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Os amigos

Heitor tem 36 anos. Há dez é casado com Fernanda, dois anos mais nova que ele. Vivem um relacionamento convencional. Moram juntos, uma vida social tranqüila, bom relacionamento com família, amigos e vizinhos. Fernanda trabalha como analista de recursos humanos numa empresa recrutadora de pessoal. Funcionária exemplar, é tida como de ótimo relacionamento com seus colegas e patrões. Já Heitor é sócio-proprietário de uma empresa de assessoria de imprensa. Em pouco tempo transformou seu empreendimento num dos mais conceituados no Rio de Janeiro.
Heitor é sócio de Márcio. Amigos desde a adolescência, entraram juntos na faculdade de jornalismo. Eram como irmãos. Durante o período universitário ganharam o apelido de Cosme e Damião por estarem sempre juntos. Apesar de não chamarem muito a atenção das meninas da turma pela beleza, eram caras-de-pau o bastante para jogar cantada nas mais lindas. Heitor, o mais bem-sucedido, por dotar um senso de humor que cativava as garotas. Márcio já era mais rude. Uma vez tomou um tapa ao tentar ficar à força com uma delas numa chopada de começo de período.
Terminando a faculdade, já planejavam montar a empresa de assessoria. Entre uma tomada de decisão e outra batiam uma bolinha na quadra da universidade. Os dois eram atacantes do time da turma. Entendiam-se por música. Heitor era especialista em deixar Márcio na cara do gol para marcar e correr para o abraço do amigo. Sempre que um dois balançava a rede, comemoravam com um longo abraço e um beijo no canto do rosto. Com os corpos suados seguravam um no cabelo do outro e olhavam-se firmemente explodindo de uma felicidade tamanha que os sorrisos não negavam.
Era final do campeonato entre os cursos da universidade. De um lado o time da educação física do outro o de jornalismo. O jogo transcorria normalmente. Uma pelada característica: pouco futebol e muitas agressões à bola. Aos 35 minutos do segundo tempo finalmente um gol. O time da educação física abria o placar numa cobrança de falta em que o goleiro aceitou um frangaço. A desculpa dada depois foi de que uma das lentes de contato do míope arqueiro do time havia caído no exato instante em que o cobrador chutou a gol. Aos 42 minutos a monótona partida caminhava para seu fim quando a bola caiu nos pés do Heitor na metade do campo. Ele procurou Márcio que estava na lateral fingindo-se de morto, mas atento aos movimentos de seu amigo. Heitor lançou a bola que cruzou todo o campo para cair nos pés de Márcio que já avançava em diagonal. Rapidamente ele já estava na entrada da área. Heitor acompanhava toda a jogada e já estava livre, próximo à marca do pênalti. Márcio e Heitor olharam-se. Heitor parecia querer dizer “ toca essa bola pra mim para eu poder correr para os teus braços”. Márcio avançou um pouco mais com a bola, fechou os olhos (sim, fechou os olhos) e chutou. A bola veio violentamente de encontro ao corpo do goleiro que caiu sobre ela, conseguindo a defesa. Heitor ficou apenas olhando para Márcio sem nada entender.
O jogo acabou com a vitória do time da educação física naquele magro 1 a 0. No vestiário Heitor aos berros, chutando as portas dos armários veio tomar satisfação com Márcio.
- Puta que o pariu, moleque. Que merda foi aquela que você fez. Eu estava sozinho, de frente para o gol.
- Não fode, porque acha que eu ia passar a bola pra você. Fez uma porra de gol no campeonato todo e acha que ia conseguir marcar na decisão.
- Vai tomar no cu, seu filho da puta. Não marquei porque cansei de te colocar na cara do gol, seu veado.
- Não me chama de veado.
E obviamente Heitor chamou novamente o amigo de veado. Os dois começaram a trocar socos, Heitor caiu no chão e Márcio sobre o corpo do amigo começou a esmurrar sua cara. Somente depois que a turma do deixa-disso apartou a briga foi que a coisa se acalmou. Heitor acabou levado para a enfermaria da universidade. Márcio, depois do banho, com a cabeça mais fria, perguntou para os colegas de time sobre Heitor. Procurou na enfermaria e ele já havia saído. Rodou toda a faculdade e nada. Finalmente conseguiu saber de um colega de turma que Heitor acabara de deixar o prédio. Márcio correu até o ponto de ônibus e lá encontrou Heitor com o rosto inchado. Envergonhado e sem saber o que dizer, só conseguiu soltar um:
- Pô cara, foi mal aê.
Tentou colocar a mão no ombro do amigo que a tirou de forma brusca. Novamente tentou colocar a mão em seu ombro, mas novamente foi repelido por Heitor. Os dois tomaram o ônibus que os leva até a saída do campus. Márcio ás vezes olhava para trás onde seu amigo estava, mas Heitor passou a viagem olhando para a janela também tentando disfarçar dos demais passageiros o rosto inchado.
Ficaram sem se falar por uns dois ou três dias. O motivo da reconciliação: mulher. Heitor foi a um aniversário de um amigo de turma. Ficou encantado com uma menina. Por uma dessas coincidências da vida, a dita cuja era prima de uma amiga do Márcio. Não deu outra. Novamente no ponto de ônibus, dessa vez Heitor abordou seu amigo.
- Conheci a Fernanda, ela é prima de uma amiga sua não é?
Os dois se olharam e com um sorriso daqueles de canto da boca se abraçaram e fizeram as pazes. Márcio deu uma força para o Heitor, que começou a namorar a menina. E o tempo foi passando, eles se formaram, Márcio e Heitor com o apoio financeiro de seus pais montaram a empresa de assessoria, Heitor casou com a Fernanda e Márcio casou com a boêmia.


Heitor era o cérebro da empresa. Comandava-a com mão-de-ferro. Márcio o homem das idéias mirabolantes e principalmente o do capital para colocar em prática tais idéias. Dependeram por muito tempo do apoio financeiro do pai de Márcio até a empresa operar no azul. Heitor já não era mais o rapaz bem-humorado da faculdade. Seu semblante estava sempre carregado com as preocupações do trabalho. Márcio, por sua vez, tornara-se um homem leve. Cumprimentava todos os funcionários da empresa quando chegava e saía. Enquanto Heitor passava a maior parte do tempo fechado em seu escritório, Márcio preferia a sala da equipe.
Num desses dias de trabalho, Márcio entra no escritório e como de costume dá um beijo num canto de rosto do amigo. - E aí Heitor? Tenho duas boas notícias. Uma muito boa e outra ótima. Consegui fechar contrato com uma empresa de saúde. Está chovendo na nossa horta, rapaz. Trabalho, Trabalho, trabalho!
- E a ótima?
- Arrumei uma gata pra gente pegar de jeito. Puta que o pariu. Gostosa pra caralho, Heitor.
- E quando vai ser isso?
- Agora. Larga tudo e vamos

Estavam os dois no carro de Márcio. Pegaram a moça no lugar combinado e foram para um motel, no centro da cidade mesmo, não muito longe da assessoria, não sem antes brincarem um pouco ainda dentro do carro. Fechada a porta do quarto, começaram a beijar a moça, Heitor sugava sua boca enquanto Márcio beijava e lambia a nuca da mulher. Rapidamente estavam os três nus na cama. Márcio lambia em movimentos lentos os seios da menina enquanto Heitor a possuía por trás. Em nenhum momento Márcio e Heitor se tocavam, mas seus olhos por muitas vezes percorriam o corpo do outro. Heitor então saiu da cama e ficou sentado de frente para os dois tocando-se vigorosamente. Ao mesmo tempo em que Márcio derramou seu prazer sobre os seios da mulher, Heitor gozou sobre o tapete apenas fixo à expressão de prazer do amigo.
No dia seguinte estava Márcio almoçando na casa de Fernanda e Heitor. Ele levara uma moça, mais uma de suas conquistas, para almoçar com eles. Depois de algum tempo de conversa na mesa, os dois foram papear a sós no sofá da sala enquanto as moças lavavam a louça.
- Que foda foi aquela de ontem. Fazia tempo que não sentia tanto tesão como ontem, Márcio. Quero um bis quando eu voltar de São Paulo.
- Pode deixar comigo. Vou cuidar de trazer uma gata ainda mais gostosa.
Heitor passaria três dias em São Paulo. Estaria fechando seu primeiro contrato fora do Rio de Janeiro. Eram cinco da tarde e Márcio deveria ainda trabalhar como assessor em um evento de uma empresa de celulares. Primeiro abraçou Heitor, desejando-lhe boa viagem, e depois Fernanda um abraço mais demorado e um recado ao pé do ouvido.

- Amanhã à noite estou aqui de novo.


Fernanda e Márcio sempre foram atraídos um pelo outro. Antes mesmo de Heitor conhecê-la, eles já haviam se relacionado. Por ciúmes, eles acabaram terminando um rápido namoro de um mês e meio. Mas sempre que se encontravam havia desejo de um pelo outro. Quando Heitor e Fernanda começaram a namorar, Márcio tentou afastar-se dela, mas a estreita convivência entre os três foi tornando irresistível para ele voltar a vê-la. Lutou por muito tempo contra esse sentimento, afinal era a mulher de seu melhor amigo, porém numa dessas viagens que Heitor fez a trabalho, a mulher o chamou para um jantar entre amigos. Quando chegou na casa do casal havia apenas ela.
Fernanda o recebeu vestida num robe transparente. Sem demora, os dois se entregaram ao corpo um do outro.Ele a levou nos braços até o quarto. Na cabeceira da cama havia a foto do casal no porta-retrato. Uma foto dos dois na praia. Ela vestida num biquíni vermelho e Heitor numa sunga branca. Márcio voltava diversas vezes o olhar para a foto entre um beijo e outro em Fernanda. Foi a primeira vez de muitas outras que os dois voltaram a se encontrar. A mulher do amigo, apesar de dizer amar intensamente o marido, não se sentia satisfeita sexualmente. Ela confessou a Márcio que Heitor andava fugindo e quando transavam era frio,não o sentia. Heitor nunca comentou com Márcio qualquer problema no casamento dos dois. Márcio também nunca perguntou.


- Quem era aquela piranha de ontem?
- Ciúmes, Fernanda?
- Márcio, safado como você é, se eu um dia pensar em ter ciúmes corto os pulsos.

Disseram tais frases entre um beijo e outro. Fernanda havia preparado o jantar. Uma torta de legumes como Márcio gostava. Para beber: vinho tinto. Depois subiram para o quarto. Márcio despiu Fernanda e derramou suavemente pelo seu corpo o vinho que restara na garrafa. Percorreu com a língua todo o corpo da mulher do amigo com o gosto doce em sua boca. Fernanda contorcia-se de prazer, sensação  rara em seu casamento. Eles só não contavam com a presença de Heitor. A reunião havia sido cancelada e ele voltara para casa no domingo. Com a porta entreaberta, observou tudo o que acontecia em seu quarto sem esboçar qualquer reação. Quando o corpo de sua esposa deitou-se sobre o de seu amigo, ele desceu lentamente as escadas de casa e saiu porta afora.
No dia seguinte, pela manhã, ligou para Fernanda avisando que estaria chegando em meia hora. Márcio ainda adormecia ao seu lado. Ela o acordou e o mandou ir embora, atitude obedecida por ele. Em meia hora não havia qualquer rastro da quente noite anterior. Casa arrumada, lençóis novos na cama. Heitor chegou em casa e a mulher veio recebê-lo com um um automático “Oi amor, como foi de viagem?” seguido de um beijo. Ele retribuiu com um outro bem mais ardente e despiu com violência a mulher. Pegou-a no colo e a levou para a cama. Transaram durante toda aquela manhã como nunca fizeram.
Heitor gozou umas cinco vezes. Fernanda fingiu algumas.
Lipe Martins
Enviado por Lipe Martins em 20/06/2006
Reeditado em 12/07/2006
Código do texto: T178928
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Sobre o autor
Lipe Martins
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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