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O MENDIGO

Minha perna hoje está latejando. Em um dos raros momentos de lucidez, percebo que está gangrenada. Conforme meu coração bate, sinto a resposta no meu pé. Tenho medo de ir ao médico, ficar internado, não poder beber. Não sei o que seria de mim sem a bebida.
Faz 8 anos que estou na rua. Moro em qualquer lugar, que me esconda do sol e da chuva. Já não posso escolher. Anos atrás, encontrava-se muito mais lugares, hoje, a cidade está tomada.
Quem me vê hoje, aqui deitado nesse chão frio, nem sonha que já tive um chão de mármore aos meus pés, que meus banhos normalmente eram numa Jacuzzi ou que meu café da manhã era servido na cama. Tive uma mulher linda, que me amou e me deu dois filhos e morreu no parto do último.
Como dono de empresas, sempre fui um pai ausente, quase não via meus filhos devido às minhas viagens. Providenciava para que tivessem do bom e do melhor, contratava professores particulares, empregadas, babás etc. Minha sogra supervisionava tudo. Mandava a ela uma quantia mensal exagerada para evitar “encheção de saco”.
Por vezes, ficava fora por um ou dois meses, ligava quando lembrava.
Nessa época conheci Eleonora. Mulher vivida e bonita, que percebendo o meu modo de viver, arrumou um jeito de entrar nele e, enquanto ficou, tirou de mim o que podia.
Ela era uma pessoa inteligente, soube me seduzir como ninguém. Após a morte de minha esposa, não havia me apaixonado de novo e o sexo para mim era esporádico. Algo como suprir minhas necessidades. Trabalhava tanto, que o prazer ficou em segundo plano.
Eleonora...
Curvilínea, sedutora, cheirosa. Em uma única noite conseguiu me enfeitiçar. Por dias não a tirava do pensamento. Percebendo o meu interesse, se fez de difícil e eu caí.
Fiz de tudo por aquela mulher. Dei-lhe casa, dinheiro, jóias, viagens, amor. Assumi um relacionamento que não existia, só na minha cabeça.
Ficava atrás dela como um cão por uma cadela no cio e quando percebi o poder que ela tinha sobre mim, era tarde demais.
Minha sogra, visando o bem estar dos netos e o dela, tratou de me roubar. Eu não me importava. Estava tudo em família e o dinheiro que tinha, dava para mantê-la longe.
Em uma viagem nossa ao exterior, Eleonora conheceu outro homem e por ele, realmente se apaixonou. Como já tinha dinheiro suficiente para si e sendo ele mais rico do que eu, fui trocado imediatamente.
Voltei da viagem sozinho acreditando que ela voltaria. Ela não voltou...
Os dias transformaram se em meses e eu não tinha mais ânimo para nada. Deixei de comparecer ao trabalho e não supervisionava mais os meus negócios. Fui aos poucos perdendo a noção das coisas e comecei a beber. No início, bebia por algumas horas, dormia e devido à enxaqueca, ficava dias sem comer. Como a volta de Eleonora não acontecia, e meus pensamentos sempre voltavam para ela, resolvi esquecê-la e afundei-me na bebida. Bebia todos os dias. Com os amigos de bares, aprendi a jogar e peguei o gosto pela coisa.
Nessa altura, ficava muito tempo longe de casa. Dormia em hotéis e viva rodeado de amigos bêbados. Saíamos à noite e voltávamos somente na madrugada. O dia, passava-se dormindo.
Até que um dia, comprando uma garrafa de wiski, meu cartão foi recusado. Não entendi, disse para a atendente que ela estava enganada. Dei a ela outro cartão, também recusado. Paguei com algum dinheiro que tinha no bolso.
No dia seguinte, bateram na porta de manhã. Era um mensageiro do hotel que trazia um pequeno envelope. Abri achando que era um pedido de desculpas da loja de bebidas. Ledo engano, era uma cobrança antecipada dos dias em que estava hospedado ali. No meio hoteleiro, as notícias correm rápido e a mais nova, era que eu estava falido.
De ressaca que estava, nervoso, liguei para o meu banco, meu gerente não quis me atender, achei estranho.
Tomei um banho e fui até lá. Falei com uma atendente que me deu a pior notícia da minha vida. Eu não tinha mais dinheiro. Com o tempo, deixei meus negócios de lado e fui passado para trás de todas as formas: por sócios, família e supostos amigos. Meu saldo, era zero.
Voltei ao hotel e não sabia o que fazer. Pela primeira vez em dias, fiquei sóbrio. Liguei para minha casa, minha sogra atendeu. Com voz indiferente perguntou o que eu queria. Rasgou o verbo e disse que caso eu tivesse me esquecido, ainda tinha filhos. Fazia quase um ano que não voltava para casa.
Com vergonha, disse a ela que não se preocupasse que estaria voltando.

Cheguei na hora do café da tarde. Ouvi uma voz de homem, me perguntei quem seria. A empregada não me reconheceu e estava na família há mais de dez anos. Quando entrei na sala de jantar, percebi que voz que eu ouvira lá fora, era do meu filho. O silêncio se instalou na sala. Ninguém falava e todos olhavam em minha direção. Minha filha, uma mocinha linda ameaçou um sorriso. A avó deu-lhe um cutucão. Meu filho nada falou. Eu era um estranho.

Com um aperto no coração, me perguntei o que estava fazendo ali?
Sem dinheiro, sem noção, sem coragem e com vergonha, muita vergonha.

À noite, conversei com minha sogra. Ela reclamou da minha ausência, mas senti que não havia gostado da minha volta. Percebi que ali, já não era o meu lugar.

Naquela madrugada, sentindo a falta da bebida, desci. Procurei em todos os lugares da casa e nada encontrei. Fui até a despensa e procurei por álcool. Tomei quase meio litro. Em um cantinho na pia achei uma garrafa de rum, provavelmente para umedecer bolos. Tomei-a toda. Saí em busca de conforto.
Bebi até cair e com a cabeça rodando, decidi não voltar. Não tinha mais o carinho de meus filhos, porque não soubera plantá-lo. Andei tanto naquela noite que me perdi, mas não tinha importância, na noite, todos os lugares são iguais.

Chego ao momento de hoje. Sem documentos, sem amigos, doente. Lembro saudoso do sorriso de minha espôsa ao me dar a notícia de meu primeiro filho. “É um menino e vai levar seu nome”. Fiquei tão feliz!
Não voltei mais porque não tinha o que tirar deles. Nunca dera nada, não podia tomar-lhes a casa. Nada tinha para deixá-los.
Na rua encontrei apenas o consolo de cachorros e outros bêbados. No tempo frio, é pior. Bebemos o dia inteiro para afugentar o frio. Uma unha encravada, que infeccionou, fez com que minha perna, até a altura do joelho ficasse preta. A circulação não existe mais, meus pés incham muito por causa da bebida. Passo a maior parte do tempo sentado porque não agüento mais andar, o que piora a situação.
Hoje estou me sentindo tão sozinho. Meu cachorro não para de olhar para mim e chorar. Meu único amigo. Parece que ele está triste também. Ontem, vi uma pessoa conhecida passar próximo a mim. Meu coração gelou: - era meu filho. Em um carro parado no semáforo o reconheci, mesmo de perfil. Ele era igualzinho a mim, ao jovem bonito e elegante que um dia eu fora. Ele me olhou, ficou parado, acho que me reconheceu. Os carros atrás dele começaram a buzinar e ele teve de ir embora...
Engraçado, depois disso me deu uma paz. Afago o pescoço do meu cão que não para de chorar. Seu doce olhar encontra-se com o meu. Ele está triste...

CRISTIANE DONIZETE
Enviado por CRISTIANE DONIZETE em 31/05/2006
Reeditado em 02/06/2006
Código do texto: T166367
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Sobre a autora
CRISTIANE DONIZETE
São Paulo - São Paulo - Brasil
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