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BELEZA INACESSÍVEL

Tinha meus treze para catorze anos. Era um adolescente ativo, comunicativo, sempre enturmado, falando de futebol e de garotas como qualquer adolescente o faria. Mas havia uma questão atípica em mim; pelo menos era o que eu imaginava naquela altura de minha idade: com os meninos extroversão total; com as meninas certo ar de timidez, desconfiança, um não-saber agir com firmeza. Principalmente diante de mulher bonita. E loira.

Flávia reunia meus dois incômodos; era bonita e loira. Não sei o que havia comigo. Toda vez que uma garota bonita e loira me olhava, me interpelava com perguntas da escola ou se aproximava do grupo em que estava papeando, perdia o controle da situação. Ficava introvertido repentinamente e toda a minha sagacidade ia por terra, paralisando-me ante a beleza pétrea das meninas lindas e loiras. E os colegas começaram a observar isso.

Flávia era assim. Provocava-me emoções que eu não conseguia controlar. Quando olhava aquele rostinho lindo se aproximando, já se dava todo um processo interior em mim que quase me levava ao desespero. Simplesmente não sabia como agir. Perdia a noção do tempo. Dessocializava-me. Gaguejava. Tremia. Minhas mãos suavam como se estivesse jogando uma pelada.

Tentando entender esta revolução em meu interior, certa vez puxei da memória as imagens de anjinhos das histórias infantis e religiosas e a conclusão a que chegara era que toda mulher linda e loira não era gente, mas, simplesmente, anjo que havia se transferido para a Terra para poder alegrar os dias dos humanos. Nesta condição, eram, portanto, intocáveis.

E isto, agregava ainda mais um sentimento negativo em mim. Volta e meia pegava-me com um tremendo sentimento de culpa só porque sonhara em estar beijando Flávia. Como podia, eu, um reles humano, querer beijar um anjinho daqueles? Flavia tinha uns lábios bem torneados, muito sensuais, e quando seu rosto se abria num sorriso espontâneo, era como sol de meio-dia a clarear a vida. Não havia coisa mais bela na face da Terra que o sorriso de Flávia.

Para completar o quadro idílico de sua beleza, Flávia ainda trazia no rosto um lindo par de olhos azuis, verdadeiras expressões da beleza do firmamento de onde supunha aquele anjinho tinha saído e trouxera uma marca dos céus nos seus olhos para identificar sua origem. Quando, com muito custo, conseguia encarar aqueles olhos, depois de uma busca tímida por um momento em que ela estivesse distraída, olhando para o lado, quase sempre acontecia um desastre. Olhar firmemente aqueles olhos azuis era como ser ejetado de uma cadeira espacial para entrar em órbita celeste no corpo de Flávia. E a viagem era tão real e intensa, que quase sempre tropeçava e caía perto dos amigos, que, pela reincidência, já começavam a achar que eu era esquizofrênico ou epiléptico, sempre me ajudando a recompor-me após tais quedas de amor.

A menina era realmente muito bela. Ela devia ter seus treze anos e já portava um corpo de mulher feita, com tudo no seu devido lugar. Interessante que ela não era uma menina mimada, cheia de “não-me-toques” ou coisas do gênero. Ao contrário, embora fosse de família rica e tivesse essa beleza estonteante, era uma garota acessível, bem relacionada e de ótima convivência.

O dia em que a turma da escola foi fazer um passeio no Parque das Águas Claras foi um dia especial para mim, como observador arguto e anônimo da beleza de Flávia. Neste dia ela vestiu-se de um lindo biquíni azul celeste e desfilou com desenvoltura e graça pelos diversos brinquedos do Parque. Vê-la caminhando como garça ou mergulhando como sereia, trazendo no corpo os salpicos orvalhares das gotas de água que teimavam em grudar em sua pele suave como a seda mais rica, me enchia de um bem-estar reconfortante que as nuvens benfazejas de meus sonhos de amor faziam-me viajar como se foram tapetes mágicos de um passeio divino nos céus de minha paixão escondida.

Aquele foi um dia memorável, pois Flávia apresentou-se feminina, mulher, bela e elegante, nos trajes de banho, ou mesmo com a vestimenta sensual e confortável que colocou para a viagem de volta. A grande crise, porém, estava em meu interior. Não tinha coragem para me insinuar diante dela, para tentar sequer conquistar-lhe um pouco mais de atenção e obter o favor de seu sorriso ou de um toque suave de mãos. Ela, até que se comportava direitinho neste quesito, pois seu jeito espontâneo de ser, a aproximava das pessoas, dos colegas, sempre com risos e brincadeiras sadias, dos quais eu também era alvo e isso me tornava partícipe, ao menos, de um quinhão de sua venturosa graciosidade.

Os dias se passaram. E os meses. Até que o ano chegou a seu termo. E eu sempre a contemplar aquela que considerava ser a mulher mais bela da face da Terra. Com a chegada do fim de ano, o encerramento das aulas. Estudávamos na mesma escola, mesma turma, e receberíamos o Diploma de conclusão do Ensino Fundamental. Haveria uma festa. Uma Comissão de Formatura fora montada, e tudo estava preparado para ser um grande dia em nossas vidas.

O Ginásio de Esportes da Escola fora decorado com esmero. Bolas multicores davam o ar de beleza e festividade ao evento. O som alto do equipamento, os microfones ligados, a presença dos pais dos alunos e outros convidados, o burburinho do ir e vir naquele ambiente festivo dava o tom da noite, indicando que tudo seria maravilhoso. Os formandos estavam inquietos, em seus trajes de gala, aguardando o momento propício para entrarem e assentarem-se no lugar demarcado para eles. E eu, ali no meio, aguardando com ansiedade este momento.

Muita música, discursos, certificados, beijos e abraços, comporiam a noite. Até um gostoso bolo fora preparado para a ocasião. O acesso ao palco do Ginásio era feito por duas portas laterais provenientes de amplos corredores que também davam acesso aos vestiários masculino e feminino. Ficou combinado que os rapazes entrariam de um lado e as meninas de outro. Ao som majestoso do hino da escola entramos todos. Os mestres de cerimônia orientavam a formação dos alunos, de modo que simultaneamente adentravam o recinto um aluno e uma aluna.

Foi um espetáculo! As luzes fortes dos refletores sobre nós, os olhares ansiosos de nossos pais e mestres. A alegria do momento. Tudo era belo. Tudo era lindo. Mas, havia uma beleza muito mais fulgurante que roubaria a cena, desmontaria o espetáculo. No meu canto, já instalado na primeira fila dos formandos, vi o momento quando Flávia apareceu, subindo ao palco como uma estrela brilhante que sobe aos céus da fama. Flávia bela. Ali estava ela, mais bela do que nunca. Flávia elegante, charmosa. Ali estava ela: mimosa como uma flor; linda como o próprio amor.

Flávia era uma menina alta. Destacava-se das demais meninas pelo seu porte altaneiro, andar elegante e jeito simpático de ser. Já naquela idade, deveria ter quase 1m80 de altura, e isto ajudava em muito a não disfarçar sua beleza. Ela era sempre vista, apreciada, e os cochichos do momento podiam ser percebidos no ambiente, onde todos se perguntavam: “Que menina é aquela? Parece modelo!”

Os aplausos foram constantes à sua entrada. Todos ovacionavam a bela Flávia que pisava no palco iluminado sob a bênção dos céus. Quando pude me sintonizar ao momento, em vista do que estava ocorrendo, meu coração disparou e eu perdi mais uma vez - e dessa vez de forma radical -, o controle de minhas emoções.

Visualizei Flávia entrando com graça e leveza. Ela trajava um luxuoso vestido longo preto, com detalhes em renda importada e apliques de pequenas pedras semi-preciosas, que brilhavam na incidência da luz dos refletores. O sorriso que emoldurava seu rosto era a maior jóia que uma mulher poderia apresentar ao mundo sem brigar com os pudores, porque, diga-se de passagem, os seios dela eram lindos e suaves como duas pêras maduras prontas para serem saboreadas.

Estava atônito diante do mágico momento que a beleza sem igual de Flávia me fazia ter. Mas o que me tirou do sério e me fez desabar foi à contemplação dos lindos cachinhos dourados que ela preparara para adornar sua cabeça naquela festa. A visão de Flávia linda, Flávia bela, Flávia vestida de negro como a noite, salpicada de estrelas luzentes no vestido e na face brilhante de luz, cuja face esboçava um sorriso iluminado e cujos olhos faiscavam de alegria, tudo isso, tendo uma cascata de cachinhos dourados pendendo de sua cabeça foi demais para mim. Lembrei-me dos anjinhos transcendentais de minha infância. Desmaiei.
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 04/05/2006
Código do texto: T150306
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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