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Repetitório

Tudo está bem. Olho pela janela o movimento dos carros lá em baixo. Minha amada está dormindo depois de uma noite de suor e desejo. Ainda sinto em minha boca o seu gosto. No chão, a bagunça do quarto contrasta com o que penso dos sentimentos em meu coração: Estou certo, estou seguro, estou feliz.

Vou-me embora e deixo um bilhete de amor, junto meu sonho. Entro na dura realidade de um mundo pequeno que me sufoca. Meus vícios me corroem aos poucos e também aos poucos vou ficando menor, preso, sugado, nulo.

Tudo é questão de valores, mas também de atitude. A paixão quando pouco regada nos cega por conta de pseudo-adrenalinas e outras substâncias menos aprazíveis. Tudo fica abstrato e o simples se torna complicado. Palavras duras saem da boca como se fossem sais, e salgadas querendo ser doces. Não as são.

Quando você acorda – porque um dia você acorda – percebe seus erros e nem sempre é possível voltar atrás. A alma feminina tem mistérios escondidos que desafiam a sensibilidade do mais puro dos homens. O macho se fere por conta da sua quase auto-suficiência.

Tudo está bem. Volto pra casa. Minha amada na cozinha preparando algo para comermos. Aproveito e lavo a louça, mas dou um beijo antes em sua boca. Fico excitado por um momento e um “eu te amo” me sai junto com a minha monótona respiração. Silêncio. Comida pronta.

Conto meu dia, meus problemas (como são grandes esses meus problemas!) e irradio segurança sem conforto. Mão na mão, sofá, TV. Silêncio. Boa noite no jornal. Cito Drummond: Repetitório.

O cachorro latiu. O gato roubou o resto da comida e lá fora um som de sirene ecoa pela rua oposta à nossa prisão. Ela me beija suave, mente que “sou tua”. Um último adeus. Amanhã o tempo muda. Mudou. Sono. Tristeza. Solidão. Suor. Acabou.

Outro dia. Olho pela janela o movimento dos carros, mas nem sei se são os mesmos de ontem. Minha amada se foi. Olho sua foto olhando para a câmera com um semblante triste. Estava ainda deitada a pouco, e vestia apenas pelo lençol naquele dia ensolarado de verão. Foi a última vez que a vi assim.
Lupo
Enviado por Lupo em 11/05/2006
Código do texto: T154320
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Sobre o autor
Lupo
Ilha Comprida - São Paulo - Brasil, 41 anos
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