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O Valentão

Essa história aconteceu em Porto Primavera, interior do Estado do Rio de Janeiro. Faltavam dois meses para o casamento de Marcel. Depois de muito enrolar sua noiva Vera, finalmente ele subiria ao altar. Foram nove anos de namoro e ele agora com seus 29 anos estava finalmente selando a união para a alegria de sua mãe, a costureira Helena e de seu pai, o pedreiro Antônio.


- Pai, tô indo jogar bola lá no campinho.
- Vai jogar não, vai ajudar teu pai a fazer a massa pra obra da casa da outra rua.
- Pô pai, os moleques tão me esperando.
- Sem essa de pô pai, bora já.
- Eu vou jogar bola com os meus amigos – e saiu correndo porta afora sem nem dar ouvidos à ameaça do pai.
- Volta aqui, moleque. Na volta sabe que o cinto te espera.

Marcel sempre foi genioso. Quando menino voltava sempre sujo da escola, às vezes de terra, às vezes de barro, às vezes de sangue, às vezes dos três. Naquele tempo, sua mãe trabalhava como empregada doméstica na casa do prefeito da cidade. Devido a isso, ele conseguiu estudar no melhor colégio da região. Era o mais querido entre os garotos da classe. Piadista, falador, o artista da turma.
- Professora, você tá muito linda hoje, tá mais bonita que a Vera Fischer – disse ele para a professora já idosa.
- Me respeita, garoto.Eu mando bilhete para teus pais.
- Puxa professora, falo de coração. Andei sonhando contigo, pensando, um dia me caso com uma mulher tão linda quanto a minha querida professora do meu coraçãozinho.

Porém, se implicassem com ele era melhor sair de perto. O moleque era pavio curto. Havia uns garotos metidos à besta que volta e meia arrumavam alguma forma de humilhar Marcel. Escreviam na parede do banheiro xingamentos como “Marcel Caipira” ou “Marcel Jeca”. Apesar da covardia, Marcel sabia exatamente quem eram e resolvia a questão à seu jeito: na pancada.
E era bom de briga. Sempre bateu mais do que apanhou. Os meninos esnobes voltavam para casa com o olho roxo. Os pais de alguns deles algumas vezes tentavam expulsá-lo da escola, mas o prefeito sempre dava um jeito de contemporizar com a direção e o moleque escapava. Ajudava nisso Hugo, o filho do prefeito e seu melhor amigo. Hugo era um pouco mais tímido, mas não menos travesso. Aprontaram muito juntos. Num sete de setembro, todos os alunos estavam no pátio para cantar o Hino Nacional como era tradição da escola. Uns dias antes, numa daquelas advertências que ele tomava por indisciplina, ele descobriu que o hino seria reproduzido através de uma fita k7. Ele e Hugo bolaram um plano.
- A gente troca a fita que tá o hino do Brasil, por essa aqui – explicou Marcel.
- Mas o que tem nessa outra?
- Escuta aqui no walk-man.
- Caraca, a galera vai se amarrar. E a cara da diretora? Quero só ver. Isso sim é hino.
Então no pátio, todos perfilados, a diretora anuncia o hino nacional e se ouve:
“Uma vez Flamengo, sempre Flamengo...”
Hugo e Marcel cantaram a plenos pulmões com a mão no lado esquerdo do peito acompanhados pela maioria dos meninos e vaiados pelo restante. As meninas entre uma risada e outra também cantam até todos serem interrompidos pelo corte do som e o pedido de silêncio feito pela diretora da escola. Mas o estrago já estava feito. Quando finalmente se ouviu o Hino Nacional, nem os alunos e nem mesmo os professores conseguiram cantar; ainda rindo com o circo armado pelos dois.
Os dois estudaram juntos até a oitava série quando Hugo foi morar no Rio de Janeiro com a mãe depois que seus pais se separaram. Eles por muito tempo ficaram sem saber um do outro. Porém aos 19 anos Hugo voltava à cidade. Seu pai tinha planos de que ele continuasse o projeto político iniciado por sua família há décadas. O primeiro passo seria voltar a morar em Porto Primavera para tornar-se popular. Hugo nunca ligou muito para política, porém se era essa a forma de ganhar dinheiro sem muita preocupação, ele topava.
Marcel estava trabalhando como assessor de gabinete do prefeito da cidade, um afilhado político do senhor Álvaro Trindade, pai de Hugo. Sua namorada era Verinha, a quem ele conhecera num baile funk. Eles viviam entre tapas e beijos graças aos ciúmes de Marcel. Ele não suportava vê-la nos shortinhos curtos que ela gostava de usar.
- Verinha, desse jeito você não vai.
- Ah é. É você que vai me proibir?
- Sou eu sim. Volta já pro quarto e põe uma calça comprida.
- Ah faça-me o favor, homem das cavernas. Tá me achando com cara de freira?
- Freira eu tenho certeza que você não é, mas namorada minha não sai vestida de puta não.
- Seu idiota, isso lá é jeito de falar comigo.
- É jeito sim, veste logo uma roupa, Verinha. Já estamos atrasados, hoje tem show dos Mcs Bolinha e Cabeçudo e eu quero ver.
- Então vá sozinho. Tá pra nascer o homem que vai me dizer como eu devo me vestir.
- Verinha eu vou contar até três. Um, dois.
- Três. Agora pode vazar Marcel.
Marcel olhou para o alto, pensou, pensou, pensou.
- Tá bom Verinha, hoje passa, hoje passa. Mas grava nessa tua cabeça de vento. Foi a última vez que eu saí contigo assim.
- Vamos gatinho, também tô louca pra ver o Bolinha e o Cabeçudo. Adoro o Rap do Coração Partido.
E foram eles para o baile. Marcel praticamente colado em Verinha, sem tirar o braço de sua cintura.Chegando lá cumprimentaram os amigos e foram para o meio da quadra dançar. Depois de meia hora Verinha pediu que Marcel comprasse uma cerveja no bar, no fundo da quadra, enquanto ela ia ao banheiro. Aproveitando que os dois se separaram, um rapaz alcoolizado pegou-a pelo braço e disse a ela:
- Tava te olhando. Você é muito gata.
- Qual é garoto. Tá vendo que tô com meu namorado não.
- Larga ele e fica comigo gatinha. Te dou o céu, te dou o mar, te dou o ar que eu respiro pra tu, minha nega.
- Que minha nega, ai, esse bafo de cachaça. Me larga!
- Larga ela, seu filho da puta.

Pronto. Marcel não se conteve e partiu para cima do inconveniente. Logo os amigos de cada um dos lados se intrometeram e já eram uns vinte brigando. Depois de muita confusão, Marcel acabou expulso do baile e Verinha foi com ele. Acabaram sem ver o show dos Mcs Bolinha e Cabeçudo.

- Deixa eu ver Marcel. Tá muito machucado, tá tchuco?

- Tá vendo o que eu tive de fazer, sua doida. Vem nua pro baile, esses bêbados acabam mexendo contigo.
- Ai, não fala assim. Eu me visto assim porque eu gosto tá. E quando você me conheceu eu já era assim.
- Verinha, por hoje chega. Vamos pegar o ônibus logo que eu te deixo em casa. Ai meu São José, onde eu amarrei meu bode.

Na segunda-feira Marcel estava pontualmente no gabinete do prefeito. Não havia muito que fazer. Arrumava os documentos por uma meia hora e de vez em quando visitava uma obra ao lado do alcaide, que só costumava chegar após o meio-dia. Nesses momentos de ócio, ele improvisava uns discursos, sentado na cadeira do chefe.
- Povo de Porto Primavera. Prometo baile funk de graça todo sábado! Prometo também um pagode, afinal ninguém é de ferro. Porto Primavera vai se transformar na capital da alegria do estado do Rio – brincava.
- Muito bom! Muito bom! A terra do funk, do pagode e da bebida a um real!
- Meu Deus, Hugo!
- Dá um abraço aqui Marcel! Que saudade! Vamos pro barzinho aqui em frente bater um papo. Temos muito que conversar.
- Desculpa Hugo, mas não vai dar não. Tô muito ocupado com os afazeres aqui da prefeitura...
- Conta outra. Nessa cidade quem manda é meu pai e esse prefeitinho é só vaquinha de presépio. Caralho, eu querendo demais falar contigo e você distante.
- Leva a mal não Hugo, tenho coisas pra fazer, outra hora a gente se fala.
- Tá bom então. Vou te deixar aí com seus afazeres...

À noite, em casa. Marcel foi surpreendido pela conversa de sua mãe.

- Sabe quem está de volta na cidade?
- Sei não, mãe? Quem?
- O filho do prefeito.
- Pensei que esse não voltava mais não. Tanto tempo longe – tentou disfarçar. Mas sua mãe pegou-o pelo braço e olhando em seus olhos foi incisiva.
- Pela alma de seu pai. Não volte a falar com esse sujeito. Aquele lá anda com o diabo. Se eu souber que você andou novamente com ele não volta mais para essa casa.
- Que isso, mãe? Que papo torto é esse? Vamos mudar de assunto, daqui a pouco Verinha tá aqui e ela não vai entender nada se ver você com essa cara.

A raiva de Helena por Hugo vem dos tempos em que ele e Marcel estudavam juntos, os dois com 15 anos. Num dia desses, Seu Antônio fôra comprar material para uma obra de uma casa vizinha enquanto Marcel adiantava o serviço. Helena, como de costume, levava o almoço para os dois, mas como ainda tinha muita roupa para costurar, decidiu fazer isso mais cedo. Chegando na obra, procurou Marcel. Veio a encontrá-lo com Hugo nos fundos da casa.
- Minha nossa senhora!
- Mãe!
- Minha nossa senhora! Minha nossa senhora, o que é isso? Isso é coisa do diabo, meu Deus do céu me ajuda, meu Deus do céu!

Antônia caiu dura ao ver Marcel e Hugo se beijando. Marcel pediu socorro médico. Ela foi levada para um hospital em estado grave. Ficou internada por uma semana. Recuperou-se, mas acabou ficando com uma seqüela. Perdeu o movimento no braço esquerdo e nunca mais pôde costurar. Numa conversa a sós com o filho ela desabafou e implorou:
- Isso o que aconteceu foi o diabo dentro dessa família. Mas Deus foi mais forte e me deixou viva. Você tem que entender, foi uma nova chance que Ele nos deu para nos redimirmos todos de nossos pecados. Marcel, você está entendendo bem o que eu estou dizendo. Você nunca mais vai chegar perto daquele menino. Você está entendendo Marcel
- Tô sim, mãe.
- Marcel, olha nos meus olhos. Você me promete? Nunca mais, nunca mais vai falar com aquele menino, nunca mais vai falar o nome dele, nunca mais Marcel?
- Nunca mais mãe, prometo.

Marcel obedeceu a sua mãe. Estavam terminando a oitava série. Nesses últimos dias de aula passou a tomar três conduções para chegar ao colégio, obrigando a levantar às quatro e meia da manhã e andar por meia hora até chegar à caminhonete que os levaria até a cidade. Passaram a sentar afastados um do outro na sala de aula. No final do ano, Hugo foi morar no Rio e eles não voltaram a se ver.


- Aquele ali não é o filho do prefeito?
- Deve ser sim.
- E aquela menina loira do lado dele. Linda ela.Deve ser namorada.
- Eles que se danem. Verinha, vamos cuidar da nossa vida. Esquece esses aí. São de um mundo diferente do nosso.
- Olha que carro lindo. Eu ainda vou andar num igual a esse quando eu ficar rica. Rica não, milionária.
- Volta pra terra, Verinha. Vai ficar milionária fazendo unha e pé do povo de Porto Primavera? Fala sério.
- É só uma questão de tempo. Tô concorrendo a uma casa e um carro no programa do Gordão. Eu vou ganhar, ficar rica, aparecer na televisão. E quando o Gordão me entregar os prêmios um diretor de novela vai olhar pra mim e dizer: que menina linda, quero ela numa novela minha.
- Tá bom Verinha, sonha. Pelo menos ainda não tiraram esse direito do pobre. Vai sonhando. Mas sonha com os pés no chão porque se sonhar muito alto o tombo vai ser grande.
- Ai Marcel, você é que pensa pequeno. Por isso que tá nesse miserê. Olha que eu te troco pelo Maurício Mattar, heim? Vai brincando comigo.

Quatro anos se passaram. Quinze dias faltavam para o casamento de Verinha e Marcel. Ela continuava trabalhando como manicure e pedicure e ele também como assessor do prefeito só que o cargo voltou a ser ocupado pelo senhor Álvaro Trindade. Na metade de seu mandato, ele já preparava terreno para sua sucessão. O cargo seria ocupado por seu filho, Hugo Trindade.
- Ai Hugo, isso tá indo longe demais.
- Por favor, Marina, eu preciso me casar com você. Imagina só Marina Trindade Vasconcelos, primeira-dama de Porto primavera.
- Grandes merdas.
- Marina, colabora comigo. Sei que é difícil, mas eu preciso vencer as eleições. E imagina se a cidade descobre que o candidato a prefeito é veado. Minha carreira política vai para o espaço.
- Não sei por que você entrou nessa de ser prefeito. Você mal administra sua própria vida, que dirá uma cidade, por mais insignificante que seja essa aqui.
- Meu bem, quem vai continuar mandando é meu pai. Eu fico só acenando para o povo, beijando criancinhas, abraçando os velhinhos. O velho é quem manda aqui há uns trinta anos e assim continuará sendo.

À noite, Verinha e Marcel foram para o baile. Calça colada, top, preparada para o show do Bonde dos Taradões. Marcel acabou aceitando, meio que contrariado, o visual de Verinha, afinal, era o visual de quase todas as mulheres na quadra. Ele vestido de camisa branca, calça jeans e tênis também fazia sucesso com a muherada com o corpo que já era forte pelo peso da pá e dos tijolos dos tempos de obra, agora também trabalhado com a musculação que ele começou a fazer de um ano pra cá.
- Verinha, fica hoje aqui só comigo. Sem dançar hoje, valeu?
- Ah, que isso tchuco! Vir pro baile não dançar não tem graça nenhuma. Vamos nos divertir. Vem dançar vem.
- Vai dançar então. Eu fico aqui te olhando.
Verinha dançava enquanto Marcel tomava algumas cervejas, na verdade foram muitas.
- Primo! Você por aqui!
- Pois é, vou morar aqui em Porto Primavera uns meses. Menina, você esta linda. Ficou uma mulher mesmo.
- Você está um gato também. E sabe dançar funk?
Começaram a dançar juntos. Marcel que olhava de longe, já alto pela bebida, foi tomar satisfações a seu modo.
- Qual é rapá, essa mulher tem dono, falou?
E sem tempo para que o primo de Verinha explicasse qualquer coisa, deu um soco na cara dele.
- Marcel, seu estúpido. Esse aqui é meu primo. Que merda! Será que você só sabe resolver as coisas na base da porrada. Que merda!

Sem saber o que fazer, o que falar, Marcel foi embora do baile. Ficou andando pelas ruas do centro da cidade quando alguém que passava de carro o abordou.

- Sozinho a essa hora da noite?

Era Hugo que passava por ali.

- Entra aqui Marcel, deixa de bobeira.

Marcel parou, ficou olhando, tonto pela bebida, para Hugo e entrou no carro.

- Caramba Marcel, você tá bem?
- Tô bem sim, só um pouco tonto, mas tô bem. Você me deixa em casa, não, perto de casa?
- Deixo sim, eu só preciso passar na prefeitura antes, tudo bem?


Chegando na prefeitura.

- Eu preciso trazer duas caixas de documentos aqui pro carro, você tem condições de me ajudar?
Entraram os dois no gabinete do prefeito, quando Hugo foi direto ao ponto. Segurando ele pela blusa.
- Qual é Marcel, você sabe muito bem porque eu te trouxe aqui. Não fica dessa forma fria olhando pra mim. Eu sei, você ainda tem desejo por mim. Percebi desde a vez que nos reencontramos nessa sala quatro anos atrás. Por que esse medo, heim? Tira essa roupa. Fica comigo, aqui.

Foi tirando a roupa de Marcel, que não resistiu. Beijaram-se ardentemente . Hugo virou-se de costas e Marcel colocou-o com o corpo apoiado sobre a mesa do prefeito. O coração dos dois era o único som a imperar naquele lugar. Entregaram-se plenamente. Ali fazia-se claro que o amor dos dois foi maior, vencendo o tempo e a distâcia.

Quando de volta ao carro,porém, Marcel foi taxativo.
- Isso nunca mais vai acontecer. Entenda bem.Isso o que aconteceu é contra Deus, é contra Deus, tá me entendendo.
- Se é contra Deus por que estamos juntos novamente? Por que ele me trouxe de volta a essa cidade que nem no mapa está?
- Ele está me testando. Eu deveria ter resistido. O que eu fiz foi pecado.
- Pára com isso, Marcel. Você acha que o pensamento de Deus está escrito num bloco de papel. Aquilo ali é o homem querendo ser Deus. E toda vez que o homem tentou e tenta ser Deus ele desgraça a própria vida e a dos outros homens.

- Me leva pra casa, Hugo.

No dia seguinte Marcel foi ao salão em que Verinha trabalha pedir desculpas.

- Ontem à noite eu mandei muito mal. Sei que fui estúpido. Eu tava muito mal. Me desculpa mesmo. Eu preciso de você.
- Tchuco, você sabe que eu te amo. Mas você às vezes vacila muito. Mas você sabe que eu te amo. Fica assim não. Me dá um beijo. Tenho que te contar o que andei vendo para o nosso enxoval, cada coisa mais linda.

Já Hugo desabafou com Marina

- Ontem eu tive certeza de que a minha vida está totalmente ligada ao Marcel. Sinceramente não sei o que fazer. Tem essa merda de eleição, tem meu pai, tem...
- Tem eu Hugo. Olha só o que você está fazendo. Tá levando você, eu, uma cidade inteira pro buraco por causa dessa mentira. Eu nem sei porque eu ainda estou ajudando você.
- Não me deixa agora não, Marina.
- Não vou te deixar. Mas pensa bem Hugo. É a sua vida.

Os dias passaram. Era véspera do casamento de Marcel. Um Hugo transtornado foi procurá-lo na prefeitura.
- Não casa com ela, por favor.
- Fala baixo! Entra aqui nessa sala.
- Não casa com ela. Eu sei que você não a ama. Vamos embora dessa cidade. A gente vai para o Rio ser feliz.
- Tá maluco, Hugo. Nós temos uma vida aqui. Você vai ser prefeito dessa cidade e eu amanhã vou me casar. Faz o seguinte, me esqueça. Vai ser melhor pra nós dois.
- Marcel, nós crescemos juntos, nossa história.
- Não fala em história... vamos esquecer esse passado... pensa no seu futuro...
- Que porra de futuro, eu não quero ser prefeito, eu quero ficar ao teu lado.
- Hugo, eu vou me casar amanhã. Eu vou ter filhos com a Verinha, vou tocar minha vida e você vai esquecer de mim.
- A vida não tem rascunho, Marcel. A vida não se apaga. Eu não vou esquecer você. Eu não quero esquecer você. Eu te amo.
- Tchau Hugo.

Marcel chegou em casa e ficou trancado no quarto por uma meia hora. Só foi interrompido pelo chamado de Verinha que veio lhe contar os últimos detalhes do casório. Ela ficou descrevendo cada compra, cada enfeite, mas Marcel estava aéreo. Namoraram um pouco e despediram-se no portão. Afinal, o dia seguinte seria longo e era bom dormirem cedo.
Dia do casamento. Marcel estava pronto.
- Meu filho você está lindo, lindo, lindo. – alegrou-se sua mãe - Olha Antônio. Nosso filho, finalmente casado. Agora sim posso dizer: já é um homem.
- Parabéns, meu filho. Casamento é uma responsabilidade muito grande. Mas você está casando com uma moça muito bonita, um pouco doidinha, mas muito especial. Que você seja muito feliz – desejou seu pai.
- E que nos dê netos logo, logo.
- Obrigado pai e mãe.

Igreja cheia. Vieram todos os parentes das famílias. Gente que eles não viam há anos. Os bancos decorados com rosas brancas. Marcel já estava no altar e a marcha nupcial anunciava a chegada da noiva no vestido branco que foi de sua mãe. Marcel a recebeu com um singelo beijo e ajoelharam-se para ouvir o sermão do padre. A missa transcorria serenamente quando o improvável aconteceu:
- Marcel, eu tô indo embora para o Rio de Janeiro. Eu não agüento ficar nessa cidade longe de você. O tempo em que passei longe não foi e nunca seria suficiente para que eu te esquecesse. Porque o amor não se esquece, o amor não se transforma. Ele é como a poesia guardada num livro. As palavras podem adormecer fechadas em suas páginas, mas quando abertas o seu vigor ou a sua ternura está lá. E eu tô aqui Marcel porque eu te amo. Eu tô aqui Marcel porque eu sei que você me ama. Eu tô aqui Marcel pela nossa vida que só será poesia se ficarmos juntos.

E o valentão chorou, se derramou todo como manteiga fora da geladeira. Correu toda a igreja e foi ao encontro do seu verdadeiro amor. Foram para o carro e pisaram fundo deixando para trás uma igreja revoltada, enfurecida e uma cidade pequena demais para o amor dos dois. Hoje eles moram juntos. Com o apoio da mãe do Hugo, alugaram uma quitinete em Copacabana. Marcel trabalha como segurança de uma boate gls e Hugo milita num grupo de apoio aos homossexuais. Pretende candidatar-se a vereador levantando a bandeira do arco-íris. E assim vivem felizes.
Lipe Martins
Enviado por Lipe Martins em 24/06/2006
Código do texto: T181409
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Sobre o autor
Lipe Martins
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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