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REFAZENDO CAMINHOS

Quando estava por terminar o preenchimento da ficha cadastral, faltando apenas o número da carteira de identidade, é que Ramon percebeu que o documento não estava em seu poder. Pegou da carteira, revirou os papéis de tudo quanto é jeito e nada da carteira verdinha, do Instituto Félix Pacheco, aparecer.

Ficou angustiado: “Onde perdi esta merda de carteira?” Perguntou para si mesmo, com uma raiva incontida. Mas não havia mais tempo para questionamentos. A atendente, do outro lado do balcão, estava esperando-o concluir o preenchimento, pois a fila naquela manhã alongava-se sobremaneira.

O ar de impaciência da moça fez Ramon aguçar a memória e escrever o seu número de Identidade de cabeça. Estava convicto que não esquecera nem invertera nenhum número. Pelo menos, por enquanto, a situação estava resolvida. Depois, veria o que fazer para tentar recuperar o documento perdido.

Ramon era um rapaz novo, de seus vinte e cinco anos prováveis, que já tinha um bom emprego público, mas estava sempre às voltas na tentativa de conquistar uma outra chance, ter outra oportunidade mais rendosa ou interessante. Não podia ouvir falar de um concurso. Era só saber da existência de um, que lá estava ele se inscrevendo. Seja para Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal ou mesmo para o Ministério Público, lá estava ele preenchendo formulários e habilitando-se para mais um teste e, quem sabe, uma vaga de emprego melhor. Diria até, que havia se tornado um viciado em concursos....

Com o protocolo da entrega dos formulários na mão, Ramon entrou satisfeito na repartição da Agência dos Correios em que trabalhava – esse fora um dos concursos nos quais já havia sido aprovado – brandindo o pequeno papel para os colegas que, curiosos, queriam saber a razão de tanta euforia.

- Falta pouco! Agora é torcer para ser chamado...

- Que foi véio? Do que você tá falando?

- Ora, a vaga para a Petrobrás. É disso que tô falando. Obtive a classificação e eles pediram a documentação e os papéis. Agora é só ser chamado para o preenchimento de vaga.

A turma da repartição irrompeu numa zoeira danada, vibrando com todo entusiasmo pela perspectiva de ver um colega galgando um melhor posto de trabalho. Era bom ver aquela gente simples, trabalhadora, animada com o sucesso do colega. Tal sentimento nem sempre é encontrado na alta sociedade, onde a inveja e o ciúme corroem as relações sociais. Mas, ali naquele ambiente de subúrbio, onde todos se conheciam e penavam desde criança pela conquista de um lugar ao sol, era diferente.

Ramon sentou-se junto à mesa de trabalho pensativo. Sabia que não bastava ser aprovado em um concurso. Sabia que era preciso ser chamado e que mesmo quando se tem uma boa classificação, nem sempre se obtém o emprego, seja porque não tenham sido abertas às vagas suficientes para os concursados seja porque alguém que tinha um pistolão lá dentro atropelara o processo, roubando a oportunidade de outrem.

Mas, outra inquietação o dominava naquele momento. “Onde estaria seu documento de identificação pessoal?” Encontrar seu registro de identidade era questão de honra para ele, que sempre fora zeloso com seus pertences. Revirou cada papel que estava sobre sua mesa de trabalho, vasculhou todas as gavetas e, depois de certificar-se de que realmente não estava ali, teve uma idéia: Procurou lembrar qual fora a última vez que estivera com o documento em suas mãos. E, neste exercício, recordara que fora no dia anterior, exatamente naquele lugar, sua mesa de trabalho, quando estivera consultando numa das muitas tantas vezes seus documentos para preencher fichas de inscrição para concursos públicos, que vira a famigerada carteirinha verde.

E, segundo seus registros de memória, após consultar os números do CIC, do título de eleitor, da carteira de trabalho e da bendita, devolvera-os, imediatamente, aos seus lugares. A carteira profissional estava na gaveta superior esquerda da mesa e os demais documentos em sua carteira de bolso, só faltando o RG. Tomou, então, uma decisão. Iria refazer os seus caminhos, do dia anterior, para tentar descobrir se por alguma razão, havia perdido ou esquecido o documento num desses lugares. Comunicou ao seu chefe que precisaria delongar-se um pouco no horário do almoço para esta finalidade, e, como o serviço da repartição estava bem adiantado, não houve objeção.

O primeiro lugar que ele foi era uma Drogaria Popular. Acordara no dia anterior com um pouco de dor de cabeça e, tão logo saíra de casa, passara nesta farmácia. Seu emprego era perto de casa, de modo que, a três quarteirões, ou quatro, se resumia sua ida e vinda diária, não importando o tipo de atividade que desejasse exercer. Estava ficando acordado até altas horas da noite, se preparando para mais um concurso e, o excesso de leituras, deveria estar provocando reações nas vistas, o que lhe dava, de vez em quando, um pouco de dor de cabeça.

Não. Não havia ali na Drogaria nenhum documento seu achado e guardado. Dali dirigiu-se ao Paris Coffe-shop. Lembrara que tomara um cafezinho com creme chantili para tirar o gosto amargo do remédio que ficara entalado em sua garganta quando tentara engoli-lo a seco. Novamente a frustração. Não tinha sido ali.

Estava em seu horário de almoço. Lembrara que no dia anterior não fora a casa almoçar, porque precisava ganhar tempo para entregar sua inscrição para o concurso da Light. Isso era no centro da cidade. Tomou o ônibus e refez o trajeto indo ao escritório central da Companhia, onde entregara o envelope pardo com os papéis exigidos e, conversando com a mesma moça, foi informado de que não havia registro no protocolo de documentos achados no dia anterior.

Saiu dali cabisbaixo, já triste com a situação tão incômoda, mas, ainda esperançoso de que haveria de achar o documento perdido. Voltou à lanchonete do dia anterior, fez o mesmo lanche e quando foi pagar, perguntou ao caixa se não havia...

- Não! O único documento achado aqui é este, de uma mulher negra.

Ramon olhou desolado para o documento amarelecido pelo tempo, afixado com fita adesiva no vidro protetor do caixa e que estava ali, meio perdido, em meio a tantos maços de cigarro, de várias marcas. Saiu do estabelecimento, mais uma vez desmotivado, sentindo ser sua luta inócua, numa busca sem sucesso pelo achamento do documento de identidade.

Ramon foi até o ponto, tomou o ônibus, da linha 311, que o deixaria em frente ao seu trabalho, mas teve a curiosidade de perguntar ao trocador, onde ficava a garagem da empresa e o que era feito com as coisas esquecidas nos lotações.

- Há um setor de “Achados e Perdidos” na sede da empresa. Se você quiser pode ir até lá. O horário de funcionamento é o comercial.

- E onde fica a empresa?

- Estamos passando em frente da garagem agora. Se quiser, desça aí.

Ato contínuo, o trocador puxou a campainha e ainda gritou para ele:

- Olha, é só tocar o interfone que eles atendem. Sucesso!

O ônibus parou e Ramon desceu agradecido. Havia uma nova esperança em seu coração. Quem sabe não havia perdido o documento dentro do ônibus, no dia anterior, quando fora pegar o dinheiro da passagem na carteira e o mesmo caíra no chão?

Levou dez minutos para ter acesso ao escritório reservado da Auto-Viação, mas apenas um foi suficiente para receber uma negativa. Havia trinta dias que a empresa não recolhia ao setor de “Achados e Perdidos” nenhum tipo de documentos; só bolsas e sacolas.

Mais uma vez frustrado em suas expectativas, Ramon retira-se triste da Garagem e caminha macambúzio pela calçada. Como um autômato compra balas de um camelô e vai chupando-as, uma atrás da outra, sem destino e sem direção, jogando os papéis brilhantes das balas ao vento, esquecido do politicamente correto, que era seu compromisso com o meio-ambiente, a ecologia, e o estancamento da poluição dos grandes centros urbanos.

Por hora, Ramon decidira que era tempo de dar um basta em sua busca insana. Decidira retornar ao trabalho, já inquieto sobre se tentar solicitar uma segunda via do documento não seria mais econômico e menos desgastante do que todo esse processo louco que ele estava tentando... Pensando assim, o jovem retornou ao seu ambiente de trabalho e reassumiu as suas atividades corriqueiras no restante daquela tarde.

Ramon era um jovem elegante, inteligente, meio reservado, não muito afeito a festas e badalações. Tinha uma linda noiva, cujo namoro se arrastava por longos sete anos, e nada de uma definição para o casamento. A noiva era muito religiosa e tinha se encasquetado com a idéia retrógrada de querer casar virgem.

Isso era muito para Ramon. Embora tirassem uns sarros constantes e se dessem uns amassos bem dados, na hora do vamos ver, ela recuava e Ramon ficava a ver navios, com a libido solta e o tesão à flor da pele. Por conta disso, ele desenvolvera um hábito não muito recomendável de freqüentar garotas de programa. Escolhia as mais jovens e as que considerava as mais bonitas, através das propagandas dos jornais – embora não houvesse qualquer garantia disso e o PROCON não desse acolhida a qualquer reclamação por propaganda enganosa. Mas, segundo ele, quase sempre ficava satisfeito com o produto.

Deixe estar que no dia anterior ele visitara uma dessas meninas, num grande Centro Comercial, uma Galeria de lojas, quando conheceu a bela Viviane. Fora um encontro muito interessante, e que o fizera feliz. Foi pensando naquele momento prazeroso do dia anterior – e o final da tarde fria, naquele clima de inverno com o tempo fechado e a melancolia espalhada pelo ar ajudava – que Ramon apercebeu-se que suas esperanças não tinham se esgotado, pois ainda havia um lugar para ser revisitado.

“É mesmo!” Pensou de si para si. “Ainda falta checar lá no Ap. de Viviane. Quem sabe meu documento não tenha ficado lá?” Ramon fez-se essa pergunta e sentiu uma pontada na ponta do pênis. Parecia que alguma coisa o incomodava por dentro, causando pequenas contrações e também certo formigamento interno, pelo canal da uretra, que desembocava numa sensação muito ruim na glande. Já há algum tempo estava querendo parar com aquelas visitas a GPs. Agora, por força da circunstância, deveria novamente visitar uma.

Documento perdido. Ramon era do tipo machista. Ter um pênis avantajado e subjugar as mulheres era fator determinante para ele, embora para casamento preferisse uma “honrada”, pois com as putas se satisfaria. Cuidados sempre tinha quando visitava garotas. Não esquecer de usar camisinha era questão de vida, mas, nunca se sabe. E ele fora tomado de dúvidas naquele instante em que sentia pontadas esquisitas na genitália. Do pavor da AIDS ele se precavia, mas nem sequer concebia o ter sua vida sexual diminuída ou tornada problemática por conta de alguma doença venérea que viesse a adquirir.

Naquele momento de insegurança, achar que havia perdido o documento no apartamento de Viviane soava emblemático para ele, pois temia perder sua virilidade nestas investidas no sexo fácil, comprado a preço de grana, de usufruto sem compromisso, de ter e esquecer e deixar para lá e não mais se lembrar de que teve e com quem fez.

Mas, naquele caso, ainda teria que voltar mais uma vez. E, acabado o expediente, tomou um táxi e foi direto para a Praça das Amendoeiras, à Rua dos Prazeres, no Edifício Love, onde em certo apartamento reencontrou Viviane:

- Você de novo por aqui?

- Sim, vim para resolver uma situação...

O cenho da moça franziu e um ar de interrogação se fez no ambiente:

- Pois entre, não vai ficar sentindo este frio aí do corredor.

A moça estava vestida para o trabalho. Um conjuntinho vermelho de rendinha realçava suas formas e a tornava extremamente sedutora. Era possuidora de um corpo lindo e aquilo já foi um apelo tremendamente difícil para Ramon resistir, mas, ao que parece, ele estava resoluto. Ali mesmo, na sala, indagou do motivo de sua ida ali:

- Por acaso não perdi meu documento de identidade na última vez que estive aqui?

Viviane olhou-o sensualmente e lhe propôs resolver isto depois. Ela não havia encontrado-o, mas as colegas que atuavam com ela durante o dia, poderiam ter achado e colocado na gaveta que elas tinham para esta finalidade. Colocou os braços languidamente sobre os ombros dele, e roçando os seios em seus ombros convidou-o sutilmente para a cama.

O corpo de Ramon estremeceu. Aquela mulher era realmente tentadora. Um lindo exemplar da espécie, esculpida com maestria pela Natureza. Hesitou. Sentiu calafrios. Nas calças, o membro moveu-se afoito, respondendo pelo instinto aos apelos da sedução. Mas, a cabeça de cima ainda funcionava. Nem que tivesse que ter novamente a concorrência da dor. E foi neste exato instante, quando ele estava prestes a ceder aos apelos sensuais da jovem, que voltou a sentir a pontada no canal da uretra; indício de que poderia estar com alguma infecção. Então, desistiu:

- Não posso! Vim aqui hoje só para recuperar um documento perdido. Isso está me inquietando muito, pois preciso dele para dar continuidade aos meus projetos de estudo e trabalho.

A moça desistiu de tentar conquistá-lo para mais um programa e foi vasculhar a tal gaveta. Voltou com alguns documentos na mão e passando-os, um por um, deu com uma foto fora de época, de um moço desconjuntado, magrelo, imberbe, recém saído da adolescência, que guardava alguma semelhança com aquele rapaz já amadurecido que estava à sua frente:

- É este?

Ramon tomou a carteira de identidade em suas mãos e respirou aliviado. Era. Tinha perdido o documento quando estivera ali pela última vez. Tentou imaginar como, e concluiu que o fato deveria ter acontecido quando se despira, pois ele deveria estar no bolso da camisa, e não em sua carteira, pois o usara para anotar os números na tarde daquele dia.

Fim de busca. “Eureca. Eureca”. Pronunciou baixinho para si mesmo. Olhou para Viviane. A linda e terna moça de seus prazeres. Mais uma vez contemplou seu lindo corpo semi-desnudo, de alto a baixo. Pediu que ela desse uma meia-volta para ele contemplá-la em sua totalidade e beijando-a afetuosamente no rosto, disse-lhe adeus.

Viviane sabia que perdera um cliente. O jeito de Ramon era um jeito de quem não voltava. E ele, realmente, estava decidido a isso. Saiu do apartamento. Ganhou a rua. Sentiu o vento frio do inverno a bater-lhe nas faces. Tomou um táxi...

Enquanto o motorista serpenteava vagarosamente pelas ruas e avenidas congestionadas da cidade grande, Ramon teve tempo suficiente para refletir nestes últimos acontecimentos. Refazer os caminhos de um dia para recuperar um documento perdido lhe mostrara que deveria refazer os caminhos de sua vida. Casaria logo, mesmo sem ter ainda todas as condições financeiras para tal. Mas, não voltaria a freqüentar meninas da vida. Queria um amor verdadeiro, Um relacionamento seguro, Uma mulher para chamar de sua. Um corpo para chamar de altar. Uma figura feminina para chamar de deusa. Um lugar para ser o trono de seu Amor.

Naquela mesma noite procuraria sua noiva e conversaria com ela sobre o assunto. Até o casamento, teria tempo suficiente para procurar um médico, checar a saúde e se preparar para uma lua de mel inesquecível com a amada. Ramon estava decidido. Refazer caminhos para ele era dar chances para a vida. E ele estava disposto a viver muito. E viver bem.
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 31/05/2006
Reeditado em 31/05/2006
Código do texto: T166463
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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