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Meu suspiro particular

"SE EU SOFRER AMNÉSIA, NÃO TENTE ME AJUDAR! NÃO GOSTEI, NÃO FOI BOM, E EU NÃO QUERO SABER DA MINHA VIDA! GRATA."

Este era o conteúdo do único papel que aquela maluca trazia na carteira, (além, é claro, do pouquíssimo dinheiro, provavelmente para a passagem - R$1.40). Estava cuidadosamente plastificado, como um documento.
É claro que não me importava o estado daquele maldito bilhete (ou seja lá o que fosse), porque eu estava desesperado! Com certeza o meu vôo já era! E tudo por causa de uma ultrapassagem no sinal vermelho...
Pode dizer, vai: "Bem feito! Quem manda desrespeitar as leis do trânsito?" Mas eu já estava saindo do país! E depois, atire a primeira pedra quem nunca ignorou um semáforozinho numa rua pouco movimentada.
Fala sério, ninguém imagina que um acidente vai acontecer justamente com você, justamente nesse dia, por uma bobagem dessa... Mas aconteceu.
Ela acordou no hospital, toda dolorida: tinha batido a cabeça no asfalto com a queda (tá bom, eu estava indo muito rápido. Reconheço). Ficara inconsciente por exatamente três horas e quarenta e oito minutos. Durante esse tempo eu não desgrudei os olhos do leito um minuto sequer e quando ela acordou, eu quase gritei de tanto alívio.
Foi aí que veio o choque: ela não lembrava de nada!
Entreguei-lhe o tal bilhete e para minha total surpresa, ela não se desesperou, muito pelo contrário: abriu um sorriso e disse com a voz mais calma do mundo:
- Que coisa engraçada.... legal!
Aí eu não agüentei:
- Engraçado? Legal? Isso pode ser grave, pode ser pra sempre! Vamos, faça um esforço. Tente se lembrar de alguém a quem eu possa chamar e avisar o que aconteceu, e onde você está.
- De jeito nenhum! Se eu não queria me lembrar, deve ser perigoso, ou no mínimo, muito chato! E se você me conhece, faça o favor de sumir daqui! Me deixe curtir esse momento tão especial.
- Sumir daqui? Fui eu que te atropelei, eu não posso ir embora! Você é minha responsabilidade! Entende agora?
- Olha, não se preocupe, eu vou ficar bem. Pode ir...
- Tá louca? Você quer mesmo perder toda a sua vida, tudo o que já viveu até aqui?
- Você é muito dramático! Eu pareço muito jovem, posso viver um monte de coisas ainda! Pode ir!
Eu não conseguia ir embora.
Vocês acreditam em amor a primeira vista? Nem eu. O que senti foi uma paixão fulminante! Por sua causa eu estava a mais de três horas num quarto de hospital e perdera um vôo que me custou alguns dólares. Tive vontade de gritar com ela, de apertar-lhe o pescoço, mas principalmente de tomá-la em meus braços e beijar sua boca, até que ambos caíssemos, sem fôlego. É claro que não demonstrei esses desejos.
Dois dias depois ela recebeu alta (isso por que me fez jurar que eu não contaria ao médico sobre a sua falta de memória). Levei um amigo que se passou por amigo dela e confirmou que seus pais estavam viajando. Ele levou até os documentos, para que os médicos pudessem registrar a "paciente Karen Araújo" nos arquivos (eu sei, eu sei que isso é crime!).
- Estou apaixonada.
Soltou essa frase com um suspiro, com o mesmo tom de voz que usaria para dizer: "estou com sono". Essa afirmação cortou o silêncio de forma tão brusca, que por pouco não acontece outro acidente de trânsito.
- O quê? Por quem? Por mim?
- É claro que não, eu nem te conheço.
- No momento você não conhece ninguém, lembra?
- Mas eu não preciso conhecer para me apaixonar. Essa pessoa existe, e vai me encontrar, me arrebatar, é inevitável que eu me apaixone.
- Se você não precisa conhecer para se apaixonar, pode estar apaixonada por mim.
- Pode ser, mas acho difícil.
- Por que?
- Porque se eu estivesse apaixonada por você, eu saberia.
Aquela conversa estava me deixando doente! Ou ela era louca, ou estava querendo me enlouquecer. Engoli seco, não queria demonstrar o que eu estava sentindo para não assustá-la.
Estávamos passando pelo Alto da Boa Vista, próximo ao lugar onde havia acontecido o acidente. Ela não lembrava de nada, olhava encantada para aquele caminho, como se nunca o tivesse visto antes. Já pensou? Poder olhar para tudo como se fosse a primeira vez! Não sentir o mesmo tédio ao passar na Presidente Vargas, a mesma monotonia que o hábito imprimiu em cada esquina dessa Cidade Maravilhosa...
Ainda me lembro de cada detalhe daquele dia. Fazia duas semanas que ela estava em minha casa. Eu não agüentava mais aquele rosto, aqueles olhos, aquele sorriso, a cada dia o meu desejo aumentava. Se a paixão fosse uma planta, a indiferença do outro com certeza, seria o fertilizante. Ela continuava apaixonada pelo tal alguém misterioso, olhava pra mim como se eu fosse seu melhor amigo, e estava completamente feliz.
Estávamos em casa quando o temporal começou. Imediatamente ela foi para o quintal e começou a dançar.
- Vem! Tá uma delícia!
Ela estava me provocando! Não dava pra aguentar!
Nem sei quanto tempo ficamos nos beijando debaixo daquela chuva.
Sabe, a paixão fica um tempo no seu coração, mas o estrago acontece quando ela sobe para a sua mente. Essa é a diferença entre paixão e amor. O amor fica no coração, mas o seu raciocínio está livre para dizer: ¿cuidado com essa atitude¿, ¿não se esqueça daquele defeito¿. Mas quando a paixão entra, ela toma conta de tudo, ela fica no seu pensamento e no seu corpo, te controlando. Não dá mais pra ver os perigos, as desvantagens...tudo o que você faz é desejar.
Os dias que se seguiram foram os mais loucos de toda a minha vida, mas chegara o pior de todos.
Ela abriu as cortinas para me acordar. Eu não sabia quem brilhava mais: ela, ou o raio de sol que invadiu meu quarto.
- Acorda, eu preciso falar com você. Estou indo embora!
- Embora? Pra onde? Recuperou a memória?
- Não, fala sério! Mas eu preciso encontrá-lo!
- Quem?
- Sei lá! Mas não é você. Descobri isso essa noite!
- Você não pode ir!
- Eu preciso ser feliz.
- Não sabe o que está dizendo, está doente! Não sairá dessa casa.
Ao dizer isso tranquei a porta. Estava completamente transtornado! Não me importava se ela era feliz, queria que ficasse comigo. Eu precisava dela. Isso a deixou revoltada! Gritou esbravejou, disse que estava decepcionada comigo, que iria embora de qualquer forma. Aí começou a quebrar tudo. Queria me forçar a abrir a porta, quebrou vasos de planta, a TV, o som, o vídeo, estava tudo esparramado pelo chão, mas eu não me importava, contanto que ela ficasse comigo.
Resolvi sair e dar uma volta, achei que ela acabaria se acalmando. Comprei flores, chocolate, estava resolvido a conquistá-la. Tá legal, eu estava maluco.
Quando eu voltei, a porta estava quebrada. Ela se fora, para sempre.
Primeiro veio a raiva. Gritei e xinguei até que não tivesse mais forças. Depois, o desespero. Eu adimito, chorei muito. Fiquei deitado naquele chão, cheio de cacos, de lixo.
A paixão estava me torturando. É terrivelmente solitário estar apaixonado.
Fiquei uma semana "desligado". Comi pouquíssimo, não fui ao trabalho, minha vida estava parada. Não há, nada que corrompa (ou traga á tona) com mais facilidade o caráter de uma pessoa do que a paixão.
Em menos de um mês eu havia sido cúmplice de falsidade ideológica, menti, mantive um cárcere privado e quase a agredi. Que louco!
Algumas pessoas pensam que a paixão acaba, não é verdade, ela simplesmente muda-se mais uma vez de lugar e vai para a memória. De lá não sai nunca mais.
Já fazem sete anos que tudo isso aconteceu. Eu me casei, amo muito minha esposa, com certeza não a trocaria por ninguém neste mundo, mas toda vez que penso nessa história, consigo lembrar de cada sensação, de cada calafrio.
Provavelmente ela encontrou a sua paixão (é inevitável passar por essa vida sem encontrá-la), mas não acho que estivesse apaixonada quando foi embora. Era uma sonhadora, pessoas assim já nascem sentindo e esperando por isso, está na alma, nem amnésia pode apagar.
A paixão não cria relacionamentos imortais, cria pessoas eternamente jovens e atraentes, não quer unir vidas sob um teto, mas em torno de uma data, de um local, de uma memória.

Heidi Costa
Enviado por Heidi Costa em 18/06/2006
Código do texto: T177994
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Sobre a autora
Heidi Costa
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 33 anos
9 textos (178 leituras)
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Heidi Costa