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ROMEU E JULIETA DO MORRO

- E aí, Romeu? Como vamo fazê? A gente somos de facção diferente. Nosso comando não se cruza, cara!

Julieta chorava. Romeu tentava consolar sua menina com seus carinhos desajeitados. Não tinha muito jeito para atitudes românticas. Não sabia fazer carinho, apesar de ser dócil; vivia cercado de hostilidade e disputas de território. A guerra pela disputa do ponto estava sempre ali presente na sua rotina; ao sair pela manhã e no voltar à noite.

Romeu pensava...pensava...sabia que tinha que encontrar uma solução urgente; amava Julieta e dela não haveria de abrir mão. Mas...qual a saída?

Romeu e Julieta se conheceram num baile da periferia, em meio à um tiroteio entre os morros liderados por quadrilhas rivais. Julieta foi empurrada no tumulto onde todos corriam por causa do tiroteio. Romeu salvou-a das pisadas dos funkeiros e esconderam-se atrás da escada. O lugar era seguro e bem escondido; os dois ficaram agachados e agarrados esperando terminar o tumulto. Ninguém os viu; de lá prá cá, não se desgrudaram mais. Juras de amor e promessas de sonhos eternos passavam por suas cabeças adolescentes.

- Romeu!?... o que que cê tá pensando? Não dá prá colar não, gato! Vamo cair! Cara...
- Fica fria, Jú! Tô queimando a mufa...
- E cumé que tu vai subir lá na parada, moreno!? Tem que ir trepado!!!
- Vou pelado!
- Cumé? Não vai levar uma possante?
- Não. Vou pelado... tá ligada?! Nem mesmo gosto de armas...- falou baixinho com seu modo manso-. Se os mano quizer me apagar, vai apagar mermo!...

Julieta suspirou e pensou: “Os cara não vai deixar barato...”. Seu peito ardeu de tristeza e medo. Não se imaginava mais sem seu Romeu, honesto e trabalhador e um fazedor de casas de primeira. Seus olhos inchados e vermelhos, ficaram parados olhando pro outro lado do morro: “Por que isto tinha acontecer? Seu moreno era trabalhador e nem drogas usava...”.

- Aí, Jú! Vô subir agora! Tô indo falar com o Chefe do teu pedaço...nós vai casar e quero marcar a data, ora...
- E onde vamo morá?
- Ué!... no meu cafofo.
- Tá doidão, é? Tu sabe que o mano não vai deixa eu saí de lá pra vim pro morro de cá!!! Tá viajando???
- Tô não, Julieta... tô na tua. Vou casar com tu, gata... tá ligada? Vai vendo...
- Tô ligada...mas...
- Não tem mais não...to subindo agora que depois tenho que ir pro trampo...
- Já é... – murmurou ela sem saber que atitude tomar.


Julieta fez o sinal da cruz e assistiu Romeu descendo a ladeira para cortar caminho pro outro lado. Estava angustiada e resolver ir atrás. Andou depressa mais ele já havia feito o contorno. Sua angústia cresceu e emaranhou-se pelos labirintos que tão bem conhecia. Ele já estava de frente pro Chefe. Viu a mão de seu amado agitando-se como se pedisse um tempo para explicar-se e escutou seu moreno gritando: “Tô na mão! Tô pelado!!!”. Logo depois presenciou a rajada de balas. Gritou e agarrou-se a ele tentando fazê-lo voltar a vida.

- Aí mulher!!! Tu é safada! Vai morrer também por traição, piranha! Cachorra! Mata ela!!! – gritou o Chefe espumando.

Escutou-se em todo morro novas rajadas de balas e o grito assustador do Chefe: “Leva os dois pro cimitério!!!”. A subida encheu de gente; ninguém tinha coragem de perguntar o que foi que houve.

- Cabô o circo! Vaza!!! Vaza, caralho! Sai todo mundo logo, porra!!! Fora seus babacas! Quem ficar vai fazer parceria com esses anjo no cimitério!!!

Um por um foi saindo de fininho sem atrever-se a comentar o ocorrido. Todos para seus postos enquanto Romeu e Julieta sangravam pelados seus sonhos funkeiros coloridos.




Rose de Castro
A 'POETA'
Rose de Castro
Enviado por Rose de Castro em 17/06/2006
Código do texto: T177165
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Sobre a autora
Rose de Castro
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 59 anos
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Rose de Castro