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A utilidade da futilidade

Maurício tem 27 anos, é auxiliar de escritório, mora sozinho num apartamento no subúrbio carioca. Recebe um salário que não lhe permite grandes luxos, mas para ele é  essencial estar sempre bem vestido, o que em sua visão, significa roupas de grife. Mês passado gastou metade do dinheiro com uma calça jeans e mais um tanto numa festa de música eletrônica na zona sul.
Com todos estes gastos sempre faltava para o essencial: comida, as contas da casa, as passagens para o trabalho. Para isso Maurício, de uns tempos pra cá, passou a apelar para a prostituição. Entrava em salas de bate-papo da internet cobrando setenta reais por programa. Apesar de sentir um enorme vazio toda vez que o cliente deixava o dinheiro na cabeceira da cama e saía porta afora, a necessidade de sustentar seu padrão de vida o fazia seguir em frente. Adorava que os amigos comentassem sua roupa, ser notado na noite e cantado por vários. Isso o fazia bem.
Estava pronto para mais uma balada com roupas caras da cabeça aos pés. Foi comentando com seus amigos no caminho sobre o preço de cada peça e falando mal das pessoas que segundo ele estavam mal-vestidas na rua. Estavam indo para a Barra da Tijuca, numa rave. Logo que chegou, comprou uma bebida ice e foi dançar. Gostava de ficar sempre no meio da pista. Meia hora lá dentro já tinha ficado com o primeiro rapaz e o dispensado logo em seguida. A noite corria bem, como todas as outras, até que alguém o chamou a atenção. Era seu ex-namorado, André. Ficaram juntos durante alguns meses, mas terminaram porque o rapaz mudou-se para São Paulo. O fim não fazia três meses.
— Oi André. Você aqui no Rio e nem deu notícias.
— Maurício! Que bom ver você! Vamos sair dessa zoeira e conversar ali fora.
André estava mais bonito. Mais forte. Maurício desejava sair daquele lugar a matar a saudade que sentia de sua única paixão. Jamais voltou a assumir um compromisso depois deste, foram sempre relações rápidas, casuais.
— Rapaz, deixa ver você. Você tá muito gostoso. São Paulo está lhe fazendo muito bem.
— Pára com isso, Maurício. Sua vida como está? Continua trabalhando como auxiliar?
— Tô sim. E você? Como está na concessionária?
— Consegui subir alguns degraus lá dentro. Estou trabalhando como gerente. Fui transferido para a maior loja da rede. O que está me garantindo um bom salário.
— Tá ganhando bem, mas continua sem vaidade nenhuma, não é André? Sempre básico. Camisa, jeans e tênis.
— É meu gosto. Mas você é que está parecendo um cabide de loja chique. Assaltou que loja Maurício?
— Tô podendo André. Você me conhece. Sabe que eu não sossego se não estiver a mais bem produzida na noite.
— Com certeza você está a mais.
André sempre achou exagerado jeito de se vestir do Maurício, mas nunca teceu comentário por não achar fator relevante no relacionamento dos dois. Novamente voltaram para a pista. E ficaram dançando por um bom tempo. Maurício tomou a iniciativa e começou a se insinuar para André juntando seu corpo ao dele. Começaram a dançar. Com os corpos colados se entregaram a um beijo para lá de quente. Tão quente que Maurício inconscientemente conseguiu seu objetivo: chamar a atenção de todas as pessoas que estavam ao seu redor na pista de dança.
Já eram quase 5 da manhã quando decidiram tomar o rumo da casa de Maurício. Logo estavam despidos e entregues um ao outro. Maurício possuía novamente o homem a quem ele mais desejou. Sentia-se pleno. Transaram até o dia claro quando os corpos cansados adormeceram profundamente até a tarde. Ao levantarem, foram comer alguma coisa na cozinha. Não havia muita coisa na geladeira, então tomaram achocolatado e fizeram um sanduíche. O telefone celular de Maurício tocou. Era um cliente.
— Nada de telefone por hoje. Quero curtir você durante todo esse dia - desligou constrangidamente.
— Olha Maurício. Desculpe decepcionar você, mas já tenho que ir. Combinei com meus amigos de estar na casa deles daqui a pouco.
— Esquece seus amigos. Nem parece que sou em quem tá aqui na sua frente.
Maurício novamente aproximava-se de André pedindo um beijo, tocando seu corpo, mas André se afastou. Deu a última mordida no sanduíche e foi para o quarto se vestir. Lá Maurício entrou aos berros.
— O que tá acontecendo, André?
— Qual é, Maurício?
— Eu não sou qualquer um que você pega na rua não! A gente tem uma história juntos! Você tá indo embora como se eu fosse apenas mais uma conquista sua.
—Maurício, pára de palhaçada! A gente sempre soube se divertir muito bem. Não tô entendendo essa sua cena agora. Foi muito gostoso o que aconteceu hoje. Mas logo você que sempre soube conquistar todo mundo se fazendo de vítima.
— Seu filho da puta! Sai da minha casa!
— Posso ao menos terminar de me vestir?
— Você é um lixo!
— Que isso rapaz. Nossa noite foi tão gostosa. Não foi de lixo que você me chamou horas atrás.
— Como você pode! Sai dessa porra dessa casa, agora! – exclamou Maurício misturando raiva e frustração.
André foi embora empurrado por seu ex-futuro-velho-novo-amor até a porta. Ainda de sangue quente, tomou uma chuveirada e foi para o quarto vestir-se. Somente neste momento Maurício se deu conta. Em cima da cabeceira André havia deixado uma lembrança: Setenta reais.
Lipe Martins
Enviado por Lipe Martins em 14/06/2006
Reeditado em 15/06/2006
Código do texto: T175286
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Sobre o autor
Lipe Martins
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
11 textos (566 leituras)
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