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Castelo de areia

Panquito enfim decidira se casar. Quanta alegria para sua mãe; A velha já não esperava viver para ver o acontecimento. Ia fazer 84 anos e estava realizando o sonho de sua vida.
Panquito por sua vez não parecia tão emocionado, falava no casamento mais como um contrato de  negócios, mas panquito não tinha negócios. Era artesão e trabalhava com prata. Seu maior problema na verdade era a cocaína. Desde que se envolvera com esta sua vida parecia girar em torno dela.
Não tinha hora para se entregar e era a diversão dos amigos. Muitos  emprestavam suas casas somente para presenciarem-no com sua típica sensação de perseguido, depois de haver cheirado algumas linhas. Não havia um carro que passasse, nem qualquer barulho na rua que fosse feito sem que panquito não fosse parar atrás da cortina se escondendo... O dedo na boca, para que ninguém fizesse barulho...sim, ele era muito divertido, e perseguido.. e agora, vejam só ,  estava se casando.
Uma Alemã. Uma santa, as pessoas diziam,  ela teria um lugar reservado no céu só por aguentá-lo, outros arriscavam. É que Panquito também mentia, daqui em diante não mais para a mãe, mentiria agora para ela: Martinha. Quanta sorte essa mulher não teve na vida!
Quando chegou ao vilarejo, muito branca e magra, com uma franjinha loira na testa que não condizia muito com sua idade(44 anos), usando um macacão jeans lhe partindo o sexo, crucificaram-na, sem que esta pudesse se defender. Não falava português, e muitos deram isso como a explicação de ela ter se engraçado por  Panquito. Somente depois de alguns meses puderam perceber que essa boa alma vinha de um intelecto e princípios muito fortes...não se interessava por moda nem tampouco pela vida de ninguém, nem dava motivos pra fofoca. Não participava das farras de Panquito e se alguém dizia que ela sustentava o vício dele, estava enganado. Pregava uma vida natural, apesar dos muitos cigarros que fumava.
O casamento ocorreu simples e  sem muitas eventualidades, apesar das três rosas amarelas que panquito trazia na mão durante toda a cerimônia. Era o seu buquê: ‘’rosas amarelas trazem boa sorte’’, disse ele ao padre.
Na hora do buquê, Martinha jogou o seu, branco, como manda o figurino. Mocinhas e moçonas, virgens ou já desacreditadas fizeram uma enorme briga para pegá-lo. Voou cabelo para todos os lados e as rosas acabaram  espatifadas, para desespero das mais esperançosas. Panquito também teve a vez de jogar o seu, -ele não perderia essa-. Os amigos ficaram desconfiados ao serem chamados para participarem  da brincadeira. Acabaram reunidos por livre e espontânea pressão e estavam juntos na hora em que ele foi atirado ao ar, e como um avião sem asas, foi de encontro ao chão. Alguns assoviaram finjindo distração e o amigo que teve o buquê mais perto dos seus pés, disfarçadamente, tentou afastá-lo com o a ponta do sapato...
Ora, vamos, que alma masculina preza se casar nos dias de hoje? Só mesmo Panquito. Sempre ele. Nosso herói! Se esbaldou na festa, celebrada na casa da mãe...cheirou tanto no banheiro da empregada, que na noite de núpcias deixou a noiva a ver navios, não funcionou. Não tinha alma nesse mundo, nem no outro que o fizesse subir. A noiva um tanto revoltada pôs a culpa no pó mas ele retrucou ofendido, dizendo que a culpa era dela que não ajudava muito. “Onde já se viu mulher? Uma noiva com uma camisola de oncinha?!   Impossível não é?”
Martinha teve uma raiva nessa noite tão grande, que no outro dia acordou toda roxa. Quando Panquito se arriscou a perguntar o que havia passado, ela muito seca respondeu: é raiva!
A lua de mel dos dois era só no que se falava no vilarejo, enquanto em cima de um cavalo, (a única coisa que tinham em comum era o amor pelos cavalos), eles desfrutaram descansados dos olhos dos demais habitantes,  a 50km dali.
Martinha pareceu relaxar já no segundo dia, mas Panquito não via a hora de voltar...olhava aquela areia branca e se lembrava exatamente como tinha sido a última carreira...”quando estaria de volta”? A palavra final foi da noiva, no sexto dia: “amanhã voltamos” disse, e nunca pôde ver seu recente marido tão feliz da vida. Tiveram uma noite de amor como nunca. No outro dia estavam de volta.
Panquito como sempre, corre em busca do mais próximo amigo. Tinha trocado uma pulseira. Fez o que tinha que fazer e pôs-se atrás da cortina, como tantas vezes...
O amigo olha-o admirado, tem uma interrogação na cabeça:
- mas Panquito,  afinal, por quê te casastes?
- Sshiiii! -  Panquito  pôe  o  dedo  na  boca e o amigo procede  em um tom mais  baixo: -....segues pagando teus vícios da mesma maneira de antes, segues mentindo, vendendo tuas coisas ou trocando por pó...não melhorastes em nada...vês? não mudastes nada.
Panquito levanta uma única sombracelha e olha o amigo com um olhar muito típico seu, muito desconfiado: “que pergunta é essa agora?”, indaga quase susurrando para que ninguém ouvisse, nem as paredes, “elas têm ouvidos’’ é o que ele diz sempre.
- ora, Panquito, somos amigos de quanto tempo? Quantas vezes me neguei a te emprestar minha casa? Sabes que não concordo com o que fazes, te destróis cada dia mais, e se permito que o faças aqui é porquê não quero ver-te por aí...
- tudo bem, tudo bem. – olha de um lado ao outro - te conto mas me vais prometer não falar nada pra ninguém...
- tá, tá
- Martinha é filha única. Sua única parente na Alemanha viva é uma tia pé na cova ,cheia de dinheiro, e ninguém pra deixar a grana. Tem um castelo por lá (como aqueles dos filmes do Rei artur) e passou tudo pro nome de Martinha quando foi internada.
- quem te contou isso?
- ora, a própria Martinha. Está só esperando a tia morrer pra botar a mão no dinheiro...
O amigo pareceu não acreditar.
- entendo...então  a tia morre, depois morre a sobrinha e você fica rico?
- mais ou menos.  Você sabe que nunca dei todo esse valor ao dinheiro.
- isso é verdade.
- esse dinheiro é o que vai  garantir minha velhice... eu não tenho ninguém por mim, nem eu mesmo me garanto...
O amigo reflete um pouco:
- mas você pode não chegar a ver essa grana nunca. Cheirando desse jeito você pode morrer antes dela.
- não digas bobagens! Sou mais novo 6 anos!
-...ou então ela pode morrer antes da tia. Já pensaste nisso? Há quanto tempo essa tia está internada no hospital?
Panquito não sabia o que responder. O assunto já o tinha deixado voltar ao normal. Teve que voltar  pra casa muito rápido. Encontrou Martinha  na cozinha.  Estava terminando de fazer o almoço e fez que não o viu . Acendeu um cigarro.
Ele observou o gesto da mulher... viu quando ela foi até a bolsa, tirou um cigarro delicadamente com as mãos, o pôs na boca, então foi a hora de pegar o isqueiro, enquanto o cigarro pendia nos lábios esperando ser queimado. “todo esse processo já é um vício!” pensou.
- eu pensei que você fosse comer - disse ele.
- como assim?
- é que estas acendendo um cigarro, eu pensei que você só fumasse depois de comer...
- isso por acaso é alguma regra? Fumo antes e depois de comer. Algum problema com isso?
- meu deus Martinha, isso vai te matar, não vês?
Ela se impacientou:
- me diga uma coisa Panquito, desde quando você começou a se preocupar com os meus cigarros?
- não são seus cigarros mulher, é a tua saúde! Não pensas nela?
- quem é você pra falar de saúde Panquito? Olha esses teus olhos, tua cara. Tu não me enganas. Eu faço que não vejo mas sei tudo que tu andas fazendo. Apenas finjo não saber para não ter que aceitar. E por favor, não tentes me enganar. Você sabe como fico furiosa quando tentam me enganar...
- sim, sim, ficas rôxa...
E a conversa ficou por isso mas não haveria mais um cigarro na vida de Martinha pudesse fumar tranqüila sem ter que ouvir “isso vai te matar mulher, isso um dia te mata’’. Panquito estava em pânico. ” Mulher, mulher...”. Ele infernizou tanto a sua vida, implicou tanto com seus cigarros que realmente um dia ela morreu: não de câncer, como era de se esperar, mas de raiva. Um infarto fulminante. Panquito não podia acreditar... ele mesmo levou-a ao hospital. Tarde demais. Não foi descoberta nenhuma doença cardíaca nela...o infarto foi nervoso, se deu mesmo pela raiva, que entupiu as veias do coração. O enterro foi no vilarejo mesmo. Quem mais chorava era a sogra da falecida... a alegria de ter casado o filho, tinha durado pouco.
Logo depois viria à sua casa, a confirmação da morte da tia de Martinha,  chegando em um telegrama. Iria ser enterrada na Alemanha como uma indigente, sem parentes nem dinheiro. Panquito apesar de não entender como uma mulher  dona de castelo e grande prestigio na Europa poderia ser enterrada como indigente, mandou que viesse o corpo para o Brasil, na tentativa de se redimir à memória de sua falecida.
Seriam enterradas na mesma cova.   Na verdade o que Panquito temia mesmo era ter a mulher, depois de morta, lhe puxando os pés a noite, como nas estórias que amedrontaram sua infância. E com esse gesto solidário, pensava ter seus descansos noturnos mais tranquilos...
Demorou dois meses pra que Panquito pudesse vir a mexer nas coisas da mulher. Quando lhe pesou menos a consciência, tentou encontrar algum dinheiro nas coisas dela. E foi lá que ele encontrou a chave para todos os seus mistérios: em uma carta que nunca chegou a ser terminada. Estava destinada a uma pessoa chamada “hank”. Era só que ele podia entender, estava escrita em alemão. Foi preciso ser traduzida por um amigo que  balançando um pouco a cabeça lhe disse:
- ela tem um amante...
Panquito quase cai duro.
- quem seria o corajoso?
- não sei, mas nesta carta ela se desculpa com ele por ter se casado com você. Fez isso para ganhar o visto no Brasil.
- aquela bruxa! Eu sempre soube...era uma miserável...
- diz também que inventou uma estória sobre um castelo no nome da tia indigente..., pra que você apressasse o casamento...
Marieta Colares
Enviado por Marieta Colares em 06/06/2006
Código do texto: T170515
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Sobre a autora
Marieta Colares
Fortaleza - Ceará - Brasil, 76 anos
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