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VIDA E MORTE BORORO

O dia amanheceu triste na aldeia bororo de Porto Seguro. Arethuza, a pequena índia do coração de todos, morrera sem uma lágrima, na seca noite de inverno. Havia quinze dias que ela vinha lutando contra o veneno inoculado em seu corpo por uma cobra venenosa. A picada tinha sido detectada e isolada. Medicações da floresta haviam sido ministradas, mas foram dias de angústia e tensão na aldeia, culminando com a fatalidade.

Arethuza já tinha completado seus trinta e sete anos. Mãe de cinco filhos, era endeusada por todos da aldeia desde a adolescência, quando sua beleza despontou altiva e pujante, chamando sobre si os olhares dos machos. A cor morena de sua pele, os músculos enrijecidos pelas brincadeiras serelepes nas matas e nos banhos de mar, lhe emprestavam uma definição corpórea de rara beleza. Além disso, ela era dona de um belo rosto, emoldurado por uma vasta cabeleira negra que lhe caía como véu. Os olhos vivos e negros como jabuticaba e seus lábios carnudos ensejavam o saboreio de uma fruta doce.

A menina acostumara-se a dormir na rede da maloca de seu clã familiar, juntamente com irmãos, primos e tios, compartilhando o mesmo espaço de descanso e proteção noturna. Como era costume entre seu povo, o primeiro índio que a convencesse a ir dormir com ele, a teria por mulher.

Foi assim que, aos dezessete anos recém-completados, aquela linda índia – ainda menina, ainda sonhadora -, fez-se mulher. E naquela noite os céus da Bahia se fizeram mais negros, para dar vazão à luz das miríades de estrelas que saudavam com seu fulgor o amor de Arethuza.

Os anos se passaram e por todo o tempo a índia manteve seu poder de atração na taba. Tanto sobre machos como sobre as índias que viam nela sua representante para reivindicações junto aos chefes da tribo. Quando Arethuza percorria o eixo central da aldeia, desfilando sua graça e beleza, atraía sobre si os olhares – embevecidos de todos, apaixonados de alguns -, que se deixavam levar pelo encantamento que ela promovia. Como expressão máxima do fino acabamento da obra arquitetônica de seu corpo escultural de mulher índia, ela apresentava um belo par de seios, em formato de pêra, que quais duas torres de segurança máxima, aconchegavam seu jovem esposo nas noites de amor dos céus de Porto Seguro.

Foi por ocasião do nascimento de seu primeiro filho que a admiração deu lugar ao endeusamento. Uma linda menina chorou naquela manhã bororo. Todos se espantaram com a beleza da criança e exclamaram: "Aiyra Aisó Amanajé Amanaiara", que, traduzido, quer dizer: “formosa filha mensageira da senhora da chuva.” Quando, nos anos seguintes, vieram as outras duas meninas e os dois meninos, o carisma de Arethuza junto à tribo só se fez aumentar, tal a capacidade que tinha de dar à luz lindas crianças. Mas, não era para menos: ela era uma linda mulher índia!

Mulher de baixa estatura, por isso uma pequena admirável, conservara ao longo dos anos seu jeito adolescente, seu corpo encantador, seu sorriso espontâneo. Tudo isso, mesmo depois dos cinco partos que lhe consumiram as energias e foram precedidos de longas gestações. Mas, com que rapidez ela recuperava sua forma corpórea, retomando sua disposição e a boa forma física.

Agora, porém, tudo se perdera. Arethuza morrera tragicamente e na taba só havia consternação e pesar. Como era tradição na aldeia, seu corpo foi tomado e enterrado na ocara, bem no centro do pátio. Todos estavam em polvorosa naquela manhã. Havia ainda um ar de surpresa com o acontecido, embora as notícias que iam se espalhando nos dias de sua enfermidade não fossem nada boas. Mas ninguém queria perdê-la; logo ela! O pajem quis tranqüilizar a todos e entremeando com baforadas de seu cachimbo branco, feito com osso de capivara, dizia:

- Abaetê Abaetetuba mbaekwara Eçaí yacamim rudá... / Ela agora descansa e nós ficamos com sua bela imagem...

E o índio velho percorria o contorno circular da pequena multidão que se aglomerava no pátio central da aldeia – nenhum bororo ficou em sua oca alheio ao acontecimento – e repetia essas palavras, soltando baforadas de seu cachimbo branco e entoando canções milenares dos bororos.

- Ela agora descansa e nós ficamos com sua bela imagem...

O velho pajem tinha razão. Arethuza nunca poderia morrer velha! Até os trinta e sete anos conservara a beleza da adolescência e era esta beleza rara, de uma índia brasileira, que iria ser preservada na memória da tribo. Arethuza tornara-se um mito entre os bororos e sua imagem seria guardada por todos nos registros da consciência.

Passaram-se três meses. Estava no tempo de desenterrar Arethuza e resgatar seus ossos. Segundo a cultura bororo, seus ossos seriam retirados da terra e levados para o baíto. Ali no baíto, que era a Casa de Ritual dos bororos, seus ossos seriam pintados e adornados.

O serviço começou a ser feito numa tarde. O mestre de cerimônias estava contrito. Também tinha consciência da gravidade e da importância da situação. Ali não estava uma morta qualquer, mas os ossos de uma deusa da taba. Recebera a encomenda do curumim-guarda-ossos e, agora, juntamente com seus assistentes, iniciava a limpeza de cada um, preparando-os para o ritual.

O baíto estava lotado de índios. O ritual da purificação dos ossos ocorrera no prazo previsto. Ao redor da mesa da purificação, a família e os amigos prestam homenagens várias e também choram copiosamente a partida definitiva do mundo dos vivos de sua amada Arethuza. O povo Boe vive no cerrado. Os horizontes abertos e a luz intensa são partes da vida e se refletem em tudo. São grandes cantores.

Homens e mulheres formam um coro de vozes graves e agudas dentro do Bai Mana Guegewu, a casa dos homens. O maracá está sempre presente, na mão do cantor, dando o pulso do canto, abrindo a comunicação com o mundo dos espíritos. Naquele momento era dentro do baíto que as vozes se uniam no grande coro da lamentação da perda de Arethuza.

Para a cultura ocidental, pintar e enfeitar ossos pode parecer algo macabro. Mas, para os bororos, aí estava um gesto último dos viventes, preparando seu morto para uma vida que o homem branco desconhece e que, portanto, não pode aquilatar seu valor.

Toda a grande família de Arethuza, e seus amigos próximos, ajudaram de alguma forma, na ornamentação dos ossos. Seja dando uma opinião, ou mesmo retocando algum ponto ou acrescentando algum detalhe de cor, forma ou desenho. Assim, o trabalho ritual de preparação dos ossos se cumpriu em tempo hábil para a continuação da cerimônia, além de ter ficado muito bonito. Aquele estava sendo um dia desgastante. Ainda bem que naquela manhã, antes de saírem da maloca, eles haviam se servido de um delicioso aaru, espécie de bolo preparado com um tatu moqueado, triturado em pilão e misturado com farinha de mandioca.

Quando o mestre de cerimônias deu por encerrada esta etapa do ritual, olhando para o viúvo e os pais de Arethuza, recebeu deles a confirmação de que deveria prosseguir. Pegou, então, a cesta funerária – costurada com uma agulha de madeira e linha feita de babaçu -, e a colocou sobre a mesa dos trabalhos funéreos, convidando os presentes a comparecerem. Um a um todos os presentes foram tomando os ossos e depositando-os reverentemente na cesta. Depois que todos os ossos foram acondicionados na cesta funerária, o mestre de cerimônias tocou com a flauta de bambu uma canção triste que imitava o canto da graúna, sinalizando com isso que o Aroé/cadáver estava pronto para ser novamente enterrado, deixando assim, definitivamente, o mundo terreno e partindo para a aldeia dos mortos.

É triste lembrar que os índios bororos no início do século XIX formavam um grupo étnico com mais de 10 mil indivíduos, mas hoje, a comunidade dos bororos restringe-se a menos de mil, estando localizados apenas no Mato Grosso. Mas, nos tempos de Arethuza viva, toda a cultura bororo efervescera por todo o Brasil, espalhando mensagens de vida e esperança nas matas brasileiras. O significativo ritual funerário impressiona a todos. A tribo há de se separar da pequena Arethuza, mas o faz resgatando toda a sua tradição milenar e fazendo-o com qualidade e emoção, pois se tratava de uma índia que deixara marcas profundas entre os seus patrícios.

O ritual funerário de Arethuza dá margem a importantes acontecimentos que vão movimentar a aldeia. Todos estão presentes naquele sábado de lua cheia. Os céus se abrem de estrelas luzentes para receber da terra mais uma habitante da aldeia dos vivos. O grupo coeso dos índios mantém um silêncio pétreo enquanto a família da morta deixa o baíto e vem em direção a ocara, ao centro do pátio, trazendo a pesada cesta funerária que contém os ossos trabalhados artesanalmente de Arethuza.

A partir daquele rito fúnebre, novas relações entre homens, mulheres e crianças vão se estabelecer na taba. Um grupo de vinte e cinco adolescentes, na faixa de dezessete a dezenove anos, está paramentado com trajes de sisal e penas de arara, rostos pintados de urucum e perfilando-se de forma séria e organizada no canto esquerdo do local da cerimônia. Aguardam a sua vez de participar nos ritos da noite festiva. Entre os bororos, cerimônia fúnebre era ocasião para a iniciação dos meninos na vida adulta. E aqueles índios adolescentes estavam entre animados e assustados com a novidade.

Enquanto a noite não chegava para o ritual de separação final dos ossos de Arethuza, a aldeia viveu um dia de atividade febril. Em cada oca havia alguém fazendo alguma coisa para transformar a festa numa grande celebração. Todos estavam empenhados em oferecer o melhor para a celebração do ritual. Os bororos se esforçariam para resgatar os símbolos culturais e renovar sua rica mitologia para eternizar a memória de Arethuza. Várias atividades comunitárias ocorreram durante o dia.

Se o ritmo da aldeia se alterara por conta do rito funeral, não seria por isso que o dia deixaria de ser especial. Havia atividade para todos. As crianças e adolescentes embrenhavam-se nas matas próximas para buscar matéria-prima. Iam, também, até a praia trazer conchinhas e outras ofertas do mar para os enfeites. Os jovens e adultos laboravam alegremente na confecção de ricos adornos cerimoniais. Todos estavam atarefados, procurando dar a sua contribuição para o bom funcionamento da solenidade.

Quando tudo estava pronto, com a aldeia enfeitada em toda a sua extensão, não havendo nenhuma oca sem adorno ou arrumação, o sol já tinha se posto. Foi servido um pirão de farinha de macaxeira com fartas postas de pirarucu e tambaqui para todos. Os indiozinhos lambiam os beiços com a fartura das guloseimas. O grande tacho de coco açucarado, pôs a criançada para sorrir e o refresco de guaraná da Amazônia, servido à vontade, completou a festa.

Somente depois que a cesta funerária foi respeitosamente depositada no local apropriado, de onde seria levada para o centro da terra, é que os festejos começaram. Enquanto a família caminhava solenemente, todos guardavam respeitoso silêncio em homenagem à morta. Deu-se início, então, aos festejos e às danças. Os instrumentos de percussão ecoavam nos ares e convocavam os bororos a baterem firmes os pés no chão. O estrépito das batidas ecoava fazendo coro com os atabaques. Uma nuvem de poeira vermelha se levantava daquela terra morena.

Índias e índios protagonizaram naquele momento, a mais sofrida dança de perda de um ente querido. Enquanto marchavam, numa dança fremente e cadenciada, emitiam gemidos de dor e sons guturais que provinham de suas almas sofridas. A comunidade bororo chorava a perda de sua índia deificada em vida.

Toda a aldeia estava concentrada na realização de seu mais complexo ritual associado à morte. O ápice da cerimônia estava por acontecer. Ox-Andxy-Gó, o índio que ficara viúvo, representaria a morta e não o pai dela, como era costume. Isto porque o estado de saúde do velho não estava nada bom. Da Casa Ritual, o baíto, ele sai ornamentado como manda a tradição: traz um diadema vertical com penas de arara e um colar de unhas de tatu-canastra. Quando ele chega ao centro do pátio com a pequena família, a multidão dá passagem ao representante da morta e intensifica os gritos e danças por uns cinco minutos, num frenesi tresloucado difícil de ser entendido pelo homem branco. Onde vão buscar tanta energia e vigor para homenagem tão simbólica não se sabe, mas participar de ritual tão entusiástico é de arrepiar. Após esta demonstração efetiva e efusiva de pesar, todos caem num silêncio mítico, deixando só falar as vozes da natureza.

É quando se percebe o crepitar dos troncos de árvore e dos galhos secos que queimam ardentes nas quatro fogueiras levantadas nos quatro cantos da aldeia. O vermelho do fogo invade o espaço, toma conta do breu e ilumina a noite ritualística dos bororos.

Era evidente que o pouco contato dos bororos com o homem branco lhes dera maiores condições de preservar sua cultura. A enorme área que se estendia desde pouco além da divisa com a Bolívia, até o sul de Goiás e o Mato Grosso, compunha a reserva que abrigava os bororos. Foi o que restou de toda uma presença bororo por este Brasil. A taba de Arethuza não sabia disso, quando celebrava sua transposição do mundo dos vivos.

Mas, o que significava aquele longo ciclo de rituais dos bororos? Vê-los ali naquele desempenho estonteante de celebração da morte de uma de suas filhas, não revelava para o estranho, o que estava a acontecer de fato. Depois do longo silêncio que se sucedeu à chegada de Ox-Andxy-Gó, a aldeia irrompeu num pranto convulsivo que nunca se viu igual. Todos choravam e choravam; e as lágrimas iam se derramando por seus corpos suados da dança; e o urucum rublo do corpo tornava-se brilhante ao reflexo das labaredas das fogueiras; e os gemidos e lamentações ecoaram nos céus da Bahia de todos os santos ao encontro dos antepassados bororos e se espalhou pelo éter da terra brasilis, terra do papagaio e do pau-brasil; terra da ararinha-azul e do mico-leão-dourado; terra do jacaré-do-papo-amarelo e de tantos animais, índios e brancos que vão se extinguindo a cada geração.

O quarto de centena de indiozinhos bororos foi trazido para o centro da celebração e posto enfileirado diante do cacique, do pajem e do representante da morta. Nesta altura, o choro já havia cessado e todos aguardavam o pronunciamento do cacique. Em breves três minutos o chefe falou, palavras fortes, celebrando a história dos bororos e conclamando a aldeia à comunhão e à preservação dos valores indígenas. O pajem entoou canções cerimoniais e Ox-Andxy-Gó deu uma tapa na testa de cada jovenzinho perfilado, levando-os a caírem ao chão, prostrados, quando uma cuia contendo uma mistura de ervas amargas foi passada para cada um que sorveu uma porção de sua consagração.

Este é o momento de preparar a passagem dos meninos para a idade adulta, com a furação de orelhas, lábios e nariz. Cada um vai se levantando avidamente diante do curandeiro que inicia a furação. É um momento de dor, mas, também, de vitória. Um a um vai encarando e vencendo a sua sina. O maracá canta nas mãos do músico e a música forte da floresta abafa as dores e propõe resignação. Após, formou-se um grande círculo de homens ao redor dos vinte e cinco rapazes, que começaram uma encarniçada luta corporal entre si, chamada javari, e que se constituía numa competição cerimonial desportivo-religiosa. Enquanto isso, os homens batiam palmas fortemente com as mãos, ditando o ritmo da luta e estabelecendo uma tensão drástica ao ritual.

Quando tinha entendido já ter chegado o clímax da luta, o cacique levantou o seu cetro cerimonial, feito de jeru, árvore de madeira dura, e, imediatamente as palmas cessaram e os meninos encerraram a luta, caindo exaustos no chão de terra batida e recebendo o batismo da consagração, em forma de jatos de água fria jogadas das talhas ali postas para o serviço.

Fiquei a imaginar que iniciação sexual era essa que sugava toda a energia dos rapazotes, deixando-os totalmente extenuados e nem um pouco dispostos a dispêndio da libido. Só depois fui entender que o rito era de autorização e não de realização. Ledo engano para quem pensou que os rapazinhos, após o ritual, passariam a mão na primeira indiazinha que vissem pela frente e se embrenhariam pelo mato à dentro, abandonando definitivamente a festa. O objetivo era declará-los oficialmente aptos perante a tribo a viverem uma vida sexual ativa. Fora isso, cada clã que tratasse de cuidar das suas cabritinhas...

As atenções agora estavam voltadas para o cesto funerário. Lá dentro estava o Aroe/cadáver e ele faria uma viagem. Nesta viagem, ele se transformaria de Aroe/cadáver em Aroe/alma. Esta era uma viagem ritualística que a tribo celebrava naquele momento. Arethuza esta partindo do mundo terreno para chegar à aldeia dos mortos. Nesta viagem, porém, passaria pelos estágios transformadores e purificadores dos quatro elementos da natureza (terra, ar, fogo e água). Enquanto cantam e dançam, os bororos vão encenando a passagem do Aroe/cadáver pelas etapas diferenciadas deste processo. Os estágios são vivenciados com intensidade. Há coreografias e cantorias específicas para cada estágio.

Os bororos representam cada estágio de forma teatralizada, de modo a reproduzir sua crença ancestral. O ponto máximo da encenação é quando eles julgam que o morto tenha chegado à aldeia dos mortos. Arethuza adentra esta aldeia. Há vibração sonora e epidérmica entre os índios. Eles são sensitivos o suficiente para perceber que algo está acontecendo no mundo espiritual.  Para os bororos esta aldeia dos mortos é um retrato espetacular e um tanto quanto cíclico da aldeia dos vivos. O que há neste plano transcendental em nada difere do plano terreno. Só que em sua reserva é a aldeia dos vivos; no além, é a aldeia dos mortos.

O ciclo ritualístico se completa. Depois de uma celebração exaustiva cuja culminância foi o re-enterro dos ossos transformados da morta e que se estendeu pela noite e pela madrugada, todos foram para suas ocas dormir, enquanto Arethuza batia à porta da aldeia dos mortos pedindo licença para entrar.

Finalmente a alma de Arethuza encontra sua vida no além-túmulo. O que ela encontra em nada difere da sua experiência terrena. Havia ali uma reprodução, no mundo dos mortos, da aldeia do mundo dos vivos: a organização social era a mesma de sua taba, as divisões de clãs seguiam a mesma tipologia. Era um mundo tal qual ela se acostumara em sua tribo. Inclusive percebeu que se confirmara a expectativa de experenciar as mesmas alegrias e contradições da existência material.

Assim que chegou à aldeia dos mortos, Arethuza foi para a maloca e tomando a canoa - aquela embarcação a remo, esculpida no tronco de uma árvore e que lhe era tão bem conhecida - e foi para a beira da praia. Sentiu vontade de pescar. No outro dia, sairia para uma caça, mas naquele momento queria pescar, de preferência gostaria de saborear um tucunaré. Armou o puçá na canoa, a trezentos metros da praia, e mergulhando nas águas deixou à mostra seu belo corpo moreno. Com braçadas firmes e seguras retornou a terra firme e ficou esperando a armadilha para peixes dar o resultado devido.

Enquanto esperava o resultado da pesca, Arethuza sentia os lábios como japira. O gosto de mel lhe travava o pensamento. Algo lhe faltava. Não sabia identificar quem ou o que. Na aldeia dos vivos Ox-Andxy-Gó sentia a mesma coisa, quando se estendeu na rede maior da maloca. Ela tinha medo de eçaraia, o esquecimento, mas uma sensação interior lhe indicava que tudo iria se desvendar em breve. Não lembrava de pessoas, de coisas, de situações, de sabores, de gostos, de festas. Lembrava que era feliz. E isto era tudo. Em sua face, cada olho se fez eçai. Era um olhar pequeno, mas cheio de vivacidade e esperança. Estava nesta contemplação, à beira da praia, aguardando o puçá ser baloiçado, quando olhando para os céus de um azul tão límpido e reconfortante, teto do firmamento sem nuvens e a refletir o brilho intenso da luz solar, viu um guaratinguetá se movendo suavemente em direção sul. Aquela reunião de pássaros brancos se deslocando nos céus da aldeia dos mortos, trouxe conforto ao coração de Arethuza que, prenhe de amor, dormiu sob as sombras de uma milenar palmeira imperial. Ela aguardava em seu corpo moreno as promessas do Amor do além.
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 09/07/2006
Reeditado em 10/07/2006
Código do texto: T190423
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Sobre o autor
Alex Guima
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