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CHEIRO DE MÃE

Naquela semana já havia apanhado duas vezes. Será que era pecado ter raiva da própria mãe?
Estava chorando e se olhando no espelho. Arranhara o rosto de ódio por não poder fazer nada. Passou a mão pelas coxas, que continham marcas grossas da cinta. Os vergões estavam avermelhados. Seu peito arfava por conta dos soluços.
Ela e seu primo viviam se estapeando por qualquer coisa e sua mãe havia prometido que se a visse novamente brincando com o primo, a surra seria dobrada.
“Aquele menino me paga”. Pensava.
Já não agüentava suas brincadeiras de mau gosto. Fazia dela gato e sapato e a ira da sua mãe era justamente por achar que ela não tinha vergonha na cara... Ele era um ano mais velho que ela. Aprontava demais e colocava a culpa nela por todas as travessuras.
Sua mãe a colocara de castigo por uma semana. Como se já não fosse um ter ido morar naquele fim-de-mundo. 
Ali, fazia muito calor. À noite, baratas voadoras faziam mira nela, parecia que adivinhavam que ela morria de medo. Tinha pavor de levantar na madrugada e dar de cara com uma no banheiro.
Nos últimos dias sua vida tinha virado um inferno. Era um fardo muito grande para uma menina de apenas 11 anos. Para ajudar, tinha pego piolho de novo.  Não ia contar nada para a sua mãe, senão, ela ia cumprir a ameaça: - cortaria o seu cabelo “Joãozinho”.

As lágrimas secaram no rosto empoeirado e os soluços foram rareando. Esquecera a raiva ao davanear.
Mas não ia falar com a mãe enquanto ela não lhe pedisse desculpas!

A mãe não pediu...

Durante o banho, ficou esperado a mãe aparecer na porta e perguntar se tinha "lavado tudo direitinho". No jantar ficou procurando o olhar da mãe; nada. Já na hora de dormir, esperou pelo beijo que não veio. É, a coisa tinha sido feia.
Deitou em silêncio e esperou. De tanto esperar, dormiu...

Acordou com o cheirinho do café. Hum! Tinha também bolinho de chuva passado na canela e açúcar.
Levantou de mansinho e viu a mãe sentada perto da porta, o semblante triste e o pensamento longe... Deu vontade de fazer um carinho nela.
Ao movimentar-se, um ossinho seu estala fazendo com que a mãe se vire e com os olhos cheios de amor, pergunta num sorriso: - acordou minha princesa?
Correu para os seus braços e esqueceu da surra, da raiva e das promessas ao sentir todo o afeto contido no cheirinho da mãe.



 
CRISTIANE DONIZETE
Enviado por CRISTIANE DONIZETE em 10/05/2006
Reeditado em 04/03/2015
Código do texto: T153425
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
CRISTIANE DONIZETE
São Paulo - São Paulo - Brasil
25 textos (2985 leituras)
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CRISTIANE DONIZETE