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SÉRIE: MULHERES DO BRASIL - A EXPECTADORA

Elas podem ser vistas pelas ruas, pelas praças, em todos os lugares; mas, esta, particularmente, eu a encontrei num Shopping. Estava muito feliz. Mas, seu ar era de busca, de procura. Ela era uma expectadora. Uma mulher que tinha como marca, a contemplação do que ocorria a seu redor.

Esta expectadora não estava só. Caminhava no Shopping junto com o namorado; de mãos dadas. Mas, havia uma nota destoante naquele andar. Para ele, ela era um troféu. Ele caminhava prazeroso, demonstrando a olhos vistos sua satisfação por ter mulher tão bela junto a si. Já ela? Bem, ela caminhava segura de sua beleza, mas, para si, ele não passava de uma muleta.

Seu nome era Verônica. Assim se chamava aquela expectadora. Ela precisava dele apenas como ponto de apoio para seu ego; para que houvesse uma emanação livre e desimpedida da sua vontade, do seu querer. Era isso que percebi quando me deparei com aquela bela mulher desfilando pelos corredores do Shopping.

Estava assentado em um banco duro, de madeira pintada de verde, quando ao olhar para o lado, deslumbrei aquela beldade vindo em minha direção. Não resisti! Fiquei em pé. E, disfarçando, dirigi-me para a vitrine de uma livraria próxima, enquanto sorrateiramente a observava deslizar suave no marmóreo brilho do piso lustrado. E o que vi? Vi uma mulher vaidosa, senhora de si, dona da situação, conhecedora de seu potencial feminil e sabedora de ser possuidora de uma beleza que sabia ser exótica e acolhedora aos olhares masculinos.

Verônica caminhava resoluta, empertigada, muito consciente de seus objetivos. Ela andava com o namorado pelo Shopping, mas sua atenção não estava no moço nem nas lojas e as promoções que ofereciam. Ela prosseguia seu andar olhando por sobre os próprios ombros, e com esta postura visualizava, quando rodopiava à esquerda de seu próprio eixo, a careca do namorado, um sujeito liso de esnobação, que seguia ao seu lado, inflado de orgulho pela bela namorado que tinha, sem se dar conta do mico que estava pagando.

Ela era uma mulher expectadora. Transitava leve e solta, e seus olhos estavam mais soltos ainda, na busca de encontrar outros olhares que estivessem grudados em sua bela forma corpórea; sequiosos de uma generosidade a mais daquela benesse da natureza. Verônica era uma mulher bela, desejada, mas possuía uma carência emblemática de ser vista, ser apreciada.

Quando Verônica transitava suave, como expectadora do ambiente ao derredor, seja no Shopping ou em outros lugares da vida, sua função não era olhar; não era perceber. Ela queria sentir-se amada. Ela desejava ser vista e apreciada. Verônica queria ver seus olhos se cruzarem com outros olhos que buscavam vê-la.

Como expectadora, ela queria, no fundo, ser vista. Seu ego pedia que fosse desejada, que fosse cortejada. Ela queria muito ser reconhecida pelos homens e, até mesmo, pelas outras mulheres, na condição de um exemplar belo e elegante da feminilidade humana. Por isso, andava espionando, bisbilhotando, olhando de soslaio, encarando, seja como fosse ela estava sempre empreendendo uma viagem por toda à parte através de seus olhares perscrutadores.

E nesta sua flutuação leve como pluma pelos corredores da vida, seu salto alto enganchou-se num fio de árvore de Natal estendido no piso do Shopping. E Verônica levou um baita tombo, espatifando-se no chão, ficando estendida emborcada de corpo e alma na passarela da vergonha.

Sua saia curta e apertada rasgou-se. Sua intimidade ficou à mostra. Seu belo corpo torneado de amor ficou exposto para os passantes. E naquele incidente, ocorreu uma aglomeração de gentes ao seu redor. Todos acorreram porque estavam interessados em acompanhar o ocorrido e desfrutar por instantes daquela beleza estendida.

E o sonho de Verônica aconteceu em sua plenitude de forma transversa e inusitada. Tornou-se alvo de todas as atenções dos circundantes. Não havia nem um olhar dos presentes que não estivesse focado em seu belo corpo estendido no chão. Cumpria-se o desejo de Verônica, a expectadora. Todos a olhavam...
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 23/05/2006
Reeditado em 25/05/2006
Código do texto: T161515
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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Alex Guima