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Folhetim

Rafael e Renato eram amigos desde a infância. Vizinhos no bairro do Méier, eram quase como irmãos. Jogavam sempre no mesmo time nas peladas, saíam sempre juntos para as festas. Rafael com 23 anos e Renato com 25 eram muito bonitos. Logo, não era muito difícil para eles atrair a atenção das mulheres. Sempre ficavam com pelo menos duas durante a noite. Mas nunca mantiveram um relacionamento longo. Renato chegou a ficar com uma menina por uns dois meses, mas nada sério. Sempre comentava com Rafael que era muito jovem para se prender a alguém.
Uns meses atrás Rafael adoeceu, teve pneumonia. Ficou uma semana sem sair da cama. Renato sempre depois do trabalho visitava seu amigo, passando horas ao seu lado. Somente uma constante situação quebrava essa felicidade. Por muitas vezes Rafael sumia, era na maioria das vezes à noite. Algumas vezes Rafael ficava à espreita esperando Renato chegar, entrar em casa. Ontem, já era por volta de uma da manhã, ele flagrou seu amigo chegar de carro com um rapaz. Rapidamente os dois se despediram e Renato entrou em casa.
No dia seguinte, Rafael que sempre chega meia hora mais cedo em sua casa com relação a Renato na casa dele, ficou controlando da sua casa a chegada do amigo. Quando chegou, esperou cinco minutos e foi até sua casa.
— E aí garoto! Chega aí, vamos lá pro quarto. Comprei uma camisa nova pra usar na pista, quero te mostrar.

No caminho para o quarto, Rafael tentava tomar coragem para perguntar sobre o rapaz de ontem.
— Não é maneira?
— Muito bonita. Deve ter gastado uma nota nela.
— Dinheiro foi feito para ser gasto. Vou ganhar dinheiro para ficar controlando. Deixa isso pra quando eu ficar velho.

A coragem:

— Rafael, você tá me olhando com uma cara estranha desde que chegou. Tá com algum problema?
— Nenhum problema não.
— Então muda essa cara de nojo aí. Parece que tá com caganeira.
— Ontem eu tava chegando em casa e vi você de carro com um cara. É um amigo teu que não conheço.

A pergunta pegou Renato de sopetão, sem saber o que dizer.

— Qual é Rafael? Tá me controlando agora?
— Nada a ver. Só to perguntando porque nunca havia visto você com esse cara.
— E?
— E porra nenhuma. Só perguntei.
— Tá bom, mamãe. Vou lembrar de te chamar quando for atravessar a rua.

E o assunto morreu por aí. Rafael em casa sentia um misto de raiva, angústia e insegurança. Passou a noite acordado, remoendo o que havia visto na noite anterior. Caiu no choro. No dia seguinte acordou decidido. Tinha algo muito importante a dizer para Rafael. Algo que por muito tempo escondera por um medo de não ser compreendido. De perder seu amigo para sempre. Mas o que havia visto era a certeza de que era o momento de ser verdadeiro como nunca havia sido para seu grande amigo. Arrumou-se para o trabalho e durante todo o dia ficou pensando na melhor maneira de abrir o jogo.
Eram seis horas, o tempo estava escuro, prenúncio de temporal. Rafael ainda não sabia a melhor forma de dizer a seu amigo o que por muito tempo escondera. Chegou em casa com as primeiras gotas da chuva caindo em seu rosto. Sentou-se sobre a cama e concluiu que não teria coragem de falar o que sentia, achou melhor escrever uma carta e entrega-la nas mãos de Renato.
Escreveu a carta de uma só vez. Estava na hora de Renato chegar em casa. Uma ligação no celular, porém, mudou seus planos. Era seu amigo avisando que estava no shopping trocando aquela camisa que comprara devido a um defeito e que poderiam aproveitar para ver um filme. O shopping não ficava muito distante dali. Costumavam ir para lá a pé. Coisa de 20 minutos.
A medida que Rafael andava em direção ao shopping a chuva aumentava. Quando já estava perto já era um temporal, uma chuva como a muito não caía na cidade. A carta estava em seu bolso. Faltava apenas esperar o sinal para atravessar a estrada para o outro lado e pronto. Mas um carro desgovernado interrompeu essa história.
Rafael estava na UTI. Seus pais desesperados, aos prantos. Renato tentava ser forte. Ficava num sofá no canto da sala aguardando a chegada de um médico. Foi quando o doutor chamou o pai de Rafael para conversar.
— Eu sinto informar, mas a situação do Rafael é muito difícil. O que está acontecendo para nós é até algo estranho. Um paciente nas condições em que ele se encontra não estaria mais vivo em muito pouco tempo, mas ele resiste por todas essas horas e ainda não estamos entendendo bem o porquê. De qualquer forma, estamos avisando ao senhor porque o quadro se mostra irreversível.

Renato estava logo ao lado sentado e ouviu calado todo o relato do médico. Os pais de Rafael foram encaminhados ao quarto do filho para um definitivo encontro. A mãe saiu do quarto desolada e o pai apenas tentava confortá-la.
Estavam novamente os três na sala numa situação que se arrastava por mais duas horas. Foi então que Renato pediu para ver Rafael. Os pais do rapaz ficaram um pouco surpresos, mas permitiram sua entrada. Estavam os dois juntos, sozinhos, pela última vez. Renato ficou por um bom tempo apenas olhando Rafael como que recordando tudo que viveram e, sobretudo, o que não viveram e deixarão de viver. Foi então que Renato pegou a mão de Rafael e inclinou-se em direção ao seu ouvido e num firme sussurro disse:
—Eu te amo.
Depois beijou seus lábios docemente.
Saiu daquela sala serenamente assim como estavam as feições de Rafael. Menos de quinze minutos depois o médico deu a notícia de que Rafael havia falecido. Sem ter muito mais o que fazer ali, Renato despediu-se dos pais do rapaz. Quando já deixava a sala, o pai de Renato chamou-lhe num canto :
— Eu fiquei um pouco em dúvida se deveria te entregar esta carta. Estava no bolso do meu filho. Mas é a vida dele, é a sua vida. Me sentiria culpado se não a entregasse. Espero que signifique muito para você como, pelo que está escrito, significa...significou para ele.

Renato somente quando chegou em casa abriu a carta para ler.

“Eu por muito tempo guardei um segredo. Um segredo difícil de guardar. Por muito tempo lutei com todas as minhas forças para mantê-lo guardado. Mas eu percebi que estava lutando com uma arma covarde. Estava usando meu medo para esconder esse segredo. Medo de você, de não querer nunca mais me ver; medo dos meus pais, de estar frustrando expectativas, medo do mundo; mas medo de mim mesmo acima de tudo. Medo de não ser forte. Medo de não saber mais quem sou.
Mas eu encontrei num sentimento essa força. Encontrei no meu amor por você essa força. Por isso escrevo essa carta sem qualquer certeza do futuro, se você não irá nunca mais querer me ver, se nunca mais vai trocar uma palavra comigo. Porque o meu amor por você é grande demais, ele não cobra nada, e eu saberei seguir em frente. Mas eu quero que você saiba que nessa carta está a vida de alguém que agora entende porque encontrou motivos para sorrir guardando esse segredo. Porque tinha alguém ao seu lado. Esse alguém sempre foi você. Mesmo não podendo te sentir, mesmo não podendo te tocar, era te olhar e saber de um motivo para a felicidade. Renato, eu te amo. É tudo o que resume esse tempo todo a seu lado. Eu te amo Renato, eu te amo.”

Renato guardou a carta e chorou.
Lipe Martins
Enviado por Lipe Martins em 08/07/2006
Reeditado em 26/11/2010
Código do texto: T189986
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Sobre o autor
Lipe Martins
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
11 textos (566 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 14:55)