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AMOR BANDIDO

Hoje será mais um dia de humilhação. Não agüento mais isso. Estou pagando um preço alto demais pelo seu crime.
Estou presa há 5 meses e seis dias e nesse lugar, contar as horas, os minutos, é quase que a única coisa a fazer.
No começo, chorava muito. Depois, a revolta começou a aparecer e deu lugar ao ódio. Ódio daquelas pessoas, daquelas mulheres, do sistema.
Não vejo a hora de sair daqui e seu orgulho a impedia de pedir ajuda à família. Sabia que apesar de tudo, eles a amavam e deveriam estar desesperados, mas não queria mais aborrecer ninguém. Teria que passar por tudo aquilo, sozinha.

Lembrou-se da primeira vez que vira Léo. Estava saindo da faculdade e iria buscar seu carro. Seus olhares se encontraram e ela se derreteu por dentro. Como ele era lindo!
Deu-lhe um sorriso longo, meio de lado, charmoso e a partir daí sabia que estava apaixonada. Andou mais um pouco e olhou para trás, ele a seguia com os olhos.
No dia seguinte a mesma coisa. Olhos nos olhos, o sorriso...
Ela não via a hora de sair da faculdade para poder ter aqueles pequenos segundos de felicidade. Passar por ele, ter o seu sorriso.
No terceiro dia ele não apareceu. Ela olhou de um lado para outro em sua procura, fez hora e nada. Ele não viera. Foi para casa e nem almoçar quis. Ficou pensando nele a tarde toda. Queria saber seu nome, onde morava, tudo sobre ele. Prometera a si mesma que no dia seguinte arrumaria um jeito de puxar papo.
Na manhã seguinte, seu coração estava aos pulos. Tinha medo de sair e ele não estar lá. Fez um pouco de hora e foi saindo devagarinho. Os olhos fitos no lugar onde ele ficava.
Dentro de si, sabia que ele estaria lá. Era algo forte. Talvez amor.

Quando seus olhares se encontraram, o sorriso de ambos aflorou ao mesmo tempo. Diminuiu os passos, pensando em algo rápido para falar, não podia perdê-lo novamente.
Não precisou, ele veio ao seu encontro e perguntou:
-“Posso levar os seus livros?”
-“Claro”. Respondi.
-“Qual o seu nome?”
-“Patrícia.”
-“O meu é Léo”.

A partir dali não se desgrudaram mais. Ele a levou até o seu carro, um Peugeot 307, que ganhara ao completar dezoito anos. Ficaram conversando, em pé, por quase duas horas, quando se lembrou que tinha que ir pra casa.
Bebia as palavras dele, como um aluno escuta o mestre.
Ele era inteligente, lindo e descolado. Largara a faculdade para viajar. Tinha acabado de voltar dos Estados Unidos, onde permanecera por dois meses e aprendera inglês.

Fazia dois meses que se viam todos os dias. A tarde, inventava uma desculpa para sair. Ficava com ele até as 22h. Iam ao shopping, tomavam sorvete, namoravam no estacionamento. Beijavam-se tanto que ela sentia os seus lábios inchados. Nunca sentira nada assim por ninguém. Tivera apenas namoricos bobos, mas com Léo era maravilhoso. Ele era quente, sabia como pegá-la, acariciá-la. Ficava molhada todos os dias. Tinha medo das sensações que vinha sentido. Tinha vontade de fazer amor com ele. Pensava nisso o tempo todo. Às vezes, dentro do carro, ele pegava sua mão e levava até o seu pênis, sentia-o latejando. Com a própria mão em cima da dela, segurava e fazia com que ela o acariciasse. Ele dizia em seu ouvido como a amava, a voz rouca de desejo.

Marcaram de ir a um motel. Não podiam ficar a vida toda namorando dentro do carro. No dia combinado ele disse para deixarem para outro dia porque estava sem grana. Ela tinha. Eles foram.
A primeira vez de ambos foi mágica. Aconteceu como sempre imaginara. No auge do prazer lembrou-se da camisinha, era tarde, não se protegeu.


Faziam amor todos os dias, ora dentro do carro, ora no motel. Todo o dinheiro de sua mesada ia para os momentos de prazer, mas ela estava tão feliz.
Afastou-se completamente das amigas, principalmente das que falavam mal do seu amor. Era o seu homem. Não tinham o direito de tirar-lhe a felicidade. Precisava mais dele do que delas.


Seu pensamento voltou ao dia da revista íntima. Detestava ter que se abaixar e ver aquelas mulheres tocando-a. Sua vagina se contraía involuntariamente ao menor toque, sentia-se enojada. Em algumas detentas eles encontravam celulares, drogas, facas, serras e por causa de uma, todas pagavam. Dera sorte no presídio em que estava. Em sua cela só havia mulheres de “bem”, pelo menos era o que diziam.
Era a primeira vez que receberia visita em todo o tempo que estava ali. Sua melhor amiga estava lá para vê-la. Também seria revistada.
Quando se encontraram, o abraço foi apertado, longo. Choraram.
Júlia a olhou e disse:
-“Você está linda!”
Não respondi nada, a emoção me impedia. Como pude ser tão cega? Quantas vezes fui alertada por Júlia sobre a índole de Léo. Por quê não dei ouvidos a ela? Agora era tarde...

Conversamos por quarenta minutos. Falou da saúde de minha mãe que não estava boa, do meu pai. Eles não saíam mais de casa. Fecharam o comércio que tínhamos e viviam reclusos. Não tinham mais vontade de viver. Também pudera, a filha única deles, apaixonara-se por um viciado em drogas, assassino e abandonara o conforto que tinha para viver um amor bandido. Esse era o resumo da minha vida.
Todo o bairro ficara sabendo do meu destino e meus pais tinham vergonha da desgraça que os abatera.

Quando Júlia se despediu, pedi a ela que levasse uma carta para minha mãe. Só hoje podia entender todo o sofrimento dela.

Meus pensamentos voltaram para a primeira briga que Léo e eu tivemos. Tínhamos acabado de fazer amor e ele se levantou. Foi até o banheiro e demorou. Eu estava sonolenta depois de um orgasmo intenso. Estava quase dormindo quando ouvi um barulho estranho. Chamei por ele, nada;
Levantei e fui até o banheiro, Léo estava caído perto da bacia. O nariz cheio de sangue. No começo, não entendi o que tinha acontecido, achei que ele tivesse caído, sei lá. Abracei-o por trás e tentei puxá-lo, sua perna mexeu-se e foi aí que vi o papel alumínio com a cocaína.
Meu coração gelou e eu o soltei. Ele estava se recobrando aos poucos.
Naquele dia discutimos feio, nossas vidas mudaram ali.

Léo era viciado desde os 13 anos. Sua família já o tinha internado várias vezes e só agora eu entendia a relutância em me levar até eles. Ainda não fora apresentada à sua família. Todas as vezes que eu tocava no assunto ele inventava uma desculpa e o tempo foi passando.
Eu não ligava para isso, o que me importava era o Léo.

Um dia, de madrugada o telefone tocou. Acordei assustada, era o Léo. Estava em uma delegacia e pedia que eu fosse para lá. Tinha sido pego em flagrante e não tinha dinheiro para um advogado. Disse a ele que daria um jeito e dei. Roubei da minha família todo o dinheiro que tinha em casa, limpei uma conta poupança que minha avó me deixara e tirei-o de lá, não sem antes fazê-lo prometer que mudaria.

Um dos delegados que estava de plantão conhecia meu pai e não demorou para que ele ficasse sabendo do ocorrido. Me proibiu de namorar Léo e de sair de casa. Ameaçou  tirar-me da faculdade. Minhas notas estavam péssimas, mas nunca tinha usado nenhum tipo de droga, até tinha aversão a elas.

Léo e eu brigávamos quase todos os dias, a droga tinha uma importância maior na vida dele, além do quê, sumia e as vezes ficava dias sem aparecer ou ligar.

Minha vida tinha virado um inferno. Não agüentei a pressão da minha família e saí de casa. Fui morar com ele.
Léo arrumou um emprego, dizia que estava trabalhando com um tio na venda de filtros de água, acreditei. Saía cedo e voltava só no finzinho da tarde, carregado de caixas. Eu preparava pratos deliciosos que ele nem sequer provava. Decorei nosso apartamento e estávamos vivendo até que bem, quando Léo foi preso novamente. Tinha assassinado um policial em um assalto. Meu mundo desabou.
Em uma busca em nossa casa, a polícia encontrou papelotes com cocaína que seriam vendidos. As caixas que meu namorado trazia, dizendo ser filtros-reservas, eram na realidade drogas. Fui presa também como cúmplice.
Não pedi ajuda a ninguém, não tenho coragem. Essa é a minha realidade. Estou aguardando um julgamento que decidirá o meu destino e o da minha filha. Grávida de 7 meses, espero uma menina que se chamará Maria Eduarda.
O Léo nem sabe que vai ser pai. Decidi, que se quisesse recomeçar minha vida, teria de ser sem ele. Ainda o amo, muito, mas não sou retribuída da mesma forma.
Hoje posso entender todo o sofrimento de minha mãe e por isso é que escrevi a carta à ela.

Pego o rascunho amassado ao lado da minha cama e começo a ler...

“ Mãe,
peço perdão por tudo o que fiz a Senhora passar. Não tenho palavras para dizer o quanto és importante para mim e que se pudesse voltar atrás, faria tudo diferente. Não sei direito Mãe, onde foi que me perdi, mas sei que não tem volta. Não posso remediar ou mudar as coisas.
Mãe, a Senhora vai ser avó e a única coisa que peço, é que cuide da minha filhinha. Sei que o seu coração é grande e está cheio de amor, amor que eu recusei, deixei de querer, que eu substituí. Talvez, essa seja a única forma de eu devolver-lhe todo o amor que me foi dado. Te amo Mãe, a você e ao Papai. Perdão...”








CRISTIANE DONIZETE
Enviado por CRISTIANE DONIZETE em 29/05/2006
Reeditado em 30/05/2006
Código do texto: T165568
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Sobre a autora
CRISTIANE DONIZETE
São Paulo - São Paulo - Brasil
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