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Festa de amigos

- Paulinho vai?
- Vai.
- Você acha deselegante pedir pra ele levar um prato?
Lya embatucou. Era uma festa naquele melhor estilo happy-racha, em que os amigos se reúnem na casa de alguém e cada um leva um prato e sua própria bebida. Dona Corrita ficou preocupada diante da revelação da sua filha de que o Paulinho ia também. Afinal, ele não era mais uma criança que se pudesse levar de bolo e ninguém perceberia. Já havia ficado rapaz, já bebia, não era mais como naquele tempo em que bastava enfiar a meninada no carro e pronto.

Bem que Lya podia levar uma amiga pra festa em vez de Paulinho. Moça dá menos trabalho. Costumam ser mais comedidas, as porções são menores, e geralmente só querem dançar e conversar. Homem é mais complicado. Quando comem, comem muito, bebem muito, e geralmente são eles que cometem as grosserias, que entram nas brigas. Paulinho era bom moço, mas, nunca se sabe, essa juventude de hoje...

Mas o fato é que chegar na festa a família inteira e mais um jovem faminto e bebedor   de uísque, bem, era meio embaraçoso. Então, dona Corrita já sabia que teria que aumentar a comida. Seria tão bom se Paulinho ajudasse com uma parte das despesas! Mas, apesar de serem vizinhos desde quando ele era garoto, a boa senhora achou deselegante bater na casa ao lado e pedir. Por isso perguntou à filha, um tanto apreensiva: Será que faz vergonha, sondar se ele pode levar alguma coisa?

E Lya, depois de pensar um pouco, disse que não deveria haver mal em pedir uma ajuda, eles já se conheciam de tanto tempo...

- Eu vou falar com ele.
- Vá. Mas fique esperando na sala. Vocês já cresceram, e eu já ia mesmo aproveitar a deixa pra dizer que não quero você no quarto dele.
- Mas nós somos amigos...
- Depois discutimos isso. Por hora, evite.
- Certo...

E Lya, que era a filha adolescente, saiu. Ficaram então a sós a mãe e a pequena Suzzana, de 5 anos, sentada num canto da cozinha, muito interessada num pedaço da cerâmica do chão,onde brincava de ver duendes e elefantes. Estava naquela fase das perguntas. Era uma linda menininha, de corpo ágil e olhos doces. Virou-se para a mãe.

- Mamãe, o que é isso?
- Bolo.
- Me dá um pedaço?
- Dou, mas só 1, que é da festa.
- Vai ter festa?
-Vai.
- Onde?
- Na casa da Silvinha.
Pausa. Apenas uma ou outra mosca entrava pela janela e saía pela porta, desinteressada.
- Por que você está cortando o bolo?
- Porque vou levar os pedaços já cortados.
- Por que?
- Porque uma parte vai ficar aqui.
- O que é isso?
- Uma vasilha vermelha.Vou botar uma parte do bolo aqui pra gente poder comer em casa. Entendeu? Essa parte vai pra festa, e essa fica em casa na geladeira.

E nisso iam os alegres preparativos da família de Dona Corrita & convidado. Do outro lado da cidade, a referida Silvinha engatava animada palestra com seu marido Márcio, sobre a festa que se realizaria, dentro de poucos minutos, ali na cobertura deles.
- Amor, tá tudo pronto?
- Quase. Só falta a vodka, mas Marcelo disse que ia trazer.
- Esse Marcelo é meio abusado... Acredita que uma vez eu vi ele no mercadinho aqui perto, saindo com uma sacola, e ele não me viu... Depois ele chegou aqui com uma garrafa de vodka pela metade, mas eu reparei no rótulo, era novo... Acho que ele comprou e deixou uma parte no carro.
- Sério?! Mas eu até que entendo o cara... Aquela Corrita ama uma vodka , é capaz de a garrafa voltar vazia, se ela estiver aqui.
- É, Corrita é bem boazinha, mas é meio pinguça, bebe mais que o marido... E aquela filha dela se veste tão mal, coitadinha, a mãe devia ensinar... Ela...
- Eles chegaram!
As visitas chegaram, fazendo muita festa e barulho. Corrita e Silvinha uniram-se num cordial abraço e trocaram dois beijos daqueles que não encostam no rosto e estalam bastante. O anfitrião cumprimentou o amigo recém-chegado com as expressões de sempre, e, como é de praxe, ofereceu logo uma bebida. Porque é regra do convívio social que as mulheres elogiam-se nas suas aparências, e os homens se convidam para beber, ou falam de futebol. São formas de galanteio que variam, apenas, de sexo para sexo, mas produzem o mesmo efeito.

Paulinho sentou ao lado de Lya e passou o braço por cima da cadeira dela. Tinha na rua um fuxico que eles andavam de namoro. Tudo corria bem, bem mesmo, até a hora em que o bolo acabou. Susy chorava copiosamente.
- Buáaaaaa....
- Diz, lindinha, o que é que você quer? A tia Silvinha dá pra você.
E o pequeno tórax subia e descia, tremendo. Agora era Corrita que perguntava.
- O que é que você quer, meu bem?
- Eu quero bolo!
- Susy, mamãe não pode dar bolo a você porque o bolo acabou, tá vendo?
- Acabou não, mamãe, tem lá em casa, aquele que a senhora botou na vasilha vermelha dentro da geladeira,lembra? Que a senhora guardou pra gente poder comer em casa!
Enfim, exceto um ou outro incidente feito esse, do qual ninguém está livre, tudo correu maravilhosamente. Afinal, nada que a força dos afetos sinceros e a grande amizade não pudessem contornar.





Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 13/07/2006
Código do texto: T193395
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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
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Jéssica Callou