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SÉRIE: MULHERES DO BRASIL – A MEIGA

Entrei apressado no ônibus para uma viagem intermunicipal de rotina. Seria uma viagem normal, igual a tantas outras, não fosse ela. Ela a bela jovem que chamou a atenção do meu olhar, tão logo pisei afoito o corredor do ônibus.

A garota já estava instalada. Sentada ao lado de uma colega sua, nossos olhares se cruzaram, assim que entrei no veículo. Perdi a pressa. Estava com as mãos desimpedidas e vim andando, lentamente, quase remando, devagar, apoiando-me no encosto das poltronas, sem desviar o olhar dela. Estava magnetizado.

Lívia reclinava-se tranqüila, assentada que estava na poltrona 27.  Isso era um pouco após o meio do ônibus. E nunca demorei tanto para atravessar trecho tão curto de passarela. Queria reter aquela imagem e aquele olhar.

Para meu gáudio, o meu assento era o 26, bem próximo ao dela, no outro lado do corredor, o que me permitia uma angulação propícia para olhadelas sutis, de modo que poderia continuar a minha observação da beldade, sem tornar-me indelicado ou inconveniente.

Ela era uma bela morena, de seus 22 anos; cabelos bem pretos e lisos, tipo índia, na altura dos ombros; olhos negros, penetrantes; rostinho ovalado e nariz batatinha encimando lábios vermelhos e sedutores por natureza. Embora fosse bonitinha, o que se destacava nela era esse jeitinho meigo de ser.

Rostinho de menina delicada, ela estava assentada em sua poltrona, bem comportadinha, segurando sua bolsa Louis Vuitton sobre o colo, com as mãos cruzadas. Havia um toque de meiguice no seu olhar. A feminilidade transparecia livre de seu corpo e se manifestava de todas as formas possíveis e imagináveis.

Tudo lhe caía bem. Não havia afetação. Ser meiga, ser feminina, era uma condição de sua pessoa. O modo como, volta e meia, cruzava as pernas, ressaltava não só a sua feminilidade, mas dava um toque sensual ao seu jeito de ser. Trajava uma calça jeans, bem confortável para o tipo de viagem que fazíamos, mas nem isso comprometia a sua meiguice, pois a vestimenta lhe caía muito bem e nela tornava-se peça da alta costura.

Naquela altura da viagem, ela já percebera as minhas observações fortuitas e as incursões que fazia, de soslaio, sobre seu corpo jovem. Queria identificar os traços que compunham sua anatomia. Intimidou-se um pouquinho, como sói acontecer com as meigas, mas se aprumou em seguida, recuperando sua auto-estima e o controle da situação.

Com a amiga conversava. Um diálogo culto, polido, em bom tom, que em momento algum se tornou inoportuno para os demais passageiros. Sua voz era mansa, pausada, sensual. Carregada de docilidade e leveza, pronunciando as palavras com precisão e entremeando de sorrisos cada expressão.

Simplesmente um encanto de menina; uma maravilha de mulher. A garota era tão doce, tão suave e tão meiga, que escutá-la falando, se expressando com a amiga, era como ouvir uma canção; canção de ninar. Foi o que aconteceu comigo. Viajei nos sonhos lindos de sua meiguice. Dormi. A viagem passou inteira. Quando acordei, estava na Rodoviária Novo Rio. O caderno no chão. A caneta solta no colo. Um leve toque de mãos em meus ombros. E uma voz suave e meiga a me dizer: “Moço, chegamos!” Era Lívia.
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 10/06/2006
Código do texto: T172741
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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Alex Guima