocular. Descabelei-me com a minha impotência diante de um crime hediondo. Perguntei-me inquieto, onde estão os valores humanos. A que ponto chegava o ser humano na sua busca insana de prazer, na sua sandice desmiolada de alcançar a satisfação pessoal a qualquer custo.

Concluí que o hedonismo levados às últimas conseqüências tem sido a derrocada da nossa civilização. Um brilho de esperança raiou em meu coração quando a menina levantou-se, após uns dez minutos de torpor e desolação, abaixou a saia até seu lugar, recompôs-se, tomou da calcinha em frangalhos que estava num canto, colocou-a no bolso externo da mochila e, respirando fundo para criar uma coragem que não tinha, levantou, sabe-se lá com que forças um pouco da porta de aço e desapareceu da minha vista.

Ainda permaneci por dez minutos observando a câmera aberta, a parede nua que ela mostrava - parede velha e mofada -, o pequeno banquinho de plástico a um canto da parede e o filete de sangue que ficou no chão após o crime. Também dava para perceber, em tons róseos, as marcas dos dedos do criminoso que se arrastaram na parede branca, deixando as impressões do sangue manuseado a contragosto no sexo da moça.

Enquanto observava aquele quadro insólito e bestial, entabulava sobre o que fazer e conclui que não havia muito que fazer. O destino da moça estava selado. Agora era com ela e a sua capacidade de reação e de superação do ocorrido. Talvez precisasse de ajuda psicológica. Ligar para a polícia só me traria transtornos, até porque nenhuma imagem fôra gravada, e tudo estava apenas retido na retina e na memória minhas, que agora se encontrava destroçada e em frangalhos, tentando recompor-se ante o ocorrido.

Não me restava muita coisa mesmo a fazer, mas a que poderia fazer, fiz: rezei pela moça!
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 03/05/2006
Reeditado em 05/05/2006
Código do texto: T149592
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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