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Engenheiro Mendigo (Parte III)

   Pescador

Pois, minha senhora, eu sou pescador desde que nasci. Eu tenho esse barzinho agora, mas até alguns anos atrás eu ia ao mar todos os dias. E esse relógio não fui eu que comprei, não senhora, foi dado de presente por um amigo meu.

Esse amigo é aquele ali, tá vendo? aquele sentado na calçada, vendendo bijuterias... Se contar, a senhora não vai acreditar! Ele parece um mendigo maluco agora, mas já foi muito importante na cidade grande.

Eu o encontrei um dia, era de madrugada... A gente voltava da pesca, como sempre, mas aquele dia foi muito especial. A gente havia pescado bem e estávamos indo pra casa pela praia com o horinzonte clareando quando encontramos um carro atolado na areia, com a maré querendo cobrir o motor. Corremos pra lá e encontramos o homem sentado ao volante, olhando pro mar sem piscar. Nós gritamos pra ele, ele parecia não ouvir a gente, então nós levantamos o carro e carregamos pra fora d'água com ele dentro. É, foi no braço mesmo, não tinha outro jeito.

Depois de tirar o carro, eu bati na janela e perguntei se ele tava bêbado ou o quê. Ele como que acordando de um sono disse que se sentiu mal e perdeu a direção, que tinha dirigido a noite toda, e que nem sabia onde estava. Dava pra ver que era gente fina, pela roupa que usava, pelo carrão dele... mas parecia meio morto, com olhos ocos olhando pra lugar nenhum. Mas, aí ele nos ofereceu dinheiro por que a gente tirou o carro dele da água. Aí eu falei, quê isso, moço, a gente é pobre, mas não tirou o seu carro dali pelo dinheiro, não, só queríamos ajudar! Ofereci um café que tinha sobrado da noite no mar, ele aceitou e bebeu com aparente prazer aquele café já frio! Fiquei com muita pena dele, sabe moça... parecia tão infeliz, o coitado!  Convidei ele pra minha casa, pra se lavar. Ele estava com o seu sapato de couro bonitão todo sujo de areia e algas.

Minha casa é pobre, hoje tem dois cômodos a mais, mas na época era só sala, quarto e cozinha, com banheirinho no quintal. O meu amigo veio comigo, limpou o sapato, olhou para meus moleques e minha patroa e começou a chorar. A minha mulher ficou toda atrapalhada, correu pra cozinha fazer café e botar mais peixe pra fritar. Mas, ele começou a cochilar no sofá entre um soluço e outro, então eu falei pra ela que devíamos deixar ele dormir.

Resumindo: ele ficou com a gente por vários dias. Ele dormia na sala, no sofá onde meus dois moleques dormiam, e eu estendi um colchão ao lado da minha cama pra eles dormirem, por que na cama dormíamos eu e minha patroa com o nenén. Por todo o tempo que ele ficou com a gente, ele não contou nada sobre a vida dele. No começo fiquei com meia suspeita, deixar ele em casa pra ir trabalhar de noite no mar não parecia coisa boa de fazer. Mas logo vi que ele não tinha nenhuma má intenção nem comigo nem com a minha patroa, achei que ele estava era com saudades da mulher dele, isso sim, pelo olhar distante dele fitando o mar, rolando a aliança, tirando e pondo. Hoje sei que o que ele sentia não era bem uma saudade, mas na época, a tristeza dele nos dava muita pena.

Depois de alguns dias, o seu olhar recuperou o brilho que eu acho que ele tinha antes de vir parar na nossa praia. Ele tirou do carro dele um saco preto, de dentro tirou uns vestidos que a gente nunca imaginou que existia neste mundo, de tão lindos. Também tirou umas jóias, de pedras e ouro, todo brilhante, reluzente... E deu tudo pra minha mulher! E foi aí que ele me deu este relógio, minha senhora, ele tirou do seu pulso e deu pra mim. Eu quis recusar os presentes, mas ele insistiu. Disse que eram presentes de coração, que ele estava perdido quando chegou na nossa praia mas que a gente tinha ajudado ele a encontrar o seu caminho.

Foi embora no seu carrão, dizendo que ia voltar. A gente não acreditou nele, sabe. Porque... ele estava voltando pro mundo dele, cheio de jóias e coisas caras, por que havia de retornar pra esta vila miserável?...

A nossa surpresa foi grande quando ele voltou. Veio direto pra minha casa, com monte de brinquedos pros meus filhos, e monte de mantimentos e roupa legal pra mim também. E aí, antes de eu ir pro meu trabalho, comendo com a gente uns peixes que a minha patroa sabe fazer muito bem, ele nos contou que tinha voltado pra ficar, que tinha largado o seu emprego, e que queria aprender a pescar! Não teve jeito de fazer ele desistir. Ele foi ao mar conosco, e por semanas ralou suas mãos de gente da cidade nas cordas e redes, até que se convenceu que não dava pra ser pescador igual a gente.

Mas manteve a palavra, nunca mais saiu daqui, aprendeu a roçar e a fazer umas bugigangas com conchas e coco, e vende na praça pros turistas...

(continua...)
Clary
Enviado por Clary em 04/06/2006
Código do texto: T169283
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Sobre a autora
Clary
São José dos Campos - São Paulo - Brasil
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