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A Bruxinha Maluca

 
 


                                        PARTE 1


Era uma vez... Era uma vez? Sim.
Não é assim que Sherazade começava suas “histórias das mil e uma noites”?
Era uma vez uma bruxinha que foi chamada por todos de Bruxinha Maluca. Não se sabe de onde veio, nem sua origem. Chegou um dia à Terra dos Homens Bons”, montada em sua vassoura, com suas poções mágicas e começou a freqüentar um ambiente que não era o seu.
E o povo desse lugar, como era muito bom e pensava que todas as pessoas fossem boas, acreditou na Bruxinha.  E foi lhe dando confiança.. e foi convidando-a para as festas, reuniões, casamentos, aniversários... Ah! E mesmo quando não a convidavam ela ia assim  mesmo. E  todos diziam:
- Essa é uma figura  folclórica!
Diziam isso porque ainda não conheciam o seu lado inescrupuloso, inconveniente, escandaloso! E achavam-na apenas uma figura folclórica pelos seus trajes coloridos e extravagantes.
Mas essa Bruxinha chegou à “Terra dos Homens Bons”  dizendo que era professora e outras “coisitas” mais. Trazia uma ordem de seus superiores da “Corte do Mal” para ensinar numa das escolas desse lugar.
Como todos os seus habitantes eram pessoas boas e hospitaleiras, deram-lhe crédito, recebendo-a muito bem nessa “profissão”.
Mas... o tempo foi passando e a Bruxinha não conseguia enganar tanto os outros, como o fazia antes. Aos poucos, o seu lado ambicioso, inescrupuloso e enganador começou a despontar.
Na escola onde foi trabalhar, ninguém mais confiava nela. Fazia fofoca, mentia e, com ares de toda-poderosa, pois contava muito “papo”, provocava um tumulto tremendo entre funcionários e alunos.
E os comentários pelos pátios e salas do colégio eram assim:
-Viram só a Bruxinha como veio hoje vestida?
-E vocês ouviram os palavrões que ela disse?
-Ah! E os trajes? Cada vez mais estranhos e exagerados!
-E as mentiras cabeludas que ela conta?!
E assim iam-se passando os dias e a falta de compromisso com a educação aumentava. Suas ausências deixavam o colégio em polvorosa.
Tanto na sociedade como na escola, as pessoas passavam a conhecer mais a Bruxinha que, com sua falta de educação, fazia de conta que dava aulas a seus alunos, mas apenas embromava com papos megalomaníacos. Não tinha responsabilidade com os deveres da profissão e, por qualquer motivo “armava seu barraco”, deixando toda a comunidade escolar boquiaberta. Era o caos. Isto quando comparecia ao colégio.
A escola, espaço privilegiado de se formar cidadãos, homens bons, educados e portadores de princípios éticos e morais, estava sendo contaminada pelos maus exemplos da Bruxinha. Os alunos que eram crianças e adolescentes, começaram a achar “um barato” aquelas atitudes loucas e irresponsáveis. Afinal, nesse mundo de tantas dificuldades, tantos sofrimentos e outras mazelas, os alunos queriam mesmo era se divertir, “passar o tempo”. Não entendiam ainda a importância da educação na vida do ser humano e bom era o professor que não ia à escola, que não exigia que pensassem...
Quando comparecia à aula, era uma bagunça. Escrevia o assunto no quadro para os alunos copiarem. A aprendizagem não acontecia, pois não havia reflexão, nem troca de experiências. O tempo corria e as aulas da Bruxinha não mudavam. Faltava muito ao colégio com pretensas desculpas de doenças, de viagens para fazer cursos. Mas os resultados desses cursos não chegavam aos alunos. Deveria ser algum curso de “feitiçaria”, porque quando voltava era pior. Os professores da escola, a maioria responsáveis e competentes, nem conseguiam dar suas aulas, porque o tumulto se instalava nos corredores. Como a Bruxinha “fazia de conta” que dava aula,os alunos “fingiam que aprendiam”. Isso veio causar um grande problema para a Diretora que, muitas vezes passiva, dizia:
-Meu Deus, como é que faço para pôr ordem nesta escola?
A Diretora da escola era uma pessoa boa, mas omissa, não tinha atitudes coerentes com a de um educador à frente de um estabelecimento de ensino. Deixava o barco à deriva.
Educadores indignados, diziam:
-Senhora Bondade, tome uma providência com essa professora! Dê faltas, faça uma advertência! Denuncie ao Conselho Escolar!
E a Diretora, medrosa como sempre, falava com voz trêmula:
-Cooomo posso fazer isso? Essa professora é astuciosa e, acima de tudo goza de influências entre os políticos?! Eles a protegem, em troca de alguns votos...
-Soube que ela pertence à ” Corte do Mal”, sem falar nas “poções mágicas” que prepara! Disse um professor indignado.
- Mas somos educadores e não vamos deixar que alguém maluco venha tirar a seriedade do nosso trabalho, porque tem “amigos” políticos.
Dona Bondade, com medo de que os professores tomassem um decisão, aconselhou:
-Esperem um pouco. Vou conversar com ela. Se formos afoitos, pode aprontar um escândalo aqui e eu não gosto disso. E posso perder meu cargo, vocês  podem ser transferidos para escolas distantes, isso sem falar na possibilidade de uma demissão!
Uma professora saltou para perto da Diretora e falou:
-O queeeê? Está nos ameaçando?
-Que lugar é esse? Parece até que vivemos ainda na ditadura!
E se juntaram mais professores na diretoria. Fizeram muitas perguntas à Dona Bondade, que respondia temerosa.
Os professores diziam em uníssono:
- Que gente má! Isso tudo nos faz ficar boquiabertos, mas não nos intimida. Não seremos “capacho" dessa gente. Vamos denunciar ao Sindicato!
Observando a trajetória da “Bruxinha Maluca”, vê-se que não é sempre quem tem competência,quem é honesto, quem é verdadeiro que vence, mas aquele que sabe ludibriar as pessoas e levar vantagem em tudo, mesmo que para isso passe por cima da ética e da moral!
Todo o corpo docente da escola se reuniu para resolver esse caso que já estava causando polvorosa no ambiente escolar. As relações entre alunos e professores ficaram prejudicadas, pois havia aqueles que apoiavam a Bruxinha para obter boas notas. Ela conseguia desestabilizar toda a equipe escolar. Uns, por aproveitarem da situação, outros por se sentirem prejudicados com a desorganização instalada no ambiente.
A escola era vista pela sociedade como uma instituição em decadência, tendo em vista o número muito grande de aulas vagas, evasão e reprovação. Todos criticavam o Sistema, o Governo, a Direção, os Professores... Alguns professores começaram a proceder como a Bruxinha. Faltavam às aulas, dispensavam os alunos mais cedo, chegavam atrasados. Foram mesmo influenciados pelas suas atitudes irresponsáveis. Os alunos iam no embalo e, por não terem ainda discernimento, achavam bom ficar de aulas vagas. Pobres vítimas!
Chegaram ao colégio reclamações dos pais e a diretora chamou a atenção de alguns professores  que seguiram o exemplo da Bruxinha e não aceitavam censura. Indagadas pela direção por que agiam assim, respondiam:
-A Bruxinha falta às aulas e a senhora não faz nada. Nossa atitude é para que se tomem providências enérgicas nesta escola!
Os outros mestres concordaram e foi-se formando um círculo vicioso.
Esse era o momento para todos se unirem em favor de uma educação melhor, que trabalhasse a construção do homem equilibrado, crítico, participativo. Mas não. Faltou ao estabelecimento a liderança, a coragem, a sensatez, o respeito do líder. O mal sobrepunha ao bem e uma crise ética eclodiu na escola.
Alguns professores se indignavam com essa situação. Era preciso despertar nos jovens, o desejo de estudar , incentivar o sonho e a utopia, agregar sentimentos bons em torno de uma vida melhor.
Nada tocava a Bruxinha. O importante para ela era o seu aviso de crédito, a sua conta bancária. Estudar muito, para quê? Ela havia “ passado pela escola”, adquiriu “diplomas” e não estava ali “ensinando” e ganhando muito bem? Não tinha escrúpulos, ao ponto de levar pacotes de dinheiro para a sala de aula que tirava da sua bolsa mal cheirosa e pedia aos alunos para contar com ela! Um absurdo! Na sala dos professores era a mesma insensatez: mostrava as cédulas que ia tirando da sacola, contracheques e dizia:”Eu ganho muito bem! Comprei apartamento, carro... Era uma espécie de violência isso... A violência simbólica que às vezes agride mais que qualquer outra.
E quando algum colega chamava a sua atenção, era num descaso que respondia:
-Que bobagem! Quem trabalha na educação é assim mesmo, colegas. Já viu aluno de escola pública se interessar por alguma coisa? Eles querem mesmo é passar de ano. Façam como eu: não exijo nada e eles me adoram.
Época de formatura dou minha casa para fazer churrasco... E assim vou levando. Não me acabo por causa de escola.
Essa era a visão de uma pessoa que também passou pela escola dessa forma. Tivemos notícias que ela enganava os professores, dava-lhes presentes para dispensar de trabalhos... Isso já na Faculdade, porque sua infância foi muito pobre.
A Bruxinha não entendia a educação como processo de mudança, como um dos meios mais seguros para se chegar a outros bens sociais; não entendia que o conhecimento é construído no dia-a-dia da sala de aula, num processo de interação com o meio social; não entendia que a família deve contribuir com a escola e vice-versa; não entendia que, além dos conteúdos das disciplinas, os valores da vida são importantes na formação do caráter; não entendia que os mestres devem ser exemplo de dignidade; não entendia que educação envolve o corpo, a alma e o espírito e que os alunos precisam cuidar da sua espiritualidade e transcendência.
E por não entender nada disso, um dia, a Bruxinha Maluca pegou sua vassoura e voou... Já era tempo! Voou para longe e deixou a escola livre de sua influência maléfica. E os alunos, pobres adolescentes! Se hoje se lembram dela é com ressentimentos por tê-los prejudicado e os transformado em “macaquinhos” do seu circo.
Dizem alguns que ela está habitando uma Galáxia muito atrasada onde se vive “olho por olho” “dente por dente”, onde muitos dos  seus habitantes não se respeitam, não têm senso crítico, caluniam as pessoas de bem, praticam corrupções e se aproveitam dos pobres e analfabetos para se promoveram.
Esse é um mundo muito aquém do mundo em que vivem os verdadeiros educadores, o mundo onde a Bruxinha viveu, mas nada assimilou, porque o seu mau caráter e a ausência de espiritualidade em sua vida não lhe permitiram passar pelo universo da educação e se transformar.
Os educadores vivem na Galáxia do Bem e a Bruxinha Maluca vive na Galáxia do Mal.
Como se diz que ninguém dá o que não tem, perdoamos a Bruxinha e suplicamos a Deus que ela desperte para a verdade que edifica; o equilíbrio que controla e deixe de se travestir em situações oportunistas para auferir lucros e benefícios à custa da miséria dos outros.
Na Galáxia do Mal ela vive a mexer o seu caldeirão, cheio de pedidos absurdos, misturados às poções, para enganar o povo pobre e humilde.
Enquanto não se investir em políticas públicas que possam minorar a situação dos excluídos, haverá sempre “Bruxinhas Malucas” por aí se promovendo, se elegendo para cargo político e enchendo seu “caldeirão”. Afinal, vivemos num país de mazelas sociais e pessoas que se aproveitam delas para, a exemplo da Bruxinha Maluca, realizarem suas conquistas desonestas e construírem seus mundos sustentados na vaidade, na mentira e na exploração dos mais fracos.
Mas, como a chama que nunca se apaga – a esperança – alimenta os corações dos homens e mulheres de bem, continuamos nessa jornada, alimentada de ideais sublimes, porque temos a certeza de que o Bem vencerá o Mal.

 

Mena
Enviado por Mena em 30/05/2006
Código do texto: T166135

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