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Engenehiro Mendigo (Parte IV)

Mendigo

Aquele lugar era uma descoberta para mim. Entediada com a vida corrida da cidade, eu buscava um canto esquecido das empresas de turismo, um lugar sossegado e pitoresco sem multidão de turistas, para passar uns dias descansando. Talvez encontrasse material pra meu novo livro, cobrado pelo meu editor. Assim, a conversa com o dono do bar abriu o meu apetite de bisbilhoteira.

Aproximei-me do vendedor de bijuterias, ardendo de curiosidade sobre o homem e a sua oculta história. E a mercadoria que ele vendia me dava excelente desculpa para a aproximação, já que toda mulher gosta de se enfeitar, ainda mais uma turista sem compromisso como eu.

Fingindo escolher entre colares e braceletes, estudei o homem. O seu rosto queimado de sol e barba por fazer escondia a sua origem, e eu por um segundo achei que havia caido num desses contos de pescador. A sua roupa era gasta, as unhas pretas manejavam com alguma dificuldade as linhas de pescar trançados através dos furos feitos nas conchas do mar. Haviam chinelos de tira de borracha junto aos pés nus, mas imaginei que aqueles pés estavam habituados a pisarem a areia da praia e trilhos das matas. Ele não olhava para mim, era como se eu não estivesse ali... Se eu pegasse alguma mercadoria sua e saísse, talvez nem pestanejasse.

Finalmente, movida pela curiosidade, resolvi abrir o jogo: "E ai, moço, tudo bem? o dono do barzinho disse que era seu amigo, eu vi que ele usa Rolex legítimo, foi você que lhe deu, não foi?"

O homem ergueu a sua vista para mim com certo esforço. Logo, como quem se desinteressa, baixou o rosto para o seu colar em produção e emitiu um muxoxo. Eu insisti: Vamos, eu sou escritora, queria ouvir a sua história, talvez me inspire... sabe? gosto de histórias verdadeiras para escrever, são sempre melhores e têm algo a dizer à humanidade que uma ficção não consegue...

- Se a senhora me pagar pela história, talvez eu conte... São meus direitos autorais, eu vivi a minha história, é a vida que eu fiz para mim mesmo. Mereço uma gratificação, se ela rende alguma coisa para alguém.

A resposta, repentinamente lúcida em um português impecável, me surpreendeu, o pescador não estava mentindo sobre a origem do homem. Claro, respondi um pouco receosa (seria o homem um mercenário materialista?) Não tenho muito dinheiro aqui comigo, mas posso deixar um cheque, dependendo de quanto você quer... mas tem que ser boa história, certo? Então você me conta primeiro e aí discutimos o preço.

- Tá bem... mas neste caso, pelo menos me pague o almoço, ainda não comi e estou com fome. Enquanto eu como posso ir contando.

Aceitei, e fomos sentar no barzinho do pescador. Lá, entre um peixe frito e outro, o homem narrou a sua trajetória desde o centro neural da maior cidade da América Latina até a comunidade esquecida de pescadores no litoral norte do Estado.

- E aqui eu pretendo ficar. Já nem me lembro do que é entrar num prédio, pegar elevador... Riu um riso seco, sem emoção.

- Mas... e a sua esposa? sabe dela? vocês se desquitaram? Por que você tem que viver como mendigo neste fim de mundo, se diz que tinha tantos bens adquiridos? É algum castigo para si mesmo?

- Eu me separei dela sim. Ela ficou com a metade de tudo que a gente tinha e acho que ficou com o namorado dela também... Depois da sentença judicial, nunca mais tive notícias dela. Quanto à minha parte, ela foi gasta numa embarcação maior para os pescadores daqui poderem ir mais longe no alto mar, uma parte foi para melhorar a casa do Pedro, o dono daqui, e também para comprar este boteco, e o resto está na poupança pagando a escola dos filhos do povo daqui... Os filhos do Pedro estão estudando fora, e logo um deles vai se formar engenheiro. Emitiu outro riso, desta vez quente e afetuoso.

- E para você... nada?

- Na ocasião, eu sofri muito... queria ver a minha mulher morta, e tal... mas no fim, eu aprendi. A duras penas, mas aprendi... Dinheiro, poder, sucesso... nada disso vale a pena se a gente não tem uma família de verdade, amigos de verdade. Eu fiz besteira e perdi a minha mulher, então vi e enxerguei como vive o povo daqui... unidos, amigos leais, casais fiéis. Não quero outra vida mais, não. Não consegui aprender um ofício aparentemente simples como o de ser pescador, mas aprendi a plantar uma horta e a fazer bugigangas para turistas. Hoje, eu me dou por feliz se posso comer. Para que o resto? Deixo para a geração dos filhos do Pedro a incumbência de trabalhar para um mundo melhor, eu já faço muito não atrapalhando.

Quando eu tirei da bolsa o meu talão de cheque, ele me interrompeu.

- Guarde o seu dinheiro, moça, eu não quero não, estava brincando, testando você... Mas se quiser gastar, faça um donativo para a cooperativa local dos pescadores... estamos lutando pela defesa do lugar contra uma incorporadora que quer construir um hotel aqui.

Foi o que fiz, depois que me despedi desse estranho engenheiro - mendigo.

(fim... ufa!)

                                .o.O.o.


Nota: a história é verdadeira, contada há muitos anos por pessoas que conheceram o protagonista. Se ele ainda vive, e no caso deste conto lhe cair nas mãos, eu sinceramente espero que ele não se importe com o modo como fantasiei os detalhes que só ele conhece no seu coração.
Clary
Enviado por Clary em 04/06/2006
Código do texto: T169331
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Sobre a autora
Clary
São José dos Campos - São Paulo - Brasil
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