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SÉRIE: MULHERES DO BRASIL – A DESCONTRAÍDA

Era uma manhã de sábado. Linda manhã de descanso. Sem ter o que fazer, resolvi colocar uma bermuda confortável e ir para a praça do bairro. Quando ali cheguei havia uma turma que se divertia e ria à vontade. Sentei-me junto a uma árvore frondosa que me oferecia sombra. Tinha todo o tempo do mundo para ver o dia passar, embora já tivesse gasto parte dele na cama. Queria sossego e paz!

Foi quando a vi. A linda e pequena Cinthya. Tal como Leila Diniz; uma pequena inigualável. Tal como Carmem Miranda; uma pequena notável. Cinthya era o tipo de menina por quem a gente se apaixona à primeira vista. Não havia como estar perto dela; sem percebê-la. Vê-la; sem apreciá-la. Era uma suave garotinha de sonhos.

A praça era simples, porém bem cuidada pela Prefeitura e preservada pelos moradores. Havia ali uma pista de skate que aglutinava a galera aficionada. Cinthya estava lá com aquela turma. Vinha de onde vinha o barulho do agito da galera. Foi a algazarra que me levou a olhar naquela direção e foi este gesto que me fez encontrá-la.

O jeito de Cinthya era casual. Como todo skatista, ela tinha como trunfo uma vestimenta simples, onde atitude e conforto eram valores a serem preservados. Cinthya seguia essa cartilha. Por isto, este seu jeito descontraído, quase despojado; divertido e alegre que me encantou à primeira vista.

Desde meados da década de 1970, quando o skatismo, como esporte, se desenvolveu arrasadoramente na Califórnia (EUA), seus adeptos têm adotado este estilo leve, descontraído, que busca uma proteção para o corpo, mas que, hoje, transcende as pistas, e lança moda e arregimenta uma geração de jovens com atitude e despojamento. Cinthya era assim. E com que graça e leveza ela transitava ante meus olhos sedentos, iluminando-me com suas cores e sua vivacidade.

Quando vi Cinthya, ela trajava uma roupa esportiva com detalhes charmosos e se fazia acompanhar de um garoto sarado que usava uma bermuda larga e baixa, seguindo o estilo de moda jovem atemporal que virou sinônimo de liberdade. Do lado deles estava uma pré-adolescente usando um minishort e um acessório hype bem marcado que é o suspensório.

Pela indumentária o grupo mantinha uma identidade própria, destacando-se dos demais transeuntes. Mas, pela beleza, Cinthya destacava-se do grupo, emprestando charme e graciosidade aos seus movimentos. Quão belo era ver aquela menina, jeito de moleque, boné na cabeça, cabelos encaracolados esvoaçantes, barriga à mostra, corpo franzino, gesticulando alegremente com seus colegas. Ela, realmente, era uma garota cativante.

Naquele ambiente, acompanhando um estilo intenso que vem da rua, vem do gueto, a garotada esbanjava descontração e espontaneidade. O grafitismo que marcava o ambiente da pista acompanhava seu jeito de vestir, criando novos desenhos multicores das camisetas e também dos shapes (as pranchas dos skates), que estavam tomadas desses novos grafismos. Tudo estava muito bem demarcado, com cores fortes e contrastantes. Some-se a isso o alto som da música que explodia de um já gasto aparelho de som que a galera arrastava para todo lado. A música variava de momento, somando ingredientes do hip hop, rock, punk e eletrônico. Dava para perceber o ecletismo daquela garotada.

Se as informações eram avassaladoras em meus sentidos (som, cores, formas, cheiros) nada era suficientemente forte em mim para provocar dispersão. A visão sabia muito bem qual era seu dever e meu olhar não desgrudava daquela garotinha sapeca que se divertia alegremente com seus colegas de esporte. Meus olhos acompanhavam o ir e vir de Cinthya na pista de skate. Contemplava-a galgando as alturas, e rodopiando, e saltando, e virando-se, e dando piruetas estonteantes que me tiravam o fôlego. Por isto que as roupas da galera possuíam sobreposições, ideal para ambos os sexos, o que além de criar combinações várias oferecia amortecimento para as quedas.

Cinthya era esta menina descontraída e alegre que me encantou naquela manhã sombria de sábado. De repente, a praça começou a encher-se de gente. Eram jovens skatistas chegando de todo lado. Carros estacionavam pelas ruas, muitos chegavam de bicicletas, populares se acotovelavam para ver o que estava acontecendo. Onde estava eu? Desligado, nem me dera conta que naquela manhã começava o campeonato inter-bairros de skatismo amador.

Como estava em busca de sossego resolvi voltar para casa. A praça já havia sido demasiadamente tomada por gente. Queria a solidão do pensamento. A paz de olhos que observam fortuitamente o desenrolar da vida. A quietude da alma que ouve as canções da natureza. Fui caminhando olhando para trás em busca de ver novamente, ao menos de relance, a descontraída Cinthya e sua beleza jovial. Não consegui, a multidão que se aglomerava ao redor da pista impedia que se visse algo em particular; somente a azáfama da turba que se agitava na gincana em sua gênese.

Após uns cochilos em jejum, na leitura sonolenta de um livro de Alexandre Herculano, resolvi ligar a televisão. A tarde já ia para além do sol inteiro do meio dia, caminhando no seu ocaso de inverno tardio. Fiz um lanche e percorri os canais na instantânea diversão de ver a vida passar na telinha colorida da máquina de fazer doidos. Até que um canal me chamou a atenção. Era um canal local que transmitia uma programação numa praça do bairro da cidade. Minha cidade, meu bairro, minha praça, minha descontraída Cinthya. Sim, acionei o canal exatamente na hora em que a pequena notável estava para iniciar a sua performance sobre o skate multicolorido que compunha seu estilo.

Ela estava exuberante. Estava alegre, descontraída, empolgada com seu momento de fama; os quinze minutos a que tinha direito segundo os estudiosos da mídia. A menina se tornou um ícone da juventude skatista contemporânea. Marshal McLuhan poderia ficar satisfeito com a entronização da aldeia global, do fato isolado que se faz fenômeno.  Eu ali, em casa, no recôndito do meu lar, naquele sossego indevassável da mansuetude reinante numa casa sem crianças, sem animais, sem velhos, sem gente torta para incomodar. Todos tinham ido passear. Eu estava só. Ali, naquele aconchego, pus-me a observar Cinthya, a descontraída, até ouvir dela no final, após seu show particular de desempenho e a vitória na primeira etapa da categoria geral feminina:

- Dedico esta vitória aos meus pais, meus amigos, meus colegas de esporte e também a um observador anônimo que hoje, bem cedo, me incentivou com sua curiosidade, seus olhares, a ter este desempenho. Não sei se ele está ai no meio desta multidão, mas saiba, valeu!

Não estava. Tinha ido para casa. Mas o destino não me negara aquele momento especial. Resolvi procurar nos periódicos locais a tabela de competição do 1º Circuito Serra-mar de Skate amador. A partir daquele momento, não perderia mais nenhuma apresentação...
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 05/07/2006
Reeditado em 06/07/2006
Código do texto: T187880
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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Alex Guima