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Pra trás

Pra trás

        Sábado à noite num inverno de 1985.Sapatos ao chão, uma taça de vinho vazia, algumas fotos espalhadas pela cama e uma fada deitada ao lado. Um fino feixe de luz consegue passar por uma fenda deixada pelas cortinas que dançavam ao compasso do vento, iluminando o rosto dela. A pele branca brilhava com o neon que vinha lá de fora. Ela respirava sutilmente, sem pressa de acordar. O barulho do andar de baixo em constraste com o silêncio absoluto do quarto. Os pés macios e finos com as unhas pintadas de vermelho berrante desalinhavam levemente o seu aspecto de criatura mágica. Alguém bate na porta.
-Luisa, acorda! - Grita a mulher vestida de diabinha: Chifre de plástico, uma lingerie preta e um rabo de papel crepom vermelho. -Ai que merda desse rabo, desde quando diabo tem rabo? Pra ficar pisando toda hora até cair no chão?
-Que horas são? - Perguntou a fada, revelando seus lindos olhos azuis.
-São três horas da manhã. Ainda está muito cedo, Lu! Levanta daí que o pessoal tá animado! Você acredita que o nosso chefinho deu em cima de mim?
-Sério?
-Palavra de honra. Aí, eu perguntei para ele se iria me dar um aumento em troca.
-E daí? - Agora a fada já estava sentada bebendo a última gota do vinho ano 73, época em que começou a dar suas primeiras voltas de bicicleta.
-E daí que ele disse "não" e saiu para apanhar mais cerveja. É mole? Primeira festa nossa do escritório e já manda uma dessas. Por essas e outras, virava hippie.
-Não fale uma coisa dessas Adriana! Duvido que você conseguisse ficar suas roupas de boutique, seus sapatos, suas unhas pintadas! Ao invés disso, viraria hippie, morando com mais de quinhentas pessoas, sabe-se-lá aonde,vestindo batinhas, faixa na cabeça, fedendo a maconha e sem tomar banho por mais de uma semana?!
-Ai sua preconceituosa! Tive um namorado hippie na sexta série. Luiz Otávio, o nome dele. Se vestia com roupas encomendadas, tinha carro, tomava banho todos os dias, mas só fumava maconha.
A fada ainda meio grogue consegue se levantar e ir até a janela, onde acendeu um cigarro.
-Adriana, Adriana. E você acha que ele era hippie mesmo?
-Lógico! Adorava Raul Seixas, fumava maconha todo santo dia e pregava "paz e amor". E que amor hein... Ai, minha santa periquita do rabo em pé!
-Os hippies são ótimos na cama. - Disse a fada depois de soltar uma "rosquinha" de fumaça de cigarro.
-Sim, e são mesmo!Deve ser a erva que ajuda no apetite sexual. - A diabinha pede fogo à fada que logo lhe dá um isqueiro em formato de revólver de prata. - Lindo esse isqueiro, aonde comprou?
-Ganhei anteontem do alemão.
A diaba arregalou os olhos, ajeitou o chifre que estava caindo aos poucos da cabeça e falou:
-Quem diria, dona Luisa! Pra mim, você já tinha largado dele há muito tempo. Vem cá, ele saiu do lance com a cocaína?
-Nada. Discutimos feio hoje por conta disso. Quase recusei o presente, sabe? Mas também, o que me importa? Ele vai morrer do mesmo jeito e eu espero ganhando presentes.
-Credo, Luisa! Ai você falando assim é que deveria estar com a minha fantasia. Falando nisso, essa asa está meio tortinha. - A fada jogou o cigarro longe e ajeitou a própria asa de cetim branco.
-Ai, estou "desmerecendo" essas asas. Ando tão infeliz... - A diabinha tragava o cigarro aflita por uma explicação. - Não sei Adriana. Parece que idéia de namorar o Sérgio não foi boa, não tenho nenhuma afinidade com ele. Ando tão sem afinidades. Não gosto das pessoas ao meu redor... - A amiga fechou a cara. - Menos você e umas três pessoas é claro. Mas sei lá, eu fui, eu sou e sempre vou ser que nem naquela música do Kid Abelha...
-"Tenho pressa, tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim". - Completou ofegante a diabinha. Logo após deu um suspiro de cansaço. - Amiga, deixa isso de lado, vamos dançar?
- Dançar? - A fada acendeu mais um cigarro - Mas eu já danço a minha vida inteira. De manhã indo pro trabalho, tomando exporro do chefe, não fazendo uma faculdade, namorando um cara que eu não quero!
A diabinha pede fogo à amiga e acaba derrubando a bolsa dela. Um pacote com pó branco cai e se espalha no chão.
-Se você não é cozinheira nem tem pressão baixa e isso não é sal, isso só pode ser...
-Cocaína. - Fala a fada sem achar tanta importância nisso.
Então de imprevisto, a diabinha joga o pacote pela janela.Algumas pessoas que estavam lá embaixo reclamam.
-Você tá maluca? Isso me custou 10% do meu salário.
-Que importa, Luisa? Você deve comprar isso todo dia, merda!
As duas se olham como há muito tempo a fada não fazia e como se tivessem ensaiado, choram desesperadamente.
-Eu quero gritar! - diz a fada com a maquiagem caindo aos pedaços, se despindo da mágica que a envolvia há alguns minutos atrás.
-Eu também!
As duas foram até a janela e gritaram o máximo que puderam. As pessoas resmungam lá embaixo, algumas até aplaudem e outras não falaram nada. Diferentes reações, mas o mesmo senso comum. Até então, Luisa e Adriana estavam sozinhas noquarto quando apareceram diabretes, magos, coelhinhas, médicos, melindrosas, bailarinas, palhaços, super-heróis e a festa recomeçou. Aliás, tudo voltou a começar de uma forma bem diferente naquele momento.
Barata do Kafka
Enviado por Barata do Kafka em 25/06/2006
Código do texto: T182326
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Sobre o autor
Barata do Kafka
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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