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SÉRIE: MULHERES DO BRASIL - A RECATADA

A sala era uma típica recepção de escritório burocrático. Mas havia ali um toque feminino nem sempre presente em outros ambientes. É certo que - descobri depois -, por ali transitavam mais mulheres que homens e a clientela era constituída basicamente de mulheres.

Via nisso uma explicação para a beleza do ambiente: o acerto na distribuição e organização da mobília; os detalhes da decoração como quadros e vasos de plantas; a disposição da mesa, do micro e dos acessórios; as colunas de mármore que emprestavam um tom sério ao local; tudo formando um conjunto bonito e arquitetônico, nascido de uma mente que desejava dar ao ambiente um tom sóbrio; embora feminino.

O certo é que o ambiente era tranqüilo e sua estrutura oferecia todas as condições para se estar bem; e em paz. Tudo concorria para agradar aos olhos e aquietar o coração.

Mas, o mais importante de tudo isso era ela. Ela, a bela da tarde. Uma jovem bonita que se postava semi-escondida por trás da moderna mesa do escritório, comandando as ações de meia dúzia de funcionários. Aquela gente resolvia os mais intrincados problemas relativos a questões judiciais no âmbito familiar.

E no meio de tudo isso, Camilla. Drª Camilla... Era ela que com seu tirocínio e bom gosto comandava o funcionamento da firma e cuidava do embelezamento do ambiente. Mas ela, era a própria beleza. Tudo era belo porque ela era bela. A beleza exterior era conseqüência de uma beleza interior que ela revelava aos poucos, à medida que nos aproximávamos dela e íamos adquirindo a sua confiança.

Camilla era uma mulher balzaquiana, de beleza ímpar. Um rostinho mimoso em corpo esbelto oferecia um sorriso tímido, sem dentes à mostra, que transpareciam um pouco da sua personalidade. Era uma mulher inteligente, capaz, que conduzia com primor seus negócios e, à custa de determinação e tenacidade, tornara-se uma próspera empresária. Além de tudo, era uma linda mulher. Mulher de beleza atraente, envolvente. Ela cativava a todos que com ela conviviam, não obstante o seu recato.

Seu jeito de vestir, um conjuntinho marrom, bem cortado, último modelo de Giorgio Armani, os óculos de aro escuro, compondo seu visual grave, os gestos medidos, estudados, sabendo o que estava fazendo. Todo esse jeito, aliado ao ar compenetrado de Camilla, denunciavam seu estilo e apresentavam seu modus vivendi.

Estava ali, naquele ambiente totalmente feminino, por onde transitavam beldades a cada momento, e meus olhos exercitavam-se no globo ocular, correndo para todo lado na espreita das belas que por ali aportavam. De repente me vi perguntando o que estava fazendo ali. Era representante de uma firma de cosméticos e fora indicado para uma grande venda para o escritório da Drª Camilla que pretendia fazer uma surpresa de fim de ano para a clientela.

Mas, diante de tanta mulher bonita, me peguei observando-as, absorto, e totalmente desconectado do motivo que me levara a tal lugar. Era muita beleza junta, beleza de encher os olhos, mas, a que mais me encantava, estava inacessível até aquele momento. Drª Camilla. Do meu canto a observava em seu labor, com elegância e classe, e suspirava no aguardo do momento de por ela ser atendido.

Realmente tratava-se de uma mulher muito recatada. Linda, porém comedida em seus gestos e de uma lisura a toda prova. Além do mais, agia com parcimônia e emprestava sempre um tom médio à sua voz, de modo que nunca incomodava, mas sua meta era ser a mais discreta possível.

Foi assim, depois de uns bons minutos, que me vi diante dela. Eu e ela. Frente a frente. Face to face. E tentando penetrar em seus lindos olhos negros escondidos atrás daqueles óculos, me intimidei com a beleza daquela mulher. Uma beleza séria, grave, nada oferecida.

Fiquei radiante quando fechei o contrato para venda de mais de mil itens do meu catálogo. Mais feliz ainda fiquei quando ela me convidou para comparecer no dia seguinte à firma para um almoço com executivos multinacionais.

Sorri e me despedi. Drª Camilla era tudo de bom. Participar de um almoço com ela e mais alguns executivos? Era tudo que poderia conseguir dela. Estava de bom tamanho...
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 19/05/2006
Reeditado em 19/05/2006
Código do texto: T158999
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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Alex Guima